a morte de um malê

 

Por Davi Nunes

malê

uma gota de suor escorre do rosto assassino

estrala como uma bola de canhão em minha testa

ressoa maldições por todo o meu corpo preso no cadafalso

vou morrer intacto com  minha fé – malê

 

nenhum homem com pele de fantasma envidraçada

irá me fazer ajoelhar,

pedindo piedade diante de um deus que quer me fazer escravo

vou morrer honrrando minha fé – malê

 

o vulto quente da navalha já mede o ponto certo da minha morte

o pescoço

e sinto, num átimo, o cio de todos os meus amores

marcas de eternidade na memória

 

na praça, há homens e mulheres pálidos

estourando nas faces veias de escamas de peixes – suplicantes pela execução

 

o executor já suste a navalha afiada sobre a cabeça

para o golpear derradeiro:

franze o rosto

deflagra o golpe

vejo, aí, (antes do fim)

seu reluzir dilacerante

descer em direção ao meu pescoço

fecho os olhos

fiel à minha fé, malê!

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Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula

Pequenas reticências...

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O livro Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula é um livro infantil escrito por Davi Nunes e publicado pela Editora Uirapuru.

Davi Nunes é natural de Salvador, Bahia, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade da Bahia (Uneb-BA) e é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens – PPGEL pela mesma universidade. Além de ser escritor de livro infantil, é poeta e contista. Além disso, ele mantém o blogue Duque dos Banzos, em que publica textos sobre a cultura afro-brasileira, e é colaborador de sites sobre a cultura negra do Brasil e dos Estados Unidos da América.

O blogue Pequenas Reticências fez uma entrevista com esse escritor. Confira a seguir.

Pequenas reticências: Sobre o que trata o livro Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula?

Davi Nunes: O livro Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula conta a história de uma linda princesa quilombola que tem…

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BANZO: UM ESTADO DE ESPÍRITO NEGRO

Por Davi Nunes

banzo

As palavras de origem africana que nos negros(as) conseguimos manter durante esses mais de quinhentos anos no Brasil – diáspora de desassossego e morte – para explicitarem sofrimento, ou mesmo algum estado de padecimento psicológico (efeito da escravidão e racismo) possuem, em muitas delas, significações filtradas, estranguladas. Signos que vão se tornando opacos quando entram no sistema linguístico da língua portuguesa, quando são transcritas no código escrito do colonizador. Podem perder o axé – a energia semântica e ancestre de sua significação original, africana. Uma dessas palavras que vamos nos ater aqui, e que ilustra um estado de espírito negro, é o banzo.

Banzo é uma palavra que, segundo Nei Lopes, no Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem na língua QUICONGO, mbanzu: pensamento, lembrança; e no QUIMBUNDO, mbonzo: saudade, paixão, mágoa. Para ele, “Banzo é uma nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil.” Nos dicionários oficias de língua portuguesa, os dicionários brancos, banzo é definido como saudade da África, ou como forma de adjetivação de pessoa triste, pensativa, atônita, pasmada, melancólica.

A melancolia parece ser a definição que solapa muitos desses dicionários. É uma associação apriorística com o banzo, que é visto como a melancolia negra. Freud no texto Melancolia e luto diz que ela se caracteriza por um desânimo abissal, doloroso, uma suspensão do interesse pelo mundo, além da perda da capacidade de amar. O banzo é mais que isso, conflui em si todas essas palavras em português que remete a um estado de desassossego na alma, convulsionadas por uma exterioridade de terror, morte, escravidão, tortura. É a síntese profunda de uma existência moída em dor por uma estrutura social, política e econômica aterrorizadora.

O banzo constrói o ser negro(a) macambúzio(a), um casmurro em zanga, que sente todo o terror da existência nesse chão suspenso e cheio de interdições que o colocaram.

Quando nos séculos da escravização um homem ou uma mulher negra engoliam um naco de barro para se suicidarem, eles buscavam sentir, no gosto da terra envenenada pela ferrugem do grilhão, a terra original a qual foi desterrado, saca? Aruanda era/é o sossego diante do desassossego do exilio torturador da diáspora, que era e é um solo movediço a engolir negros e negras até hoje.

O banzo não é melancolia, talvez seja como nos demostra o poema de Cruz e Souza, “Tristeza do infinito”, é uma ação de suspensão objetiva de uma existência atroz. Não era/é necessariamente o fim da vida, mas a manutenção de um estado de alma que não lhe fazia funcionar para uma estrutura de opressão. Um exemplo nítido disso é a loucura, enlouquecer na escravização minava a ordem, o louco era fogo ensandecido mesmo que fosse para a morte.

O banzo perpassa a história dos negros da diáspora, é um sentimento poderoso que implode e explode. Algumas explosões são arte heroica: o jazz, chorinho, blues e rap, outras são implosões a se perderem no buraco negro e plácido da existência, numa escuridão boa, consoladora, ancestral, ou mesmo no grito solitário de desespero e morte.

O banzo hoje é a cobra de vidro, o racismo, que invade o cérebro e explode em traumas a cabeça do intelectual negro(a) que já pensa em ir para Aruanda; é a mãe com o olhar perdido, pois teve seus dois filhos assassinados pelos gambes com mandíbulas espumantes em sangue.

O banzo é a antítese heroica da vitória, a pistola apontada na cabeça e o riso desesperador do suicida; o mergulho no mar, na Atlântida Negra, perdida no fundo do oceano, pois o navio negreiro é a morte do corpo negro sequenciada nos séculos futuros. É o sangue no olho do menino preto que vai morrer homem. Caralho. É a cabeça de Eternit e o tiro zumbido no ouvido tranquilamente. É o pessimismo de Machado de Assis, o desespero lírico de Cruz e Sousa, o expressionismo mentalista de Basquiat, o inebriar etílico de Lima Barreto. É gênio e morte, mas não é a morte do gênio negro, entende? É o núcleo atômico de um sentimento que se desenvolveu no processo de escravização, e ainda hoje é um estado de espírito ao mesmo tempo aterrorizador e poderoso, uma transcendência diante dos traumas seculares.

O banzo, assim, é fim para o começo, embate mentalista introspectivo que move o mutuê, a cabeça, para uma dignidade existencial que se estende além da vida – a ancestralidade. Por isso é força angustiante, uma instancia desesperadora, uma dor insubmissa às opressões.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

Agnaldo dos Santos: um brilhante escultor afro-brasileiro

Por Davi Nunes

ag 9Agnaldo dos Santos. Foto autoria desconhecida

Agnaldo dos Santos foi um artista negro, um genial escultor, nascido na Ilha de Itaparica, na Bahia, no ano de 1926 e falecido em 1962, em Salvador, aos 36 anos. Agnaldo foi um artista do impossível dentro das artes plásticas no Brasil, visto que ele enfrentou em vida condições sociais e raciais adversas até se tornar um escultor com obra exposta e trabalho reconhecido no mainstream elitista e branco das artes plásticas brasileiras.

As obras de Agnaldo dos Santos são essencialmente de madeira, antropomórficas e expressionistas. E os temas estão geralmente relacionados com a ancestralidade africana e às representações dos negros na Bahia. Uma das características estéticas das suas esculturas são os olhos fechados, os quais expressam serenidade e placidez, ao mesmo tempo em que manifestam um mundo extrassensorial, um mundo da espiritualidade negra.

 

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Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

A SEGUNDA MORTE DE LIMA BARRETO

Por Davi Nunes

lima-barreto

As vozes pálidas escrevendo a nossa história, biografando nossas vidas-dores, traço imperioso da ordem de produção de discurso nesse país, parece como uma segunda morte. Aquela morte que se apresenta no filme Corra, do diretor norte americano Jordan Peele, uma morte que é viva a servir angustiosamente a branquitude progressista cool. Vulgo maquiavélica. Morte que zumbifica – alma sugada –  pois o crivo é da mea culpa empalidecida comercial. Lucro de tez pálida.

Talvez Lima Barreto esteja se revirando no túmulo, na vala inócua e fria que o colocaram, como colocam ainda hoje homens e mulheres negras e negros, ao perceber que a sua história (biografia de gênio esgaçado pelo racismo) está sendo escrita por representante(es) de uma “elite intelectual brasileira” que, em sua época, ele combateu, demonstrou suas hipocrisias e obliterações literárias chulas e fora, em vida, condenado por ela.

O jogo revelado por Lima Barreto, assim, o esmagou. Mas agora, após 95 anos de sua morte, a casta literária privilegiada quer lhe dar uma dose simbólica de uma boa cachaça festiva e literária, a paratiana. Talvez eles(as) pensem ainda que todo emparedamento, enredar de obstruções raciais, foi só loucura etílica. “Noias” intelectuais tristes.

O dândi Lima Barreto era de dimensão maior, heroica, pois ele trazia o caos: sacarmos intelectual diante do pedantismo erudito de venta branca, e ironia diante da mediocridade literária que se apresentava grande sendo pequena em sua época.

A segunda morte – arquétipo fantasma da vivência de escritor negro escrita por sujeitos(as) brancos(as) – já era anunciada em República dos Bruzundangas. Os encaixes de discursos de autoridade que aparecem na obra através de personagens tipos, já davam conta de arquétipos sociais, alegorias de intelectuais e políticos brasileiros que apareciam pastosos e ridículos no livro, e que agora pulam fantasticamente da República dos Bruzundangas e estão na realidade a transformá-lo num signo rentável em seus livros e festividades literárias.

O escritor Lima Barreto, escrevinhado por essa elite, não cabe (talvez só como contrassenso) no Afonso Henrique, homem negro, suburbano que foi escamoteado pela “bruzungandisse” burra e racista dessa laureada gente. O que é louco, pois parece que eles têm formas de uso infinitas de nossas vidas e obras.  E quando nos articulam em linguagem, nos matam e produzem os fantasmas representativos que se acoplam e regulam o discurso dominante.

Lima Barreto foi visionário, previu a sua segunda morte, um mar de palavras e discursos vindos do que ele desprezava, de um foco narrativo elitista, descrevendo os enredos, os eventos, no entanto com filtro higienista, sobre a sua vida.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil