A SEGUNDA MORTE DE LIMA BARRETO

Por Davi Nunes

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As vozes pálidas escrevendo a nossa história, biografando nossas vidas-dores, traço imperioso da ordem de produção de discurso nesse país, parece como uma segunda morte. Aquela morte que se apresenta no filme Corra, do diretor norte americano Jordan Peele, uma morte que é viva a servir angustiosamente a branquitude progressista cool. Vulgo maquiavélica. Morte que zumbifica – alma sugada –  pois o crivo é da mea culpa empalidecida comercial. Lucro de tez pálida.

Talvez Lima Barreto esteja se revirando no túmulo, na vala inócua e fria que o colocaram, como colocam ainda hoje homens e mulheres negras e negros, ao perceber que a sua história (biografia de gênio esgaçado pelo racismo) está sendo escrita por representante(es) de uma “elite intelectual brasileira” que, em sua época, ele combateu, demonstrou suas hipocrisias e obliterações literárias chulas e fora, em vida, condenado por ela.

O jogo revelado por Lima Barreto, assim, o esmagou. Mas agora, após 95 anos de sua morte, a casta literária privilegiada quer lhe dar uma dose simbólica de uma boa cachaça festiva e literária, a paratiana. Talvez eles(as) pensem ainda que todo emparedamento, enredar de obstruções raciais, foi só loucura etílica. “Noias” intelectuais tristes.

O dândi Lima Barreto era de dimensão maior, heroica, pois ele trazia o caos: sacarmos intelectual diante do pedantismo erudito de venta branca, e ironia diante da mediocridade literária que se apresentava grande sendo pequena em sua época.

A segunda morte – arquétipo fantasma da vivência de escritor negro escrita por sujeitos(as) brancos(as) – já era anunciada em República dos Bruzundangas. Os encaixes de discursos de autoridade que aparecem na obra através de personagens tipos, já davam conta de arquétipos sociais, alegorias de intelectuais e políticos brasileiros que apareciam pastosos e ridículos no livro, e que agora pulam fantasticamente da República dos Bruzundangas e estão na realidade a transformá-lo num signo rentável em seus livros e festividades literárias.

O escritor Lima Barreto, escrevinhado por essa elite, não cabe (talvez só como contrassenso) no Afonso Henrique, homem negro, suburbano que foi escamoteado pela “bruzungandisse” burra e racista dessa laureada gente. O que é louco, pois parece que eles têm formas de uso infinitas de nossas vidas e obras.  E quando nos articulam em linguagem, nos matam e produzem os fantasmas representativos que se acoplam e regulam o discurso dominante.

Lima Barreto foi visionário, previu a sua segunda morte, um mar de palavras e discursos vindos do que ele desprezava, de um foco narrativo elitista, descrevendo os enredos, os eventos, no entanto com filtro higienista, sobre a sua vida.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

OS SACERDOTES E SACERDOTISAS DA ESPIRITUALIDADE BANTO DO ANTIGO BEIRU

Por Davi Nunes

RUF

A religiosidade banto no Beiru do século XX, bairro localizado na região do miolo da Cidade do Salvador-Ba, o Cabula, foi estro de tambor e de espiritualidade alargada nos movimentos do corpo. A raiz era forte, era de massanganga e do Tumbensi. Era cerimônia africana que se fazia ao redor das árvores sagradas, a exterioridade ancestral do povo Muxicongo que passava o àse a todos os vunjis, malungos e malungas da região. O poder era forte. Fazia gambé se aquiescer em sua fraqueza espiritual, por isso sucedo aqui como dizem os iorubás com o agó humildemente pedido para traçar algumas linhas sobre o panteão de religiosos importantes (Miguel Arcanjo, Maria Neném, Manuel Ciriaco e Manuel Rufino) que estenderam/fundaram a espiritualidade banto na localidade.

Miguel Arcanjo de Souza, dijina Massaganga de Cariolé do Santo Amuraxó, cuja travessia à Aruanda – segundo relatos da oralidade – o boca a boca atemporal, ocorreu com 81 anos, no ano de 1941, foi um tata (babalorixá) do candomblé banto. Ele era originalmente da nação extinta, Angola Tapuia, de maneira que se mudou para a nação Angola Muxicongo.

Em 1910, Miguel Arcanjo comprou a Fazenda Beiru, a antiga Fazenda Campo Seco, dos Hélios Silva Garcia, escravizadores do homem nigeriano, Gbeiru, que conseguiu de maneira estratégica as terras e a liberdade ainda no século XIX. No entanto, após a sua morte, em fins deste mesmo século, os Garcias recuperaram as terras e, em 1910, Miguel Arcanjo conseguiu comprar a fazenda, como se pode ver na certidão de compra e venda no livro Beiru, lançado pela Associação Comunitária Mundo Negro. E já em 1912 Massaganga fundou a Nação de Amburaxó e o importante Terreiro de Massangua.

A Nação de Amburaxó de acordo com os mais antigos se caracterizava por realizar as cerimônias religiosas ao redor das árvores sagradas e isso é só um átimo de muitos mistérios que a envolve e que pouco alcançamos.  Além disso, o Terreiro de Massangua se localizava – pode se estimar a extensão minimamente aqui – onde é hoje, no Beiru, o Terreiro São Roque, a 11º delegacia da polícia e os seus arredores.

Maria Nenem I

Outra sacerdotisa importante no Beiru foi Maria Genoveva do Bonfim, Maria Neném, dijina Mametu Tuenda dia Nzambi, nascida no Rio Grande do Sul, em 1865, e feito à travessia para Aruanda em Salvador, no ano de 1945. Ela foi uma grande matriarca fundadora do primeiro candomblé angola no Brasil, o Tumbensi, e através dessa raiz poderosa se originaram vários outros terreiros de candomblé da nação angola, são eles: Terreiro Tumba Junçara, Terreiro Bate Folha, Terreiro Tanuri Junçara e vários outros na Bahia e no Brasil.

O terreiro de Maria Neném, o Tumbensi, dizem os mais os velhos da religião que se localizava de frente para o de Miguel Arcanjo. Os dois eram amigos e vizinhos, dividiam o segredo do pó da raiz de amburaxó, que fechava o corpo com o bem cuidado das folhas e raízes.

Ciriaco dijina Ludiamungongo

Também admirável religioso foi Manoel Ciriaco de Jesus, dijina ludyamungongo, junto com seu irmão Manoel Rodrigues do Nascimento, dijina Kambambe, os dois iniciados pela sacerdotisa Maria Neném, fundaram em 1910 o Terreiro Tumba Junçara em Santo Amaro, no recôncavo da Bahia. Mas após algum tempo se transferiram para o bairro Beiru e junto com Maria Neném, Miguel Arcanjo contribuíram na região para o crescimento da espiritualidade do candomblé angola.

Rufino

Outro poderoso sacerdote, Manoel Rufino de Souza, dijina Omin da Samba, que fez sua travessia para a Aruanda, no ano de 1973. Estimasse com 85 anos. Levou o candomblé angola a ser mais conhecido. Ele foi filho de santo do Tata Miguel Arcanjo e um religioso famoso, muito poderoso com o seu terreiro Àse do Beiru. O seu poder era transposto em várias dimensões na religião, era sábio e alquimista com o pó da raiz amburaxó, preparado com folhas, raízes e ingredientes que erigiam força e cura para o seu povo.

A espiritualidade banto espraiada por todos esses sacerdotes e sacerdotisa, além de muitos outros, outras, faz quilombo ainda em nossas cabeças e corações no Beiru. Ainda são vários os templos que mantém seus ensinamentos. É horizonte que nos liga a uma memória e sociabilidade africana no bairro, há uma ancestralidade que nos reergue poderosos(as) todos os dias, pois é sagrado as nossas vidas, é sagrado o àse.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, do site de cultura Norte Americano, Cores Brilhantes, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

A mirror of false reflection that doesn’t fit our image, the word is not amor (love), it’s dengo

Black Women of Brazil

A palavra não é amor, é dengo

Note from BW of Brazil: As we continue to try to re-construct our realities as African peoples stolen from our lands, we must deal with the multiplicity of methods that the colonizer used to conquer our beings, essences and very souls. One of those methods that is often overlooked is the simple usage of the language we were taught to use in the new lands to which we were transported and how these foreign tongues often cannot sufficiently describe our experiences, memories and ancestral ties as a people. Below, Davi Nunes explores the usage of a term that supposedly describes a universal sentiment and how its imposition on a people is yet another mismatch in our experience. 

The word is not amor (love), it’s dengo.

By Davi Nunes *

Portuguese, the language imposed by the colonizer, even after centuries of use, is an imperfect fit in our ori, in the

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CHAMEGO: AFETO ANCESTRAL QUE CHEGOU COM OS POVOS BANTOS NO BRASIL

 

Por Davi Nunes

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A transposição do sentimento africano para o Brasil ocorreu muito através das línguas que eles trouxeram para cá. A língua como revestimento sensível da nossa humanidade, transposição dos laços profundos do coração, da ancestralidade afetuosa que resistiu às atrocidades transatlânticas – absurdas ações que duraram séculos. Dois continentes e um mar tingido de sangue, não foram suficientes para destruir a beleza dos sentimentos originários dos diversos povos africanos que chegaram por essas terras.

Os povos bantos, assim, foram os primeiros a chegarem nesse país. De maneira que as línguas da raiz banto: Quimbundo, Quicongo, Umbundo, entre outras influíram de forma substancial na formação do  português brasileiro, conseguiram influenciar nas diversas estruturas do idioma e colocaram na vitrine da fala e escrita signos que nos religam a uma maneira de sentir e pensar africano, que permaneceu e permanece na nossa forma de demonstrar afeto e saber.

Assim, uma das palavras que está dentro dessa raiz estruturante na constituição do português, ou “pretoguês” brasileiro (a qual me atenho aqui) é a palavra “chamego”, ou mais africanamente escrita “xamego”.

O chamego é um sentimento de atração – repuxo civilizatório ancestral íntimo – de negrxs que veio com os povos bantos da África e ganhou campo fértil no Brasil. É lastro de afeto que compõe o ser, é o galanteio e o bem-querer que se bem feito se chega ao xodó para daí se construir o dengo.

Talvez pode se equiparar com a paixão, mas a paixão na cultura ocidental funciona mais como um desalinho dos sentidos, que pode pender para algo bom ou ruim. Entre a tragédia e a benevolência a linha é tênue. Diferente do chamego que é alinho manhoso dos sentidos. É sublimação positiva dos sentimentos. É alinhamento ancestral.

Estar de chamego com alguém é estar preocupado em encantar a pessoa do nosso desejo, há poesia e flerte libidinoso nisso, não é sentimento murcho, preenche a existência. O chamego é força propulsora de beleza, é o religamento dos continentes afastados, que se manifesta no frio que esquenta o espírito a eriçar os pelos.

Além disso, pensando de maneira mais macro, o chamego nas relações familiares e quilombolas é uma prática social de restabelecimento do ser. Se a escravidão e o racismo trouxeram e trazem o banzo – dor e resistência – o chamego cura, reestabelece, dar sentido onde tem desespero. Faz com que se vislumbre o dengo e resista às intempéries estruturais que nos assola no mundo.

Por isso, antes do dengo tem o chamego. Tem que saber “chamegar” para arar o terreno da afetividade na manha, assentar o xodó, fluir de peles, prazeres e fertilidades, entrelaçar corações para erguer de forma suprema o dengo.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

 

47 anos da morte de João Cândido: Herói Negro na Revolta da Chibata

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Por Davi Nunes

Ha 47 anos, 6 de Dezembro de 1969, morria João Candido, o herói negro da Revolta da Chibata. João, mais conhecido Almirante negro, nasceu em 1880 no Estado do Rio Grande do Sul.

O mar para ele era a imagem que compunha aos seus olhos o que se poderia chamar de liberdade. Falo do mar, não da marinha. Essa era grilhão e açoite.

Quando o Almirante negro entrou para Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre, aos 15 anos, depois viajou para o Rio de Janeiro e viu pela primeira vez o mar – horizonte líquido estendido a um esplendor tão grande que se cruzava em seu ponto mais universal e cósmico com a ponta do céu – ele logo se deitou aos seus pés e pediu axé e saber a Iemanjá.

Assim, aos 21 anos, fora promovido a marinheiro de primeira classe e dois anos depois, em 1903, foi promovido a cabo-de-esquadra, sendo depois rebaixado por ter levado, introduzido no ambiente de opressão, que se assemelhava ainda aos tumbeiros da escravização, um jogo de baralho.

Trabalhou na marinha brasileira com protagonismo durante 15 anos, viajou por vários países, agregou em si saberes e culturas que não mais permitiu se submeter às opressões e racismo estruturante da Marinha brasileira.

A punição que acontecia, principalmente aos marinheiros negros, era: por alguma falta leve (poderia ser qualquer distração) prisão a ferro na solitária – cincos dias a pão e água, e faltas (nos critérios deles graves) 25 chibatadas no mínimo.

Por isso em 1910, não só por isso, pois João sabia que era necessário – mesmo já “abolida a escravidão” – a qual os seus pais, João Felisberto e Inácia Cândida Felisberto foram vítimas, lutar para a libertação do seu povo. Era preciso liderar 2400 marinheiros contra as imprecauções racistas da marinha. E fez. Enfrentou os autos escalões brancos da marinha. Ameaçou, para ter os seus direitos conquistados, bombardear a cidade do Rio de Janeiro, lutou heroicamente com todos os seus companheiros, organizaram motins, batalharam e resistiram até o fim.

João Cândido e seus companheiros conseguiram acabar, por  fim aos castigos corporais, quebrou as chibatas que cortavam a carne dos marinheiros negros pelas mãos dos oficiais brancos, no entanto fora expulso, renegado da marinha, vindo a trabalhar como timoneiro e carregador em algumas embarcações particulares, tendo depois a sua morte social decretada, pois fora demitido de todos os serviços da marinha por intervenção de oficiais do dito alto-escalão.

Viveu firme, altivo até o fim de sua vida. Conviveu com a perseguição da marinha, com o banzo da morte de sua primeira esposa, Marieta Cândido; o suicídio da segunda, Maria Dolores Vidal, e depois de dez anos dessa tragédia, ocorreu à terceira, o suicídio de sua filha. Levou uma vida de heroísmo e tragédias, fora carcomido pelo racismo e pobreza, faleceu na Cidade do Rio de Janeiro, em 06 de dezembro de 1969.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

A palavra não é amor, é dengo

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Por Davi Nunes

O português, a língua imposta pelo colonizador, mesmo depois de séculos de uso, é encaixe imperfeito no nosso ori, no mutuê. É palavra presa na língua. É a língua represa nas palavras que nos desencaixam como ser no mundo. Roupa que vestimos e não cabe confortável no nosso corpo. Falo especificamente da norma padrão, a musa esquálida e pálida, a torre de marfim que é campo de concentração linguístico para torturar e dissolver gramaticalmente o nosso corpo-língua ancestral.

Observo que os nossos afetos, sentimentos transpostos através das palavras, terminologias, nomenclaturas organizadas historicamente pela hegemonia branca para nos dominar – a língua como um ferro quente na boca – demarca o lastro terrível da escravização e racismo, não pode servir como elemento simbólico, signos, para representar as formas de afeto que ocorrem entre negros e negras.

Penso que a palavra amor tão consagrada pela cultura ocidental desde a “Antiguidade Clássica” não tão clássica e antiga quanto às clássicas civilizações melanodérmicas e ancestrais, berço de tudo, seja uma dessas. A palavra amor para nós negrxs é espelho de reflexo falso, não cabe a nossa imagem nela, que é profusão humana e beleza que extrapola a sua lógica.

A palavra amor se articula no mundo branco como pré-ódio, exemplo: primeiro invadem outras nações, cometem as mais atrozes barbáries, depois contemporizam com seus tratados filosóficos, religiões, mitos, literaturas que azorragam a ideia de amor, a flor maior dos sentimentos humanos segundo eles, para construírem uma sanção positiva das suas humanidades derreadas e exercerem tranquilamente o poder sobre os outros povos. A palavra amor assim é um embuste de algo sublime que funciona para eles, pois possui uma função objetiva: criar conforto diante das suas quimeras mais profundas.

Para nós, negros, ela não funciona, é espelho falso e reflexo bifurcado tragicamente, é desencaixe cognitivo e afetivo, sofisma que nos adoece, ilusão fantasmagórica que não alcançamos e não comunga com a extensão abissal de nossos sentimentos, pois desde o início estamos além. É um signo que não comporta a densidade e beleza significativa da nossa afetividade, do nosso sentir. É o desencaixo no coração, okan, e na cabeça, ori.

A palavra que dá conta de acoplar a nossa afetividade, no caso do Brasil, de abarcar a batida mandingueira do nosso coração, da magia e poesia do encontro ancestral de negros e negras, é a palavra de origem banto da língua Quicongo, totalmente inserida na variação do português falado principalmente por negrxs chamada de dengo.  Óbvio que falo aqui do dengo em seu sentido mais profundo e ancestral, o supremo dengo. Não da significação subscrita nos dicionários brancos, que apequena os sentidos das palavras de origem africana.

O dengo durante toda a história de escravização, favelização e racismo nessa diáspora de angústia, o Brasil, foi o instante eterno de libertação expressado num simples aconchego de esperança no desconforto cotidiano. A união dos corações em sublimação ancestral, o oriki que arrepia os pelos, pois ecoa por todo o corpo o axé e o poder dos orixás. Os olhos que se entrecruzam e se fixam, pois há de haver o beijo, supremo dengo, libelo de libertação expresso no gesto. Os corações que se entrelaçam para fazerem o “corre” do quilombo intimo e movimentar os outros mocambos para construir o grande quilombo. A humanidade que se reconstrói depois de se diluir através do racismo das grandes metrópoles em frenesi no sorriso da companheira(o) no encontro sagrado depois da batalha enfrentada. O reencontro dos continentes afastados através de um juntar manhoso de faces azeviches a formarem destinos.

A palavra dengo é signo portentoso e conjuga em seu interior a palavra chamego, é a família preta em celebração do quilombo íntimo, é a África na origem, o sopro da criação original no ouvido a trazer placidez e beleza ao coração.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

KEMET

Poemas publicados na Coletânea poética Enegrescência (2016)

Davi Nunes

ilustracao-zozimo-3                                                                            Ilustração Stefany Lima

 

I

Uma mão medonha de algum deus branco

aperta – em espremer maldito de dor –

a minha cabeça.

Crava digitais de fel e horror

nas paredes esqueléticas do meu crânio.

Esbraveja maldições e emparedamentos,

comprime até as veias estourarem

no meu rosto o sangue da desesperança.

Sugere-me: suicídio. E ri loucamente

com seu eco sinistro de cientista

das amarguras universais.

Grito a irromper com as minhas ondas

de desespero o mistério do buraco negro,

olho para o totem ancestral e rogo-lhe uma arma.

Escuto o tambor e sinto que sou um deus de Kemet

posso agora estourar com o fogo do cano-de-aço

a cabeça-monstro do meu algoz.

 

II

Um demônio em pele de fantasma

com a palidez ártica das cavernas

tem uma arma apontada para mim

Tem uma arma apontada no meu peito

um demônio em pele de fantasma

com uma inveja espumada em ódio

que não ri

Um demônio com farda de fantasma

com uma inveja espumada em ódio

tem passos de botas e uma arma engatilhada

para meu fim.

 

III

Talvez eles queiram com os seus olhares de maldições

que os meus ossos se diluam

virem pó

que minha pele fique flácida

como um saco plástico

como seus rostos pálidos

ao me ver passar

não podem apagar a luz do corpo de um faraó

não podem parar a edificação da pirâmide

que irá soterrá-los.

 

IV

Eu tive a cabeça da faraó aconchegada em ternura de amor sobre o meu peito

beijei o veludo delicado do seu cabelo

percorri com os olhos de amante a beleza azeviche do seu corpo

fui feliz.

 

V

Vi por um buraco de bloco

no meu gueto, no Cabula,

Kemet grandiosa

Vi o portal ancestral

de Kemet se abrir

Vi um exército de homens com peles frias e pálidas

com canhões apontados para Kemet

Vi o Deus Amon-rá gritar guerra para esses homens

eu vi.

 

VI

A profecia irá se cumprir

– afã e poder dos deuses –

nesse mar de angústia e atrocidades

obeliscos, esfinges e pirâmides

serão de novo levantadas

Faraós se reergueram do Vale dos Reis

e eu já sou Ramsés II encarnado

um pedaço de sol sobre a terra

nos guetos de Salvador.

 

VII

Há três mil anos antes de cristo

1280 quilômetros ao fim da fronteira de Kemet

no sul da Etiópia

eu era grande

um escriba-poeta

observando o Nilo miraculoso em sua glória

eu era grande

um gênio numa civilização melanodérmica

a sonhar com cem pirâmides gigantescas

eu era grande

e imortal como um deus.

 

VIII

Meu corpo estava dentro do relicário

no Vale dos Reis

não havia interferência dos homens gelos

na minha morte

No Vale dos Reis

virava deus-eterno

Agora sob o teto quente dessa casa

no gueto

Há a interferência dos homens gelos

na minha morte

e não existe mais o relicário

a me guardar.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil