O RETORNO DE AMON-RÁ

amon-ra

Por Davi Nunes

I
Ano de 2500. O aeroplano movido à energia solar de Ramsés e Nefertiti sobrevoa uma pirâmide gigantesca, onde, há 500 anos, foi o Cristo Redentor. O céu está bem azul e outros aerotransportes passam como besouros voadores no horizonte.

– Os deuses morrem como renascem, filha. Amon-rá, o deus do sol dos faraós egípcios, nasceu de novo, está sobre as nossas cabeças como todo mundo sabe hoje. –

Ramsés olha para o botão no aerogerador que ativa a função deslocamento no espaço e continua:

 – Os sinais de sua aparição começaram no verão de 2020, em Kemet II, antiga Cidade do Salvador, quando as primeiras pessoas que desproviam de melanina começaram a morrer com o efeito da sua presença.

– O senhor quer que?… – Nefertiti olha para o botão piscando vermelho. E Ramsés segue com um tom profético.

– A cor prata luminosa tomou tudo e se esparramou como uma serpente divina, brilhosa, pelos corpos negros que cortavam de um lado a outro as cidades do Brasil. Cada pessoa negra se tornou uma estrela e um poder absoluto emanou dos seus corpos. Foi início de uma nova era. –

– A nossa era, né pai? –

– Sim. A era do povo de Rá.  –

Nefertiti olha do aeroplano a escultura monumental de Amon-Rá. Ele é um homem com cabeça de falcão e em sua cabeça há um disco solar brilhante. Ela observa também o tamanho do cajado da vida que está nas mãos de Rá e se estende até se fixar no chão. Nefertiti nota que Amon-rá é visto e adorado por toda Kemet III, antiga cidade do Rio Janeiro. O aeroplano faz uma manobra e ela volta a escutar a voz de Ramsés.

– As pessoas que não tinham melanina na época se refugiaram no subsolo do mundo e, durante muitos anos, à noite saíam em guerra contra nós. As guerras cessaram no ano de 2100, os povos  sem melanina dos Estados Unidos tentaram explodir o mundo, não aceitaram a volta de Amon-Rá e todo o poder que ele revestiu o nosso povo. Conseguimos impedir a destruição do planeta e vimos essas pessoas sumirem no mundo por ter desafiado o grande Deus do sol. Dizem que ainda existem alguns deles na antiga cidade subterrânea, mas não vemos mais eles na era da luz. –

Nefertiti aperta o botão do aerogerador e o veículo se desloca na velocidade da luz para a estação Kemet II.

– Ramsés, meu pai, como era esse povo? –

Ramsés se segura devido à velocidade do veículo, sente as ondas espaciais, sinaliza para Nefertiti que irá falar depois. Ela ri e o aeroplano chega a Kemet II.

– Estou velho pra essas viagens, Nefer. Mas agora consigo te contar. Esses homens eram alienígenas. –

– Eles não eram terrestres, pai? –

– Exatamente. Não eram. Eles vieram do Planeta Plano, segundo relato dos historiadores da época, perto de Plutão.  –

– Que louco. –

– Eles eram engolidores de rios e florestas. Destruíam tudo. Nenhum terráqueo ousaria destruir a natureza de sua terra. Só aliens, não é mesmo? –

Descem do aeroplano, Nefertiti sente o ar puro de Kemet II, a sua cidade de origem e ri.

– Só aliens mesmo, pai. –

– É. Acredite em mim. Eles, na época que Rá surgiu, tinham como plano, escoar todos os recursos naturais da terra para o Planeta Plano. Além do genocídio que eles submetiam a nós. Vivíamos em bairros-prisões. Éramos postos em presídios aos milhares e nos matavam como baratas, mas Rá nos salvou, filha. Foram mais de 500 anos que eles tiveram o controle sobre nós. –

– Eu sei, pai.

– É bom saber pra não se repetir, agora vou dar minha aula na universidade de Quéops. –

– Eu também vou pai, tenho encontro com Aquen.  Temos trabalhado em algo importante. –

– Espero que não seja essa bobagem de máquina do tempo, nosso melhor tempo é agora. Com o tempo não se brinca, pois ele pode nos dar uma rasteira e alterar todo o nosso destino. –

Ramsés beija a filha, entra no aerocarro e continua.

– Não vá inventar besteira com esse namorado. –

– Tá bom, pai. –

– Que a força de Rá esteja com você, filha. –

– Com você também, pai. –

Nefertiti observa o aerocarro voando do seu pai. Mexe nos dreads cor de fogo, ajeita o fone de ouvido, corre para a estação e embarca em outro aerotransporte, ansiosa para encontrar com Aquen.

 

Davi Nunes é mestre em Estudos de Linguagem – PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil. Publicou Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2015), republicando uma nova edição do livro pela Editora Malê (2019). Publicou também o livro de contos Zanga (2018) pela Editora Segundo Selo

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EM CARTA INÉDITA MONTEIRO LOBATO EXPÕE SEU RACISMO À MACHADO DE ASSIS

 

Por Davi Nunes

carta racista de monteiro Lobato falando de machado de assis

S.Paulo, 17, 05, 944

Meu caro Sergio Buarque:

        Uma cobra invadiu-me o cérebro: mas felizmente foi uma cobra de vidro, que me proporcionou agradáveis momentos de palestra literária com um certo menino magrinho que incorporou no físico e no valor mental ótimas conversas: delicioso passeio por obras e individualidades em companhia dum penetrante Virgílio. Excelente a contra crítica do Machado de Assis. Ah, se aquele negro ressuscitasse e viesse ler tudo quanto se tem dito dele, e ainda visse que monetariamente só vale 500 reis…

         Adeus, Buarque. Nós só nos reencontramos de 20 em 20 anos. Até, pois, 1964. 

         Do velho camarada

   Lobato.

Nesta carta do escritor Monteiro Lobato, endereçada para Sergio Buarque de Holanda, famoso crítico literário e historiador brasileiro, em 17 de maio de 1944, fica exposto como o seu cinismo escritural anti-negro, evidente em suas obras, não poupou nem o maior escritor brasileiro de todos os tempos – Machado de Assis.

Monteiro Lobato descreve na carta um momento de satisfação crítica e intelectual, deleite temperado com o fermento doentio do seu espírito de porco, o racismo. O autor retrata um encontro com um jovem intelectual, ressalta o seu valor mental – o alinhamento do sujeito com as suas críticas sádicas – e físico –  magrelo tipo a esqualidez europeia ideal ao seu gosto eugenista.

monteiro racista

Falo isso porque para Monteiro Lobato e para o pensamento racista comum, a humanidade e a inteligência está depositada em determinados corpos: brancos, europeus e masculinos. O corpo negro, nesse sentido, o corpo machadiano, seria a antítese do humano, não poderia possuir uma existência ontológica, teria que ser demolido, expurgado, eliminado do seu status de ser. Por isso que a elite intelectual brasileira, com sua anti-negritude sistêmica e histórica, embranqueceu Machado de Assis. Para eles, valores como genialidade, saber e maestria não podem estar presentes no corpo de um homem negro, por isso buscaram destituí-lo, a todo custo, da sua negritude, isto é, do sumo aparente do seu gênio, da sua completa negridão.

machado preto sempre

Já o escritor de Sítio do Pica Pau Amarelo, O presidente negro, Urupês, dentre outras obras, já apontadas por intelectuais negros e negras como racistas há algum tempo, expõe na carta o prazer que teve em dialogar com o jovem sobre literatura, perpassando obras e vidas dos escritores e se esbalda ironicamente (e aqui entra o racismo recreativo e a tentativa de epistemicídio tão comum nas rodas de conversas da branquitude literária brasileira) quando se refere à Machado de Assis.

Ah, se aquele negro ressuscitasse e viesse ler tudo quanto se tem dito dele, e ainda visse que monetariamente só vale 500 reis.

Monteiro Lobato, neste trecho da carta, direciona, e aí eu consigo ouvir a sua voz sarcástica e espumante, tipo um integrante Bruzundanga, como diria Lima Barreto, da Ku  Klux Klan (visto o seu alinhamento já comprovado com esse movimento em sua época) todo o seu racismo a Machado de Assis. Ele age por uma tripla operação na tentativa de colocar o Bruxo do Cosme Velho e sua obra no negativo absoluto. Primeiro, o racializa através de uma vocalização típica de senhor de escravo “aquele negro”. O termo negro é usado em seu sentido pejorativo, objetificador. Segundo, o desejo de Monteiro Lobato para que Machado, hipoteticamente, ressuscitasse está ligado a sua vontade sádica de o ver morrer uma morte epistemológica e literária, devido às criticas e ditos de seus pares, provavelmente da Sociedade Eugênica de São Paulo da qual era membro. Terceiro, está interligado como aspecto tão baixo e verminoso quanto os outros dois. A necessidade de Lobato monetarizar por baixo as obras de Machado, numa tentativa mesquinha de escarnecê-las economicamente para desvalorizá-las simbólica e literariamente.

Esse tripé racista de Monteiro Lobato é acumulativo e está presente até hoje, é só ir a alguma das Academias de Letras no Brasil, observar os prêmios e concursos literários, que só premiam escritores brancos, entender a dinâmica excludente das grandes editoras com relação aos escritores negros e negras e sacar o desenrolo da crítica nas universidades. O que digo com isso é que as instituições (pilar do racismo estrutural brasileiro) são ainda lobatianas, mas o gênio com toda sua potência transformadora e antirracista é machadiano e negro.

As grandes editoras publicam ainda as obras de Monteiro Lobato, só basta a cobra de vidro lobatiana invadir o cérebro dos seus editores, isto é, o pensamento racista e a necessidade do ordenamento do discurso literário anti-negro, que estará no mercado mais uma obra.  A cada nova reedição de seus livros é como se dissessem para nós: “Vamos colocar esses negros e negras nos seus lugares, como podem dizer o que podemos e não podemos publicar?”

A poderosa Companhia das Letras publicou recentemente mais um livro sobre Monteiro Lobato, Reinações de Monteiro Lobato: um biografia (2019), uma tentativa de releitura do bicho papão branco que assombrou a infância das crianças negras e também um esforço de reescrita positiva do autor na história depois que em 2011 se tornou pública uma carta do escritor enviada a Arthur Neiva, em 10 de abril de 1928, publicada na revista Bravo (maio de 2011) em que ele fazia elogios à KKK (Ku Klux Klan):

“País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é país perdido para altos destinos.” Disse.

Algo interessante de se notar é que Lobato teve a sua obra racista, O presidente negro, negado por editores nortes americanos (quando ele tinha planos editoriais e literários em EUA) em 1927 e aqui no Brasil suas obras continuam sendo publicado continuamente até hoje. Tudo isso torna evidente o racismo editorial que sistematiza as publicações no Brasil e como essa branquitude intelectualizada, literária, se articula para manter a ordem do discurso para continuar o chorume racista e colonial que só interdita e empobrece o desenvolvimento diverso da literatura no país.

Tudo isso é feito para embargar as vozes de alguns autores no Brasil. São táticas lobatianas acumuladas no tempo e organizadas pelas instituições de poder para silenciar escritores negros e negras. Eles não querem que pessoas negras publiquem e se publiquem que tenha pouca circulação e se circular que não chegue as suas sagradas festas literárias, as quais eles já escolhem a dedo uns dois negros(as) para falar sobre a questão negra no país.

No fim da carta, Lobato parece satisfeito com a anedota relatada ao seu camarada Sergio Buarque, como se ele tivesse vendo o enterro, devido às críticas da nova geração, do legado machadiano. O que não ocorreu. As obras do Bruxo continuam mais atuais do que nunca e Monteiro Lobato só se mantém vivo devido ao racismo editorial e institucional presente na sociedade brasileira.

Ao revelar essa carta que chegou em minhas mãos por uma situação densa de discussão literária e racial  busco trazer mais à tona a face horrenda e racista de Monteiro Lobato e fazer justiça  ao genial escritor, nascido no Morro da Providência, Machado de Assis. Justiça que precisa ser feita a vários outros escritores negros e negras contemporâneos que são continuamente empurrados à vala do esquecimento de um sistema editorial excludente e estruturalmente racista.

Davi Nunes é um poeta e contista soteropolitano, publicou os livros Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula (2015) e Zanga (2018). É graduado em letras Vernáculas e Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia- UNEB.

Meu nome é Moa do Katendê

Por Davi Nunes

mestre moaLiteratura de cordel

 

O meu nome de batismo,

de cartório,  pode crer,

Romualdo Rosário da Costa

tem pouco de mim, porque

eu escolhi desde novo:

meu nome é Moa do Katendê.

 

A capoeira que me deu

junto com o candomblé:

Katendê é do Quicongo,

de origem banto é,

povo africano, guerreiro

que aqui plantou axé.

 

Moa – meus irmãos me deram

quando ainda era criança,

Romualdo era nome grande

pronúncia que a língua cansa,

Moa ficou mais bonito

Moa desde a infância.

 

Moa é golpe que voa

como um aú dos ventos

sabe? Que Zumbi zumbindo

todos os nossos lamentos

um berimbau bem tocado

pois é jogo, é movimento.

 

Nasci em 54

aqui mesmo em Salvador

no Dique do Tororó

orixá abençoou

nasci feito pra guerra

neste Brasil de tanta dor.

 

Iniciei na capoeira

ainda um moleque,

moleque é palavra africana

não confunda com pivete:

é ser rei quando menino

e quando grande, ser mestre.

 

Na Academia de Capoeira

Angola Cinco Estrelas

eu trenei muito o jogo

afastei as besteiras

e logo fui me tornando

um dos grandes capoeiras.

 

Mestre Bobó me ensinou

o espírito da capoeiragem,

eu tinha  uns oitos anos,

pra precaver da maldade

e já jovem vivi a ditadura,

sistema de pilantragem

 

Eu tinha dezesseis anos

no início dos anos 70

entrei na música de vez

música como ferramenta

para expor a cultura negra

sua beleza e resistência.

 

Fui compondo minhas músicas

esperando o carnaval

e foi em 77

o ano triunfal

ganhei o festival do Ilê Aiyê

foi algo muito  genial.

 

A música que me fez ganhar

se chama Bloco beleza,

o sucesso foi bem grande

que logo espantou a tristeza

e na avenida com o Ilê

me tornei Moa realeza.

 

Também nesse mesmo ano

aconteceu algo bom,

entrei no grupo Percussão

Viva Bahia, o dom

e pude viajar a Europa

pra realizar meu som.

 

Já no ano seguinte,

ano de 78,

90 anos da Lei Áurea

eu ainda sofria afoito,

o povo negro se ferrava

neste Brasil tão escroto

 

Por isso que eu criei

o afoxé Badauê

com as cores dos orixás

sem muito bereguedê

Oxalá, Oxum, Ogum

pra sempre nós proteger.

 

E o Badauê ficou foi forte

no ano seguinte campeão

do carnaval de Salvador

Caetano fez até canção

e eu, Moa, só seguia

a batida do  coração.

 

Eu reafricanizei

junto com o Ghandy e o Ilê

o carnaval de Salvador.

O afoxé do Badauê

na avenida fez até

os crentes se “remexer.”

 

Uma das coisas que eu fiz

teve gente que escreveu

sobre isso que te digo,

e que me aconteceu

foi juntar sonoridades

que no ouvido apareceu.

 

Pois juntei Jimmi Cliff

e também o Bob Marley

com o afoxé da Bahia

uma mistura de verdade

mistura de preto-rei

mistura de irmandade.

 

Tudo foi ocorrendo

assim como tem que ser

levei a capoeira

e também o Badauê

para todo o mundo

para todo mundo ver.

 

Conheci muitos artistas

uns bons, outros ruins

uns eram  estrangeiros

outros nacionais, brasis,

mas foi no Dique Pequeno

que eu sempre  fui  feliz.

 

É no Dique Pequeno

que boto as crianças pra jogar

é a minha comunidade

onde botei as pernas pro ar

desde que nasci, aprendi

aqui a capoeirá.

 

Me sinto muito feliz

quando passo conhecimento,

a arte da capoeira

todo o seu envolvimento

aos que estão chegando agora

ladainha-corpo- movimento.

 

O reconhecimento chegou,

chegou como tem que chegar

pois nós, do povo negro,

tamos sempre a guerrear

neste Brasil tão injusto

não tem como descansar.

 

Por isso eu fiz palestra

aqui e no estrangeiro,

levei afoxé, capoeira

e ainda não comi cheiro

de racista e fascista

e desse povo fuleiro.

 

E o Brasil tá se afundando

nessa onda fascista

de todo lado eu só vejo

um monte de gente racista

querendo tomar o poder

me chamando de comunista.

 

Eu sou que nem Bob Marley:

nem capitalista, nem comunista:

sou rasta do Badauê

sou um preto capoeirista

e quero que o Brasil melhore,

não um político nazista.

 

Fui morto na covardia

por lutar pelo país

país que pra nós pretos

foi sempre muito ruim

e agora pode cair na mão

de um genocida infeliz.

 

Fui morto no dia que votei

por uma escolha política

e tudo que aconteceu

foi uma maldosa fita:

um ódio que é do sistema

matou um capoeirista.

 

Muita coisa aí passei

estou agora  na paz

sentindo em Aruanda

toda beleza que apraz

revendo a realeza

elegante dos  ancestrais.

 

Muita beleza eu vejo

o axé bonito de Zambi

a morte não é o fim

de nada, não é o nome;

o plano de Aruanda é

Kitembo rei – a morte some.

 

Agora, eu deixo o axé,

toque logo o xequerê

estou com todos vocês

nessa luta pra valer

dia a dia se lembrem:

eu sou Moa do Katendê.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

LUZIA

luzia

Por Davi Nunes

I

Vivi nesse Brasil há mais de 12 mil anos. Não sei tão bem ao certo. Ser uma ancestral da América, nunca foi fácil. Fiquei presa no grilhão do tempo. A terra não comeu a minha existência por inteiro – sobrou o fóssil. Minha vida aqui sempre foi um território movediço, a presença da morte.  Vultos e rosnar perigoso de tigre-dentes-de-sabre no ouvido. Sombra de pé de preguiça-gigante sobre a cabeça. E o pânico da aproximação assassina das aves de terror, que sempre me assustava com seus gritos de enguias carnívoras. Não queria morrer pelos bicos sanguíneos delas, não mesmo. Vivi muitas aventuras de fio da vida e corri atrás do mastodonte com lança – o alimento. Meu povo era bom de caça. Eu também. A natureza era dona do nosso corpo, do nosso tempo e seguíamos o seu fluxo poderoso.  Meus antepassados vieram da África no estirão profundo do tempo. Migraram. Atravessaram geadas, tempestades, vulcões, maremotos. Colheram e caçaram para sobreviverem em suas jornadas. Chegaram aqui, na América, onde eu nasci. Meu povo e eu vivemos guerras sangrentas por ocupação do território com outras espécies de humanos. Ganhamos muitas batalhas e no final sucumbimos e eu morri.

II

A terra me guardou em seu aconchego durante esses 12 mil anos. Estava em paz. Sentia seu movimento por dentro, suas movenças e suas rasuras continentais. Coexistia com todo o seu poder e beleza. Meus ossos, a terra fez casulo, conservou. Há mais ou menos 500 anos, senti uns pés pesados e estranhos pisarem essas terras. Eram uma espécie de humanos novos – homens de gelo. Pressenti, em seu passar ambicioso, o negativo das suas pegadas.  E depois senti toda a umidade do sangue que eles começaram a derramar sobre essa terra. Ganancia, ódio, extermínio, escravidão, genocídio – sangue. O sangue se tornou a cor principal da América e do Brasil.

III

Há pouco tempo fui desterrada. Tirada do meu casulo terreal – das suas entranhas.   Virei fóssil usada pelos homens desse tempo. O azedume sinistro de sua civilização assassina envolvia com umidade os meus ossos ainda. Sabia que seria terrível tudo que veria a acontecer.  Fui examinada, catalogada, destrinchada… E até me deram um nome: Luzia. O peso medonho de todo esse mundo caiu sobre mim. Senti meus ossos arderem pela primeira vez. Fui levada. Me percebi fora do chão. Viajava. A natureza parecia morta nesse plano – era suja. Me  colocaram no Museu, era o Museu Nacional, exposta. Observei durante algum tempo essa espécime estranha e ambiciosa de humano, me olhando – Queria voltar para o meu casulo. Até que o museu pegou fogo e senti meus ossos arderem em chamas e o fóssil, a parte existente da minha passagem por essas terras, virarem cinzas.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

REZADEIRA

Por Davi Nunes

Conto inspirado nas vozes e histórias das rezadeiras de Cachoeira-Ba Dona Deth, Dona Bichinha, Dona Ti, que vi-ouvi na mostra Voz de Iyá

Foto Silviafoto: Silva Leme

 

Minha mãe que me ensinou a rezar. Reza daqui, benção de lá. Aprendi. Passei a vida toda rezando. Rezadeira… Meu ofício, num sabe?  Curei gente de tudo que é lugar desse país. Do mau-olhado ao quebranto do corpo e da alma.  Foi assim. Não agravando a todos, tinha gente boa e gente ruim. Meu pai Omolu que tava na frente, me ajudando a colocar reza, proteção e cura nos corações das pessoas. Eu nasci aqui mesmo em Cachoeira, foi em 1917. É… Minha menina, tenho 101 anos, tem gente lá pros lados de Santo Amaro que tem mais. Em São Brás, na verdade. Ela tá viva ainda, acho; Dona Mocinha. Sambadeira das boas. Dois anos mais velha que eu. Converso com ela em reza, sempre.  Somos duas “mulé” de fé. A gente vive bastante tempo nesse recôncavo, sabe? Sabemos cuidar do espírito, menina. Mesmo que o mundo seja duro como um cão. A gente cuida do ori, vive e samba também. Nasci no mocambo antigo aqui no Caquende, não é isso que você que quer saber? Tudo aqui era quilombo, e quilombo sempre é, né mesmo? E fui logo banhada pelo Paraguaçu, naqueles lados onde hoje é a Faceira. Acho que esse banho foi a minha primeira reza, a benção, o axé que mãinha me deu, logo quando cheguei nesse mundo. Eu tive alguns filhos, em sua maioria já morreram. Vivi tempo demais. Atravessei o tempo deles, me entende? Mas ainda tenho dois que restaram, uma mulher e um homem, que já tem idade também. Tive oito no total. Naquele tempo era assim. Me lembro quando comecei a amamentar Toinho, ele não engordava. Toda noite quando ia dar de mamar, uma cobra sugava o meu leite, e, pra Toinho não chorar, a bicha deixava ele mamando a sua calda. É verdade. Tive alguns filhos que se foram assim, de rabo de cobra – mas com meu Toinho, não. Eu descobri. Contei pra todo mundo em Cachoeira, ninguém acreditou, mas rezei e numa noite consegui matar a cobra. Fiquei mais forte na reza. Consegui desfazer nó-de-destino, que é o pior nó que a pessoa pode ter na vida e sambei por esse recôncavo, filha. Ando com fé até hoje. A fé manda embora ”as coisas ruim”.  Você sabe, né? Num faiá.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

ZANGA, ZANGALALA

Por Davi Nunes

 

basquiat cérebroJean Michel Basquiat

Um dos grandes problemas que nós negros da diáspora tivemos com todos esses séculos de transposição transatlântica, escravidão e racismo é a desconexão sígnica, isto é, a desconexão dos sentimentos africanos com as suas expressões, os signos correspondentes às línguas do continente.

Tivemos que revestir nossas significações, emoções, angústias e sofrimentos mais potentes com a língua, às palavras do colonizador. Ex: Paixão, raiva, amor, desespero, liberdade, ira, felicidade etc. Penso que todas essas palavras são como corpos sem sangue e osso para os negros(as) nessa diáspora de angústia. São sofismas bem articulados. Um desencaixo cognitivo, um vaco ilusório, abstrato, que nos deixa sempre no não lugar. São significantes que não dão conto dos nossos significados.

O nosso axé, forma motriz da humanidade negra, não cabe no idioma português sem perdas. Açoite e violência simbólica, saca? Mas algumas palavras africanas permaneceram não como descritas nos dicionários oficiais da língua portuguesa, mas como força semântica que se retroalimentou e se retroalimenta nos quilombos, nas bocas das noites mais frenéticas nas quebradas polifônicas e contemporâneas. Uma dessas palavras poderosas e que vamos nos ater aqui, é zanga.

Zanga (e se estendendo ao verbo zangar) é uma palavra que, segundo Nei Lopes no Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem banto, provavelmente do Quicongo isanga: lágrimas, singular de kisanga. Ou relativo ao quimbundo zangalala: rebelde. Que se liga a ondzanga: bravura, coragem, combatividade.

Nos dicionários oficiais da língua portuguesa zanga aparece significando aborrecimento, antipatia, mau humor e tantas outras definições que a esvaziou durante toda uma normatização secular de seu significado mais amplo, africano.

Zanga é super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar – em frente aos monstros com mandíbulas ensanguentadas e pele de fantasmas assassinos, o sistema.

Zanga não é raiva negra. Caralho. A raiva não é um sentimento que alcança a plenitude intempestiva da zanga. Zanga é todo um sistema de luta negra, um gênio ativo que franze o rosto e não pestaneja na hora das guerras.

Desde o rapto transatlântico que estamos zangados, Porra! E toda vez que esmorecemos a zanga, morremos.  E continuamos a morrer, sem se zangar. E essa morte é a pior – a morte sem zanga – é a morte do não ser, do ser opaco que não queima e não age contra toda violência e racismo, a cobra de vidro a estourar seu veneno em nossas cabeças.

Zanga agora é um livro, é um livro de contos que compus. São dezanove contos, dezenove zangas escriturais. Dezenove zangalalas, rebeldias. Dezenove ondzangas, coragem. São banzos, dengos e quizilas também. É o mutuê, a cabeça, e o coração estourado em enredos e personagens que ardem e, sobretudo, zangam.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.