Chamego: xodó para se chegar ao dengo

Por Davi Nunes

Foto: O` kiins Howara

A transposição do sentimento africano para o Brasil ocorreu muito através das línguas que eles trouxeram para cá. A língua como revestimento sensível da nossa fraturada humanidade, transposição dos laços profundos do coração, da ancestralidade afetuosa que resistiu às atrocidades transatlânticas – absurdas ações que duraram e duram séculos. Dois continentes e um mar tingido de sangue, não foram suficientes para destruir a beleza dos sentimentos originários dos diversos povos africanos que chegaram por essas terras.

Os povos bantos foram os primeiros a chegarem nesse país, de maneira que as línguas da raiz banto: Quimbundo, Quicongo, Umbundo, entre outras, influíram de forma substancial na formação do  português brasileiro, conseguiram influenciar nas diversas estruturas do idioma e colocaram na vitrine da fala e escrita signos que nos religam a uma maneira de sentir e pensar africano, que permaneceu e permanece na nossa forma de demonstrar afeto e saber.

Assim, uma das palavras que está dentro dessa raiz estruturante na constituição do português, ou  como nos diz Léila Gonçalez  do “pretoguês” brasileiro (a qual me atenho aqui) é a palavra “chamego”, ou mais africanamente escrita “xamego”.

O chamego é um sentimento de atração – repuxo de aconchego ancestral íntimo – de negrxs que veio com os povos bantos da África e ganhou campo fértil no Brasil. É lastro de afeto que busca re-ontologizar e afro-referenciar as pessoas negras, é o flerte e o bem-querer que se bem feito se chega ao xodó para daí se construir o dengo.

Talvez pode se equiparar com a paixão, mas a paixão na cultura ocidental funciona mais como um desalinho dos sentidos, que pode pender para algo bom ou ruim. Entre a tragédia e a benevolência a linha é tênue. Diferente do chamego que é alinho manhoso dos sentidos. É sublimação positiva dos sentimentos. É alinhamento ancestral: xodó.

Estar de chamego com alguém é estar preocupado em encantar a pessoa do nosso desejo, há poesia e flerte libidinoso nisso, não é sentimento murcho, preenche a existência. O chamego é força propulsora de beleza, é o religamento dos continentes afastados, que se manifesta no frio que esquenta o espírito a eriçar os pelos: arrepio.

Além disso, pensando de maneira mais macro, o chamego nas relações familiares e quilombolas é uma prática social de restabelecimento ontológico, afetivo. Se a escravidão e a antinegritude trouxeram e trazem o banzo – trauma na psique e no corpo negro – o chamego cura, restabelece, dá sentido onde tem desespero. Faz com que se vislumbre o dengo e resista às tormentas negrofóbicas que nos afeta no mundo.

Por isso, antes do dengo tem o chamego. Tem que saber “chamegar” para arar o terreno da afetividade na manha, assentar o xodó, “ôsadia”, fluir de peles, prazeres e fertilidades, entrelaçar corações, Okan, para erguer de forma suprema o dengo.

Davi Nunes é um poeta, contista, roteirista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2019), Zanga (2018) e Banzo (2020). É graduado em letras Vernáculas, Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB e faz doutorado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-RIO.

Afropessimismo: teoria da violência antinegra

Classificar é Saber?, 2016. Obra de Rosana Paulino

Por Davi Nunes

Neste diálogo inicial sobre o afropessimismo, faço uma genealogia breve, incompleta, da construção do pensamento dessa corrente teórica, politica, literária e filosófica. Apresento os principais autores e autoras, tanto os que serviram de base de releitura, como os que veem sistematizando a reflexão teórica. Reflito também sobre os seus principais gestos de pensamento e desloco brevemente a teoria afropessimista para pensar a violência antinegra no Brasil.

O afropessimismo é um fenômeno contemporâneo que surge como uma teoria crítica através dos intelectuais negros e negras atuantes em instituições acadêmicas no norte global, notadamente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Por outro lado, alguns dos seus princípios básicos (como nos diz os próprios afropessismistas) germinam do pensamento de intelectuais negros da América Central que produziram suas obras em contextos coloniais e metropolitanos do ocidente. Um desses intelectuais que influenciam o afropessimismo é Aime Cesaire, poeta martinicano, ideólogo do conceito de negritude, ele trouxe em O Diário de retorno ao país natal, obra publicada primeiramente em 1939, o princípio do fim do mundo, uma das bases epistemológicas do pensamento afropessimista. Cesaire nos disse: “– É preciso começar! /– Começar o quê?/ – A única coisa no mundo que vale a pena começar: o fim do mundo, porra.” Outro intelectual das Antilhas que influenciou e influencia de forma fundamental o pensamento afropessimista é Frantz Fanon: os teóricos afropessimistas fazem uma leitura aguda do psiquiatra, ensaísta e filósofo da Martinica, principalmente dos estudos que se referem à psique negra, à psicopatologia e à negrofobia, um dos conceitos fanonianos que, penso eu, levaram os intelectuais afropessimistas a definirem a concepção de antinegritude no mundo.

Outro teórico importante para a construção do pensamento afropessimista é o historiador, nascido na Jamaica, Orlando Patterson, pois os afropessimistas pegam emprestado a sua definição de escravo para entenderem a ausência de reconhecimento ontológico e da morte social do negro nas sociedades contemporâneas. Patterson teoriza a escravidão como uma dinâmica relacional entre morte social (o escravo) e vida social (o humano). Ele define a morte social do escravizado em três fatores: a desonra generalizada (morte ontológica e moral) a alienação natal (separação dos laços de parentescos e de ancestralidade do escravizado) e a violência gratuita, ilimitada, isto é, a violência no corpo do negro não está ligada à desobediência, ou mesmo, a algum levante, ela é um ritual de manutenção permanente da escravidão e da posição do homem branco como senhor, como humano.

Vale salientar ainda outra influência teórica relevante na construção do pensamento afropessimista que são as inserções epistemológicas das feministas negras. No entanto, o feminismo afropessimista é uma crítica radical da teoria feminista não-negra. O afropessimismo teoriza e aí entra os gestos de pensamento do feminismo negro da crítica literária Hortense Spillers, principalmente em seu livro ainda não traduzido no Brasil Mama`s Baby, Papa`s Maybe: an american gramar book em que Spillers teoriza a negritude como efeito da violência estrutural, em oposição a pensar a negritude como uma performance e personificação de atributos culturais ou mesmo antropológicos. Vale nos ater que a antinegritude sempre pensou o negro como cultura, não como existência, sendo essa umas das formas da morte ontológica negra. Além de toda essa genealogia teórica, o afropessimismo é influenciado também pelo pensamento político dos movimentos negros radicais de guerrilha dos anos de 1970 dos EUA, como o Exercito de Libertação Negra.

Os primeiros teóricos a sistematizarem o pensamento afropessimista, articulando as suas metodologias e bases filosóficas, foram Frank B Wilderson III, Jared Sexton e Saidiya Hartman.  Wilderson é professor presidente do departamento de estudos afro-americanos da Universidade da Califórnia, Irvine. É poeta, cineasta e autor multipremiado. Seus livros, basilares para o pensamento afropessimista, são Incógnitonegro: a memoir of exile and apartheid (2008); Red,White & black:cinema and structure o U.S. Antagonisms (2010) e o Afropessims (2020), um livro hibrido que mistura memória e teoria crítica. Já Jared Sexton é professor universitário na Califórnia, tem vários artigos sobre o afropessismo, cito aqui um: The social life of social death: on afro-pessimism na black optimism. E outra importante teórica modeladora do pensamento filosófico e político do afropessimismo é Saidiya Hartman, professora universitária e escritora multipremiada nos Estados Unidos, deixo aqui o livro dela Lose your mother: A journey along the atlatinc slave route.

Trago Frank B Wilderson, Jarad Sexton e Saidiya Hartman como intelectuais basilares na construção do pensamento afropessimista, porque, embora a literatura do afro-pessimismo seja ampla, esses textos muitas das vezes confessam serem derivados dos parâmetros conceituais e teóricos estabelecidos por esses três teóricos.  No Brasil, João H.Costa Vargas é um dos intelectuais percursores em utilizar as bases filosóficas e as metodologias afropessimistas para analisar a antinegritude no país. Há vários artigos de João Vargas publicado em revistas brasileiras e internacionais sobre o assunto, destaco o artigo, publicado na Revista Em Pauta (2020) Racismo não dá conta: antinegritude, a dinâmica ontológica e social definidora da modernidade. Outro intelectual importante para a entrada do pensamento afropessimista no Brasil é Osmundo Pinho que, junto com João Vargas, organizaram o livro Antinegritude: o impossível sujeito negro na formação social do Brasil (2016). Cito esse dois no Brasil, mas há muitos outros intelectuais negros e negras como a intelectual carioca Luciane O. Rocha que tem atuação acadêmica no Brasil e nos Estados Unidos entre outros(as) que veem publicando textos acadêmicos como também obras literárias que se aparentam com o afropessimismo.

O afro-pessimismo é uma lente de interpretação que explica a dependência da sociedade civil à violência antinegra – um regime de violência que posiciona os negros como inimigos internos da sociedade civil. Os afropessimistas nomeiam a violência que atinge a população negra no mundo de violência gratuita e a violência que afeta outros grupos subalternos (operários, mulher não-negra, queer não-negra, indígenas, esquerditas não-negros, entre outros) de violência contingente, isto é, a violência condicionada à alguma reação à opressão desses grupos, no caso dos povos originários na defesa de suas terras e no caso do operário, ele resiste a tentativa de expropriação pela poder supremacista do valor-tempo-trabalho. A violência aqui está relacionada à tomada de algo que reveste esses grupos de valor ontológico.

No caso do negro a violência antinegra, ela é gratuita, pois mantem o sentido da própria humanidade, são rituais de prazer e renovação psíquica para a raça humana.  Explico melhor: um dos princípios básicos do afropessimismo está na afirmação de que a humanidade é tornada legível através da distinção irreconciliável entre humanos e negros. E esta cissiparaidade ocorre por meio da violência antinegra, da violência como um ritual de manutenção da própria humanidade. A humanidade entendida aqui como uma categoria, um conceito europeu que, em seu processo de funcionamento, mantem o negro fora de sua esfera de reconhecimento. Apesar de seu aparente universalismo, a humanidade é particular e excludente. Frank B. argumenta que o humano mantem a sua existência através da morte social e ontológica negra e a tecnologia mortífera para que isso funcione é através da violência gratuita, ilimitada e antinegra. Assim, a manutenção da vida humana está ligada aos rituais de violência impostos incessantemente sobre os corpos negros.

Os afropessimistas buscam meditar e analisar, a partir do espaço do corpo negro e seu entorno, como a negritude pode ser pensada, ou seja, apresentada e representada, em um mundo antinegro que molda e estrutura todos os aspecto da existência negra, exceto – ou incluindo – o que quer que escape. 

Uma das articulações intelectuais realizadas pelos teóricos afropessimistas que me parece extremamente relevante é a centralidade do negro em suas construções epistemológicas, isto é, conceitos como antinegritude, negritude, negro, não-negro,   permite aos teóricos afropessimistas se aterem a questão do negro sem as determinações epistêmicas (como nos diz Toni Morrison) da mirada branca. Os afropessimistas reformulam o racismo como uma relação baseada na antinegritude, e não na supremacia branca, ou de outra forma, eles empurraram completamente a estrutura conceitual do racismo para uma apreensão da transformação histórica mundial implicada no surgimento da escravidão. A linha de cores, por assim dizer, opera com a divisão do mundo em regiões de negritude e não negritude.

O conceito de antinegritude me parece, como chave teórica, ser extremamente precioso, pois permite observar na sociedade como o todo, mas especificamente também nos vários âmbitos da vida negra, as suas manifestações imperiosas e desestruturantes e no caso do Brasil, a gente consegue perceber a antinegritude nas favelas, nos quilombos, no Movimento negro. É um poderoso conceito para entender as violências que nos interpela no mundo, mas permite também um mergulho especifico nas mazelas que nos envolve em nosso próprio grupo racial. A antinegritude é precisamente o motivo pelo qual podemos ter tanta violência militarizada direcionada às pessoas negras nas favelas quando os militares e a polícia são majoritariamente negros. Isto fica latente quando olhamos os casos de violência policial, aprisionamento e genocídio negro em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e no Brasil como um todo. Vale pensar o argumento de Frank B, em entrevista cujo título é Afropessismo e os rituais da violência anti-negra: uma entrevista com Frank B. Wilderson III  traduzida por Allan Kardec Pereira em que ele nos diz que a antinegritude é uma força mobilizadora dentro da psique negra, como também é uma força mobilizadora dentro da psique não-negra e isso movimenta as violências diversas, seja dentro da própria comunidade negra, haja vista o feminicídio presente nelas, como também a totalidade estrutural que engendra o nosso genocídio no mundo.

A antinegritude é a interioridade do auto-ódio e a exterioridade na vida negra do que a intelectual carioca Denise Ferreira da Silva denomina em seu brilhante livro A dívida impagável, de violência Total, que são as formas jurídicas coloniais da violência antinegra. Assim também Jared Sexton compreende que o afropessimismo é uma leitura do que se ganhou e se perdeu na tentativa, no impulso de delinear as fronteiras espaciais e temporais da antinegritude, de delimitar as “más notícias” da vida negra, de fixar o seu alvo e escala precisos, de encontrar uma borda além ou antes da qual a verdadeira vida se desenrola. É uma tentativa de resistir a essa força centrífuga que nos consome com medo e horror ou, como venho dizendo, nos esgota com o banzo.

O afropessimismo também vê as políticas de coalisão de forma desconfiada, porque as coalisões exigem uma lógica de identidade e diferença em que os interesses comuns se confundem com interesses particulares e normalmente os grupos mais poderosos e privilegiados da aliança sempre impõe seus interesses. Talvez o que pode exemplificar isso no Brasil são as politicas de coalisão do Movimento negro com a esquerda branca, união que sempre levou pessoas não-negras ao poder depois de lutas coletivas, no entanto o saldo para a população negra foi sempre precário e antinegro. Os afropessimistas colocam a necessidade da criação de uma imaginação radical negra e não pensar apenas em suas demandas inclusivas.

O afropessimismo levanta alguns questionamentos por ser uma teoria política e filosófica criado no norte global, vale notar, criada pelos impulsos organizacionais de militantes americanos e britânicos em particular. No entanto, como mostrei no início desta fala, os afropessimistas constroem seus pensamentos através da revisão do trabalho de teóricos e intelectuais da América Central e da África. Por outro lado, eles advogam que apesar das diferenças interpessoais e institucionais de ser negro nos Estados Unidos, na América do sul e na África, é a presença do negro, a sua corporeidade que movimenta a violência antinegra que no abate.

Penso que o afropessimismo como uma teoria de análise da violência estrutural, como nos diz Frank B, ganhara solo fértil na realidade antinegra e de violência gratuita que os negros enfrentam no Brasil, no entanto para fazer jus à metodologia de releitura dos afropessimistas aqui, nesse país, faz-se necessário a leitura crítica, a invocação da obra que trata de forma sistemática da violência gratuita sobre o negro brasileiro, falo do livro de Abdias do Nascimento O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Desconfio que uma das vias para a construção de uma teoria da violência como o Afropessimo no Brasil tem que passar por essa cartografia mortífera da violência antinegra na obra de Abdias Nascimento.

Davi Nunes é um poeta, contista, roteirista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2019), Zanga (2018) e Banzo (2020). É graduado em letras Vernáculas, Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB e faz doutorado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-RIO.

Afropessimismo e o encarceramento das pessoas negras

Por Davi Nunes

imagem de presos do carandiru

    A história do cárcere da população negra vem desde o translado, a escravização compulsória, estende-se aos bairros-prisões, as favelas, e se solidifica no sistema prisional atual, as penitenciárias. Depois que fomos abduzidos do continente africano há mais de 500 anos por alienígenas com a cor pálida da morte entramos no tempo do cárcere, do capital e do genocídio.

   A crítica literária americana e teórica afropessimista Hortense Spillers denomina esse tempo do qual as pessoas negras foram capturadas e aprisionadas de Tempo acumulativo. Para ela, e outros(as) teóricos(as) afropessimistas, as formas passadas do terror racial – plantation, açoites, estupros e demais violências advindas do sistema escravocrata – desaguam no presente de genocídio negro, racismo e aprisionamento em massa e o futuro, no sentido acumulativo, resta ser apenas o que já foi, uma reverberação e ampliação das violências vivenciadas.

   O corpo negro está, para os afropessimistas, preso nesse tempo e o único projeto possível é o de destruir o mundo. Como nos diz Frank B Wilderson III “O que estamos tentando fazer? Estamos tentando destruir o mundo. Dois projetos irreconciliáveis.” Desconfio que os afropessimistas estejam falando do fim desse Tempo acumulativo em que o corpo negro está capturado e continua sendo esmagado em um déjá vú que comporta, desde abdução fatal do continente africano, muitas gerações.

    De acordo com os afropessimistas, o nosso problema, como pessoas negras, é  estar preso em um completo cativeiro desde o nascimento até a morte e viver continuamente uma relação de coerção, via brutalidade policial, em nossa interação com Estado e com os cidadãos brancos. Além disso, preso nesse tempo, nós vivemos expostos a uma superviolência externa, e existimos em uma sopa interna que tem o auto-ódio como uma de suas principais substâncias.

     Para esses teóricos, nos negros vivemos o apocalipse e desde o translado transatlântico entramos em uma distopia, em um mau lugar, em que não conseguimos nos desvencilhar dos seus grilhões. Estamos presos em um mundo antinegro, um mundo organizado pela a supremacia branca em que temos a nossa estrutura de reconhecimento como ser negada sistematicamente.

    De acordo com Frank B Wilderson III estamos vivendo hoje o estado de maior encarceramento de pessoas negras, uma pandemia. Um cativeiro maior até do que no século XIX. Parece que uma em cada seis pessoas negras estão de alguma forma encarceradas no mundo. O Brasil ocupa, com quase 1 milhão de presos, a terceira posição no ranking de países com maiores populações carcerárias, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 2 milhões de presos, e da China, que acumula 1,6 milhão.

    No Brasil a cada 23 minutos um jovem negro é morto e as estatísticas nesse Tempo acumulativo são sempre trágicas e mortíferas para a população negra. Vivemos em um cativeiro temporal e é nesse sentido que o teórico afropessimista Jared Sexton busca – como estratégia teórica – delinear as fronteiras espaciais e temporais da antinegritude presente no mundo. Ele tenta desvelar o propósito e a mecânica da antinegritude como uma forma de encontrar uma borda além, ou antes, onde a verdadeira vida negra se desenvolva.

   Há um sistema de anti-vida às pessoas negras que os afropessimistas buscam revelar a sua engrenagem de encarceramento, alienação e morte para (no parafuso solto da Matrix branca) tentar achar alguma possibilidade de escape do Tempo acumulativo, que para mim é uma escala temporal do aprisionamento, do genocídio e da antinegritude em que a população negra no mundo se encontra submersa.

Davi Nunes é um poeta, contista, roteirista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2019), Zanga (2018) e Banzo (2020). É graduado em letras Vernáculas, Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB e faz doutorado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-RIO.

A influência de Lima Barreto na novela Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof de Sílvio Roberto Oliveira

Por Davi Nunes

babacov

Li a novela Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof, de Sílvio Roberto Oliveira, lançado pela Organismo editora (2019) ,viajando de ônibus de Salvador para Cachoeira. O transito da viajem me levou ao transito de escritores. Sílvio Roberto se apossa, com o devido agô, da tradição novelística de Lima Barreto e a estende em novas linhas e enredos na contemporaneidade. O corpo textual negro sendo tecido com muitas mãos no tempo. Penso eu.

Sílvio Roberto Oliveira é soteropolitano, tem formação em Letras Vernáculas com Letras Clássicas (UFBA), Mestrado em Teoria da Literatura (UFBA) e Doutorado em Teoria e História Literária (UNICAMP), no qual defendeu a tese sobre a poética de Luiz Gama. Professor Titular de Literatura Brasileira da Universidade do Estado da Bahia, desenvolve pesquisas em torno de literatura negra e linguagens, tais como quadrinhos e cinema.

 A sua novela de estreia, Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof, no cenário literário brasileiro dialoga com o livro Os bruzundangas de Lima Barreto. Há muita bruzundanguice na Bazófia fabulada por Sílvio Roberto, pois elas – a República dos Bruzundangas  e a Bazófia – são alegorias de uma mesma tragédia, de um mesmo país, o Brasil.

Se em Lima Barreto o recurso crítico utilizado foi a sátira às instituições, em Sílvio Roberto também a sátira permanece e aparece outras dimensões críticas à  violência,  ao aprisionamento e  à eminente morte dos corpos negros.

Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof dialoga também com outra obra pouco conhecida de Lima Barreto, chamada Aventuras do doutor Bogóloff. Os dois personagens Babacof, de Sílvio Roberto, e Bogóloff, de Lima Barreto, saem de suas terras natais: Yuri Babacof não tem o local de origem definido no enredo da novela, contudo tromba e descamba em Bazófia –  espelho alegórico do Brasil criado pelo autor baiano. Já Bogóloff sai da Rússia e chega ao Brasil como imigrante e vive as peripécias que desvelam as falcatruas políticas e estruturais que afligem as instituições brasileiras até hoje.

Sílvio Roberto, em sua novela, se utiliza da cultura popular figurada no personagem Procotó, homem negro, arquétipo de várias anedotas e narrativas de resistência e luta para o povo oprimido de Bazófia. As narrativas sobre Procotó são espiralares, contadas através do ponto vista de vários personagens na novela, o que o transforma em uma figura mítica, em uma presença-ausência que contrasta com o falso heroísmo do personagem Yuri Babacof.

O escritor baiano através dessa operação estética e dialógica com Lima Barreto atualiza a tradição novelística de fins do século XIX, preenche-a com a cor do nosso tempo, com as questões que afetam duramente o povo negro: o cárcere e o genocídio fabulado de maneira fantástica em sua escrita.

A obra se insere no acervo da literatura negro baiana e brasileira, compõe um corpo textual que advém dessa relação umbilical barretiana em níveis e tons de influência diferentes, assim como em meu livro Zanga, Editora segundo Selo, e  O livro preto de Ariel de Hamilton Borges, Editora Reaja. Óbvio que o diálogo de Sílvio Roberto com Lima Barreto é mais frontal como venho mostrando, é o continuar de uma tessitura novelística.

 Vale ressaltar aqui também o papel de três editoras que vem construindo um novo cenário na literatura baiana: a Editora segundo Selo, a Organismo Editora e a Editora Reaja. Essas editoras veem sistematicamente publicando escritores e escritoras negras, rasurando um sistema asfixiado há muito tempo e conquistando novos leitores a cada publicação.

 Assim, a novela Tombos e tosses do revolucionário Yuri Babacof surge no momento importante para a literatura escrita por pessoas pretas na Bahia, uma literatura ainda pouca divulgada no cenário nacional, mas que estética e discursivamente vem propondo outros paradigmas para a literatura produzida no Brasil.

Davi Nunes é mestre em Estudo de Linguagem – PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil. Publicou Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2015),republicando uma nova edição do livro pela Editora Malê (2019).Publicou também o livro de contos Zanga (2018) pela Editora Segundo Selo.

EM CARTA INÉDITA MONTEIRO LOBATO EXPÕE SEU RACISMO À MACHADO DE ASSIS

 

Por Davi Nunes

carta racista de monteiro Lobato falando de machado de assis

S.Paulo, 17, 05, 944

Meu caro Sergio Buarque:

        Uma cobra invadiu-me o cérebro: mas felizmente foi uma cobra de vidro, que me proporcionou agradáveis momentos de palestra literária com um certo menino magrinho que incorporou no físico e no valor mental ótimas conversas: delicioso passeio por obras e individualidades em companhia dum penetrante Virgílio. Excelente a contra crítica do Machado de Assis. Ah, se aquele negro ressuscitasse e viesse ler tudo quanto se tem dito dele, e ainda visse que monetariamente só vale 500 reis…

         Adeus, Buarque. Nós só nos reencontramos de 20 em 20 anos. Até, pois, 1964. 

         Do velho camarada

   Lobato.

Nesta carta do escritor Monteiro Lobato, endereçada para Sergio Buarque de Holanda, famoso crítico literário e historiador brasileiro, em 17 de maio de 1944, fica exposto como o seu cinismo escritural anti-negro, evidente em suas obras, não poupou nem o maior escritor brasileiro de todos os tempos – Machado de Assis.

Monteiro Lobato descreve na carta um momento de satisfação crítica e intelectual, deleite temperado com o fermento doentio do seu espírito de porco, o racismo. O autor retrata um encontro com um jovem intelectual, ressalta o seu valor mental – o alinhamento do sujeito com as suas críticas sádicas – e físico –  magrelo tipo a esqualidez europeia ideal ao seu gosto eugenista.

monteiro racista

Falo isso porque para Monteiro Lobato e para o pensamento racista comum, a humanidade e a inteligência está depositada em determinados corpos: brancos, europeus e masculinos. O corpo negro, nesse sentido, o corpo machadiano, seria a antítese do humano, não poderia possuir uma existência ontológica, teria que ser demolido, expurgado, eliminado do seu status de ser. Por isso que a elite intelectual brasileira, com sua anti-negritude sistêmica e histórica, embranqueceu Machado de Assis. Para eles, valores como genialidade, saber e maestria não podem estar presentes no corpo de um homem negro, por isso buscaram destituí-lo, a todo custo, da sua negritude, isto é, do sumo aparente do seu gênio, da sua completa negridão.

machado preto sempre

Já o escritor de Sítio do Pica Pau Amarelo, O presidente negro, Urupês, dentre outras obras, já apontadas por intelectuais negros e negras como racistas há algum tempo, expõe na carta o prazer que teve em dialogar com o jovem sobre literatura, perpassando obras e vidas dos escritores e se esbalda ironicamente (e aqui entra o racismo recreativo e a tentativa de epistemicídio tão comum nas rodas de conversas da branquitude literária brasileira) quando se refere à Machado de Assis.

Ah, se aquele negro ressuscitasse e viesse ler tudo quanto se tem dito dele, e ainda visse que monetariamente só vale 500 reis.

Monteiro Lobato, neste trecho da carta, direciona, e aí eu consigo ouvir a sua voz sarcástica e espumante, tipo um integrante Bruzundanga, como diria Lima Barreto, da Ku  Klux Klan (visto o seu alinhamento já comprovado com esse movimento em sua época) todo o seu racismo a Machado de Assis. Ele age por uma tripla operação na tentativa de colocar o Bruxo do Cosme Velho e sua obra no negativo absoluto. Primeiro, o racializa através de uma vocalização típica de senhor de escravo “aquele negro”. O termo negro é usado em seu sentido pejorativo, objetificador. Segundo, o desejo de Monteiro Lobato para que Machado, hipoteticamente, ressuscitasse está ligado a sua vontade sádica de o ver morrer uma morte epistemológica e literária, devido às criticas e ditos de seus pares, provavelmente da Sociedade Eugênica de São Paulo da qual era membro. Terceiro, está interligado como aspecto tão baixo e verminoso quanto os outros dois. A necessidade de Lobato monetarizar por baixo as obras de Machado, numa tentativa mesquinha de escarnecê-las economicamente para desvalorizá-las simbólica e literariamente.

Esse tripé racista de Monteiro Lobato é acumulativo e está presente até hoje, é só ir a alguma das Academias de Letras no Brasil, observar os prêmios e concursos literários, que só premiam escritores brancos, entender a dinâmica excludente das grandes editoras com relação aos escritores negros e negras e sacar o desenrolo da crítica nas universidades. O que digo com isso é que as instituições (pilar do racismo estrutural brasileiro) são ainda lobatianas, mas o gênio com toda sua potência transformadora e antirracista é machadiano e negro.

As grandes editoras publicam ainda as obras de Monteiro Lobato, só basta a cobra de vidro lobatiana invadir o cérebro dos seus editores, isto é, o pensamento racista e a necessidade do ordenamento do discurso literário anti-negro, que estará no mercado mais uma obra.  A cada nova reedição de seus livros é como se dissessem para nós: “Vamos colocar esses negros e negras nos seus lugares, como podem dizer o que podemos e não podemos publicar?”

A poderosa Companhia das Letras publicou recentemente mais um livro sobre Monteiro Lobato, Reinações de Monteiro Lobato: um biografia (2019), uma tentativa de releitura do bicho papão branco que assombrou a infância das crianças negras e também um esforço de reescrita positiva do autor na história depois que em 2011 se tornou pública uma carta do escritor enviada a Arthur Neiva, em 10 de abril de 1928, publicada na revista Bravo (maio de 2011) em que ele fazia elogios à KKK (Ku Klux Klan):

“País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos.” Disse.

Algo interessante de se notar é que Lobato teve a sua obra racista, O presidente negro, negado por editores nortes americanos (quando ele tinha planos editoriais e literários em EUA) em 1927 e aqui no Brasil suas obras continuam sendo publicado continuamente até hoje. Tudo isso torna evidente o racismo editorial que sistematiza as publicações no Brasil e como essa branquitude intelectualizada, literária, se articula para manter a ordem do discurso para continuar o chorume racista e colonial que só interdita e empobrece o desenvolvimento diverso da literatura no país.

Tudo isso é feito para embargar as vozes de alguns autores no Brasil. São táticas lobatianas acumuladas no tempo e organizadas pelas instituições de poder para silenciar escritores negros e negras. Eles não querem que pessoas negras publiquem e se publiquem que tenha pouca circulação e se circular que não chegue as suas sagradas festas literárias, as quais eles já escolhem a dedo uns dois negros(as) para falar sobre a questão negra no país.

No fim da carta, Lobato parece satisfeito com a anedota relatada ao seu camarada Sergio Buarque, como se ele tivesse vendo o enterro, devido às críticas da nova geração, do legado machadiano. O que não ocorreu. As obras do Bruxo continuam mais atuais do que nunca e Monteiro Lobato só se mantém vivo devido ao racismo editorial e institucional presente na sociedade brasileira.

Ao revelar essa carta que chegou em minhas mãos por uma situação densa de discussão literária e racial  busco trazer mais à tona a face horrenda e racista de Monteiro Lobato e fazer justiça  ao genial escritor, nascido no Morro da Providência, Machado de Assis. Justiça que precisa ser feita a vários outros escritores negros e negras contemporâneos que são continuamente empurrados à vala do esquecimento de um sistema editorial excludente e estruturalmente racista.

Davi Nunes é um poeta e contista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2019), Zanga (2018) e Banzo (2020). É graduado em letras Vernáculas, Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB e faz doutorado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-RIO.

 

 

Meu nome é Moa do Katendê

Por Davi Nunes

mestre moaLiteratura de cordel

 

O meu nome de batismo,

de cartório,  pode crer,

Romualdo Rosário da Costa

tem pouco de mim, porque

eu escolhi desde novo:

meu nome é Moa do Katendê.

 

A capoeira que me deu

junto com o candomblé:

Katendê é do Quicongo,

de origem banto é,

povo africano, guerreiro

que aqui plantou axé.

 

Moa – meus irmãos me deram

quando ainda era criança,

Romualdo era nome grande

pronúncia que a língua cansa,

Moa ficou mais bonito

Moa desde a infância.

 

Moa é golpe que voa

como um aú dos ventos

sabe? Que Zumbi zumbindo

todos os nossos lamentos

um berimbau bem tocado

pois é jogo, é movimento.

 

Nasci em 54

aqui mesmo em Salvador

no Dique do Tororó

orixá abençoou

nasci feito pra guerra

neste Brasil de tanta dor.

 

Iniciei na capoeira

ainda um moleque,

moleque é palavra africana

não confunda com pivete:

é ser rei quando menino

e quando grande, ser mestre.

 

Na Academia de Capoeira

Angola Cinco Estrelas

eu trenei muito o jogo

afastei as besteiras

e logo fui me tornando

um dos grandes capoeiras.

 

Mestre Bobó me ensinou

o espírito da capoeiragem,

eu tinha  uns oitos anos,

pra precaver da maldade

e já jovem vivi a ditadura,

sistema de pilantragem

 

Eu tinha dezesseis anos

no início dos anos 70

entrei na música de vez

música como ferramenta

para expor a cultura negra

sua beleza e resistência.

 

Fui compondo minhas músicas

esperando o carnaval

e foi em 77

o ano triunfal

ganhei o festival do Ilê Aiyê

foi algo muito  genial.

 

A música que me fez ganhar

se chama Bloco beleza,

o sucesso foi bem grande

que logo espantou a tristeza

e na avenida com o Ilê

me tornei Moa realeza.

 

Também nesse mesmo ano

aconteceu algo bom,

entrei no grupo Percussão

Viva Bahia, o dom

e pude viajar a Europa

pra realizar meu som.

 

Já no ano seguinte,

ano de 78,

90 anos da Lei Áurea

eu ainda sofria afoito,

o povo negro se ferrava

neste Brasil tão escroto

 

Por isso que eu criei

o afoxé Badauê

com as cores dos orixás

sem muito bereguedê

Oxalá, Oxum, Ogum

pra sempre nós proteger.

 

E o Badauê ficou foi forte

no ano seguinte campeão

do carnaval de Salvador

Caetano fez até canção

e eu, Moa, só seguia

a batida do  coração.

 

Eu reafricanizei

junto com o Ghandy e o Ilê

o carnaval de Salvador.

O afoxé do Badauê

na avenida fez até

os crentes se “remexer.”

 

Uma das coisas que eu fiz

teve gente que escreveu

sobre isso que te digo,

e que me aconteceu

foi juntar sonoridades

que no ouvido apareceu.

 

Pois juntei Jimmi Cliff

e também o Bob Marley

com o afoxé da Bahia

uma mistura de verdade

mistura de preto-rei

mistura de irmandade.

 

Tudo foi ocorrendo

assim como tem que ser

levei a capoeira

e também o Badauê

para todo o mundo

para todo mundo ver.

 

Conheci muitos artistas

uns bons, outros ruins

uns eram  estrangeiros

outros nacionais, brasis,

mas foi no Dique Pequeno

que eu sempre  fui  feliz.

 

É no Dique Pequeno

que boto as crianças pra jogar

é a minha comunidade

onde botei as pernas pro ar

desde que nasci, aprendi

aqui a capoeirá.

 

Me sinto muito feliz

quando passo conhecimento,

a arte da capoeira

todo o seu envolvimento

aos que estão chegando agora

ladainha-corpo- movimento.

 

O reconhecimento chegou,

chegou como tem que chegar

pois nós, do povo negro,

tamos sempre a guerrear

neste Brasil tão injusto

não tem como descansar.

 

Por isso eu fiz palestra

aqui e no estrangeiro,

levei afoxé, capoeira

e ainda não comi cheiro

de racista e fascista

e desse povo fuleiro.

 

E o Brasil tá se afundando

nessa onda fascista

de todo lado eu só vejo

um monte de gente racista

querendo tomar o poder

me chamando de comunista.

 

Eu sou que nem Bob Marley:

nem capitalista, nem comunista:

sou rasta do Badauê

sou um preto capoeirista

e quero que o Brasil melhore,

não um político nazista.

 

Fui morto na covardia

por lutar pelo país

país que pra nós pretos

foi sempre muito ruim

e agora pode cair na mão

de um genocida infeliz.

 

Fui morto no dia que votei

por uma escolha política

e tudo que aconteceu

foi uma maldosa fita:

um ódio que é do sistema

matou um capoeirista.

 

Muita coisa aí passei

estou agora  na paz

sentindo em Aruanda

toda beleza que apraz

revendo a realeza

elegante dos  ancestrais.

 

Muita beleza eu vejo

o axé bonito de Zambi

a morte não é o fim

de nada, não é o nome;

o plano de Aruanda é

Kitembo rei – a morte some.

 

Agora, eu deixo o axé,

toque logo o xequerê

estou com todos vocês

nessa luta pra valer

dia a dia se lembrem:

eu sou Moa do Katendê.

 

Davi Nunes é um poeta e contista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2019), Zanga (2018) e Banzo (2020). É graduado em letras Vernáculas, Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB e faz doutorado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-RIO.

 

LUZIA

luzia

Por Davi Nunes

I

Vivi nesse Brasil há mais de 12 mil anos. Não sei tão bem ao certo. Ser uma ancestral da América, nunca foi fácil. Fiquei presa no grilhão do tempo. A terra não comeu a minha existência por inteiro – sobrou o fóssil. Minha vida aqui sempre foi um território movediço, a presença da morte.  Vultos e rosnar perigoso de tigre-dentes-de-sabre no ouvido. Sombra de pé de preguiça-gigante sobre a cabeça. E o pânico da aproximação assassina das aves de terror, que sempre me assustava com seus gritos de enguias carnívoras. Não queria morrer pelos bicos sanguíneos delas, não mesmo. Vivi muitas aventuras de fio da vida e corri atrás do mastodonte com lança – o alimento. Meu povo era bom de caça. Eu também. A natureza era dona do nosso corpo, do nosso tempo e seguíamos o seu fluxo poderoso.  Meus antepassados vieram da África no estirão profundo do tempo. Migraram. Atravessaram geadas, tempestades, vulcões, maremotos. Colheram e caçaram para sobreviverem em suas jornadas. Chegaram aqui, na América, onde eu nasci. Meu povo e eu vivemos guerras sangrentas por ocupação do território com outras espécies de humanos. Ganhamos muitas batalhas e no final sucumbimos e eu morri.

II

A terra me guardou em seu aconchego durante esses 12 mil anos. Estava em paz. Sentia seu movimento por dentro, suas movenças e suas rasuras continentais. Coexistia com todo o seu poder e beleza. Meus ossos, a terra fez casulo, conservou. Há mais ou menos 500 anos, senti uns pés pesados e estranhos pisarem essas terras. Eram uma espécie de humanos novos – homens de gelo. Pressenti, em seu passar ambicioso, o negativo das suas pegadas.  E depois senti toda a umidade do sangue que eles começaram a derramar sobre essa terra. Ganancia, ódio, extermínio, escravidão, genocídio – sangue. O sangue se tornou a cor principal da América e do Brasil.

III

Há pouco tempo fui desterrada. Tirada do meu casulo terreal – das suas entranhas.   Virei fóssil usada pelos homens desse tempo. O azedume sinistro de sua civilização assassina envolvia com umidade os meus ossos ainda. Sabia que seria terrível tudo que veria a acontecer.  Fui examinada, catalogada, destrinchada… E até me deram um nome: Luzia. O peso medonho de todo esse mundo caiu sobre mim. Senti meus ossos arderem pela primeira vez. Fui levada. Me percebi fora do chão. Viajava. A natureza parecia morta nesse plano – era suja. Me  colocaram no Museu, era o Museu Nacional, exposta. Observei durante algum tempo essa espécime estranha e ambiciosa de humano, me olhando – Queria voltar para o meu casulo. Até que o museu pegou fogo e senti meus ossos arderem em chamas e o fóssil, a parte existente da minha passagem por essas terras, virarem cinzas.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

REZADEIRA

Por Davi Nunes

Conto inspirado nas vozes e histórias das rezadeiras de Cachoeira-Ba Dona Deth, Dona Bichinha, Dona Ti, que vi-ouvi na mostra Voz de Iyá

Foto Silviafoto: Silva Leme

 

Minha mãe que me ensinou a rezar. Reza daqui, benção de lá. Aprendi. Passei a vida toda rezando. Rezadeira… Meu ofício, num sabe?  Curei gente de tudo que é lugar desse país. Do mau-olhado ao quebranto do corpo e da alma.  Foi assim. Não agravando a todos, tinha gente boa e gente ruim. Meu pai Omolu que tava na frente, me ajudando a colocar reza, proteção e cura nos corações das pessoas. Eu nasci aqui mesmo em Cachoeira, foi em 1917. É… Minha menina, tenho 101 anos, tem gente lá pros lados de Santo Amaro que tem mais. Em São Brás, na verdade. Ela tá viva ainda, acho; Dona Mocinha. Sambadeira das boas. Dois anos mais velha que eu. Converso com ela em reza, sempre.  Somos duas “mulé” de fé. A gente vive bastante tempo nesse recôncavo, sabe? Sabemos cuidar do espírito, menina. Mesmo que o mundo seja duro como um cão. A gente cuida do ori, vive e samba também. Nasci no mocambo antigo aqui no Caquende, não é isso que você que quer saber? Tudo aqui era quilombo, e quilombo sempre é, né mesmo? E fui logo banhada pelo Paraguaçu, naqueles lados onde hoje é a Faceira. Acho que esse banho foi a minha primeira reza, a benção, o axé que mãinha me deu, logo quando cheguei nesse mundo. Eu tive alguns filhos, em sua maioria já morreram. Vivi tempo demais. Atravessei o tempo deles, me entende? Mas ainda tenho dois que restaram, uma mulher e um homem, que já tem idade também. Tive oito no total. Naquele tempo era assim. Me lembro quando comecei a amamentar Toinho, ele não engordava. Toda noite quando ia dar de mamar, uma cobra sugava o meu leite, e, pra Toinho não chorar, a bicha deixava ele mamando a sua calda. É verdade. Tive alguns filhos que se foram assim, de rabo de cobra – mas com meu Toinho, não. Eu descobri. Contei pra todo mundo em Cachoeira, ninguém acreditou, mas rezei e numa noite consegui matar a cobra. Fiquei mais forte na reza. Consegui desfazer nó-de-destino, que é o pior nó que a pessoa pode ter na vida e sambei por esse recôncavo, filha. Ando com fé até hoje. A fé manda embora ”as coisas ruim”.  Você sabe, né? Num faiá.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

ZANGA: A NEGRITUDE COMO FORÇA INTEMPESTIVA

Por Davi Nunes

zanga foto com menina

Imagem: Jovem menina Wolofi do Senegal

Um dos grandes problemas que nós, negros e negras da diáspora, tivemos com todos esses séculos de transposição transatlântica, escravidão e racismo é a desconexão sígnica, isto é, a desconexão dos sentimentos africanos com as suas expressões, os signos correspondentes às línguas do continente.

Tivemos que revestir nossas significações: emoções, angústias e sofrimentos mais potentes com a língua, às palavras do colonizador. Ex: Paixão, raiva, amor, desespero, liberdade, ira, felicidade etc. Penso que todas essas palavras são como corpos sem sangue e osso para negros e negras nessa diáspora de angústia. São sofismas bem articulados. Um desencaixo cognitivo, um vaco ilusório, abstrato, que nos deixa sempre no não lugar. São significantes que não dão conta dos nossos significados.

O nosso asè, forma motriz da humanidade negra, não cabe no idioma português sem perdas. Açoite e violência simbólica, saca? Mas algumas palavras africanas permaneceram não como descritas nos dicionários oficiais da língua portuguesa, mas como força semântica que se retroalimentou e se retroalimenta nos quilombos, nas bocas das noites mais frenéticas nas grandes metrópoles e nas quebradas polifônicas e contemporâneas. Uma dessas palavras poderosas e que vamos nos ater aqui é zanga.

Zanga (e se estendendo ao verbo zangar) é uma palavra que, segundo Nei Lopes no Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem banto, provavelmente do Quicongo isanga: lágrimas, singular de kisanga. Ou relativo ao quimbundo zangalala: rebelde. Que se liga a ondzanga: bravura, coragem, combatividade.

Nos dicionários oficiais da língua portuguesa zanga aparece significando aborrecimento, antipatia, mau humor e tantas outras definições que a esvaziaram durante toda uma normatização secular de seu significado mais amplo, africano.

Zanga é super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar – em frente aos monstros com mandíbulas ensanguentadas e pele de fantasmas assassinos, o sistema.

Zanga não é raiva negra, Caralho! A raiva não é um sentimento que alcança a plenitude intempestiva da zanga. Zanga é todo um sistema de luta negra, um gênio ativo que franze o rosto e não pestaneja na hora das guerras.

Zanga, existencialmente, é um facho da luz explosiva da negritude, negritude que Aimé Césaire metaforizou em o Diário de um retorno ao país natal de sol do espírito. Zanga – adensando aqui o conceito de aparição de Fanon em Pele negra, máscaras brancas – é uma aparição não mais sobredeterminada pelo olhar do Outro, o branco. Mas é a destruição flamejante da prisão desse olhar.

Zanga é não temer mais ao que Édouard Glissant chamou em seu ensaio Abarca aberta de experiência do abismo, isto  é, a sensação diaspórica que todo homem negro e mulher negra sentem de estar dentro e fora do abismo no calabouço existencial de algum negreiro à deriva.

Desde o rapto transatlântico que estamos zangados. E toda vez que esmorecemos a zanga, morremos.  Não podemos morrer mais sem nos zangar.  Não dá. Pois essa morte é a pior – a morte sem zanga –  a morte objeto,  a morte desencarnada, a morte  que não encarna fogo contra toda violência e antinegritude – que é a nossa interdição esquematizada, ou melhor, montada  no tempo de terror que nos enrola e nos asfixia até  não sobrar mais ar.

Davi Nunes é um poeta, contista, roteirista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2019), Zanga (2018) e Banzo (2020). É graduado em letras Vernáculas, Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB e faz doutorado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade na PUC-RIO.