Um Malê na Vila

male

foto vila isabel

Davi Nunes

Você sabe, né? O Pantanal tem uma vista bonita, o Rio aos seus pés. As balas são pássaros de fogo que a gente vê no pé do Morro do Macaco. Aqui é a cabeça, o ori. Onde a gente matuta e sonha. E muzungo não sobe de medo. É como a gente se protege, tá sabendo? É feitiço, mas não é o feitiço da vila. Nunca gostei daquela princesa. É feitiço da cabeça do macaco. Tem mosquito que mata brucutu – os canas que vem de madrugada com rosto de demônio. O povo esqueceu o significado de samba, é reza, menino. Não sabia? Semba é reza. Também só fala as línguas dos brancos… Fica burro. Fico aqui de cima todo dia, olhando essa vista, rezando, sambado pra proteger todo morro. Já faz uns 100 anos já… Seu avô era malê.  Veio da Bahia. Matou um barão lá na revolta e veio para cá. Ainda me lembro do seu amuleto, o patuá. Tinha reza escrita em Árabe dentro dele. Acredite. Era a sua proteção. Maior mandingueiro. Boladão. Quando enxerguei aquele homem, fiquei mole, dengosa. Era alto, bonito como uma noite enluarada. Como esse céu cheio de luz que a gente vê agora daqui de cima. O olhar dele era corajoso que só, não tinha naqueles olhos de haussá nenhuma gota de medo. Haussá era sua etnia. Um povo dos lados de lá da Nigéria. Foi o que ele me disse. Hoje, ninguém sabe mais de nada direito. Vive morto-vivo, andando por essa cidade cimentada. Prédio, carro, metrô, vlt, tiro. A porra que pariu todo mundo. Ele subiu o morro. Logo nos arrumamos. Eu nele, ele em mim. Foi o dengo, entende? Nosso barraco, ele rapidinho encheu de samba, os batuques e as rezas que trouxe de lá da Bahia. Se tornou barbeiro na Vila, numa birosca, por alí, onde hoje é a 28 de Setembro e matou um português, cortou sua garganta enquanto fazia a sua barba por ter tocado no seu patuá e lhe olhado feio. Os canas tentaram botar ele no xilindró, derrubou uns três, subiu o morro, entrou na mata e virou urubu, o pássaro mensageiro, entende? Ele voou pra Nigéria. Foi levar o lamento do nosso povo nessa terra. Eu não chorei. Sabia que quem leva o lamento, traz a cura. Já estava grávida e alguns meses depois, vi o urubu voando no horizonte do Morro da Mangueira. Entrei na mata do Pantanal, fui quase saindo do Macaco, senti as contrações e gritei por ele: Licutan! Ele apareceu por traz da sombra do urubu.  Parecia um deus. Me disse: “Essa menina que vem… Não nasce, nos que nascemos dela.” Ele fez o meu parto, pari sua mãe Danda. Voltamos pra nossa casa e ele tinha feito os canas se esquecerem da morte do português. Nossa casa se tornou uma casa de bamba. Samba e feitiço, malandragem e revolta. Fui feliz. Licutan compôs samba pra mim. Virou um sambista influente no morro. Desceu pra pista. Bebeu e tocou com um flautista importante no baile dos brancos pra tirar um bambar pra gente. Depois descobri que foi com Pixinguinha, fiz até uma feijoada pra ele aqui em casa. Pixinga era elegante, educado e sempre elogiava a minha comida e minha voz quando eu cantava. Os dois se tornaram parceiros de verdade. E, num certo dia, Licutan apareceu dizendo que ia viajar, sumiu por quase um ano, o filho da puta, apareceu falando que tinha ido na França com Pixinguinha e os batutas tudo tocar pros gringos e que bebeu e tocou junto com os músicos americanos do jazz lá. Ele me disse que esse contato mexeu muito com Pixinga, tanto que ele resolveu colocar o saxofone no choro. Peguei os bagulhos que ele trouxe da porra da França e taquei tudo na cara dele. Tava de sacanagem comigo. Sumiu quase um ano. Fiquei zangada. Depois fizemos amor e peguei o dinheiro que ele trouxe pra melhorar nossa casa. E no dia que ele desapareceu de vez, fiquei desesperada. Senti que nunca mais ia vê-lo. Licutan tinha comprado um saxofone pra presentear Pixinga. Falou que Alá tinha lhe dado essa missão. Voltou à noite pra Vila Isabel. Bebendo aqui e acolá. Os canas enquadraram ele. Um, disse que o saxofone era roubado. Mas não sei… Talvez tivessem se lembrado do caso do português. Um outro, tocou no seu patuá, quase arrancado. Licutan derrubou um e furou o outro com navalha, subiu o morro e vários canas vieram no encalço dele.  Escondeu o saxofone no nosso quintal. Beijou Danda e me disse pra entregar o instrumento a Pixinga, me deu o patuá malê e me falou que os ancestrais tavam esperando ele na floresta. Os canas atiraram muito, mas só viram seu vulto entrando na mata e eu hoje fico olhando esse horizonte todo daqui de cima do Pantanal e sempre aparece um urubu rei planando no céu e a cidade toda aos seus pés, a cidade toda aos nossos pés, filho.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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a morte de um malê

 

Por Davi Nunes

malê

uma gota de suor escorre do rosto assassino

estrala como uma bola de canhão em minha testa

ressoa maldições por todo o meu corpo preso no cadafalso

vou morrer intacto com  minha fé – malê

 

nenhum homem com pele de fantasma envidraçada

irá me fazer ajoelhar,

pedindo piedade diante de um deus que quer me fazer escravo

vou morrer honrrando minha fé – malê

 

o vulto quente da navalha já mede o ponto certo da minha morte

o pescoço

e sinto, num átimo, o cio de todos os meus amores

marcas de eternidade na memória

 

na praça, há homens e mulheres pálidos

estourando nas faces veias de escamas de peixes – suplicantes pela execução

 

o executor já suste a navalha afiada sobre a cabeça

para o golpear derradeiro:

franze o rosto

deflagra o golpe

vejo, aí, (antes do fim)

seu reluzir dilacerante

descer em direção ao meu pescoço

fecho os olhos

fiel à minha fé, malê!

Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula

Pequenas reticências...

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O livro Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula é um livro infantil escrito por Davi Nunes e publicado pela Editora Uirapuru.

Davi Nunes é natural de Salvador, Bahia, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade da Bahia (Uneb-BA) e é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudo de Linguagens – PPGEL pela mesma universidade. Além de ser escritor de livro infantil, é poeta e contista. Além disso, ele mantém o blogue Duque dos Banzos, em que publica textos sobre a cultura afro-brasileira, e é colaborador de sites sobre a cultura negra do Brasil e dos Estados Unidos da América.

O blogue Pequenas Reticências fez uma entrevista com esse escritor. Confira a seguir.

Pequenas reticências: Sobre o que trata o livro Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula?

Davi Nunes: O livro Bucala: a pequena princesa do Quilombo do Cabula conta a história de uma linda princesa quilombola que tem…

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BANZO: UM ESTADO DE ESPÍRITO NEGRO

Por Davi Nunes

banzo

As palavras de origem africana que nos negros(as) conseguimos manter durante esses mais de quinhentos anos no Brasil – diáspora de desassossego e morte – para explicitarem sofrimento, ou mesmo algum estado de padecimento psicológico (efeito da escravidão e racismo) possuem, em muitas delas, significações filtradas, estranguladas. Signos que vão se tornando opacos quando entram no sistema linguístico da língua portuguesa, quando são transcritas no código escrito do colonizador. Podem perder o axé – a energia semântica e ancestre de sua significação original, africana. Uma dessas palavras que vamos nos ater aqui, e que ilustra um estado de espírito negro, é o banzo.

Banzo é uma palavra que, segundo Nei Lopes, no Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem na língua QUICONGO, mbanzu: pensamento, lembrança; e no QUIMBUNDO, mbonzo: saudade, paixão, mágoa. Para ele, “Banzo é uma nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil.” Nos dicionários oficias de língua portuguesa, os dicionários brancos, banzo é definido como saudade da África, ou como forma de adjetivação de pessoa triste, pensativa, atônita, pasmada, melancólica.

A melancolia parece ser a definição que solapa muitos desses dicionários. É uma associação apriorística com o banzo, que é visto como a melancolia negra. Freud no texto Melancolia e luto diz que ela se caracteriza por um desânimo abissal, doloroso, uma suspensão do interesse pelo mundo, além da perda da capacidade de amar. O banzo é mais que isso, conflui em si todas essas palavras em português que remete a um estado de desassossego na alma, convulsionadas por uma exterioridade de terror, morte, escravidão, tortura. É a síntese profunda de uma existência moída em dor por uma estrutura social, política e econômica aterrorizadora.

O banzo constrói o ser negro(a) macambúzio(a), um casmurro em zanga, que sente todo o terror da existência nesse chão suspenso e cheio de interdições que o colocaram.

Quando nos séculos da escravização um homem ou uma mulher negra engoliam um naco de barro para se suicidarem, eles buscavam sentir, no gosto da terra envenenada pela ferrugem do grilhão, a terra original a qual foi desterrado, saca? Aruanda era/é o sossego diante do desassossego do exilio torturador da diáspora, que era e é um solo movediço a engolir negros e negras até hoje.

O banzo não é melancolia, talvez seja como nos demostra o poema de Cruz e Souza, “Tristeza do infinito”, é uma ação de suspensão objetiva de uma existência atroz. Não era/é necessariamente o fim da vida, mas a manutenção de um estado de alma que não lhe fazia funcionar para uma estrutura de opressão. Um exemplo nítido disso é a loucura, enlouquecer na escravização minava a ordem, o louco era fogo ensandecido mesmo que fosse para a morte.

O banzo perpassa a história dos negros da diáspora, é um sentimento poderoso que implode e explode. Algumas explosões são arte heroica: o jazz, chorinho, blues e rap, outras são implosões a se perderem no buraco negro e plácido da existência, numa escuridão boa, consoladora, ancestral, ou mesmo no grito solitário de desespero e morte.

O banzo hoje é a cobra de vidro, o racismo, que invade o cérebro e explode em traumas a cabeça do intelectual negro(a) que já pensa em ir para Aruanda; é a mãe com o olhar perdido, pois teve seus dois filhos assassinados pelos gambes com mandíbulas espumantes em sangue.

O banzo é a antítese heroica da vitória, a pistola apontada na cabeça e o riso desesperador do suicida; o mergulho no mar, na Atlântida Negra, perdida no fundo do oceano, pois o navio negreiro é a morte do corpo negro sequenciada nos séculos futuros. É o sangue no olho do menino preto que vai morrer homem. Caralho. É a cabeça de Eternit e o tiro zumbido no ouvido tranquilamente. É o pessimismo de Machado de Assis, o desespero lírico de Cruz e Sousa, o expressionismo mentalista de Basquiat, o inebriar etílico de Lima Barreto. É gênio e morte, mas não é a morte do gênio negro, entende? É o núcleo atômico de um sentimento que se desenvolveu no processo de escravização, e ainda hoje é um estado de espírito ao mesmo tempo aterrorizador e poderoso, uma transcendência diante dos traumas seculares.

O banzo, assim, é fim para o começo, embate mentalista introspectivo que move o mutuê, a cabeça, para uma dignidade existencial que se estende além da vida – a ancestralidade. Por isso é força angustiante, uma instancia desesperadora, uma dor insubmissa às opressões.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

Agnaldo dos Santos: um brilhante escultor afro-brasileiro

Por Davi Nunes

ag 9Agnaldo dos Santos. Foto autoria desconhecida

Agnaldo dos Santos foi um artista negro, um genial escultor, nascido na Ilha de Itaparica, na Bahia, no ano de 1926 e falecido em 1962, em Salvador, aos 36 anos. Agnaldo foi um artista do impossível dentro das artes plásticas no Brasil, visto que ele enfrentou em vida condições sociais e raciais adversas até se tornar um escultor com obra exposta e trabalho reconhecido no mainstream elitista e branco das artes plásticas brasileiras.

As obras de Agnaldo dos Santos são essencialmente de madeira, antropomórficas e expressionistas. E os temas estão geralmente relacionados com a ancestralidade africana e às representações dos negros na Bahia. Uma das características estéticas das suas esculturas são os olhos fechados, os quais expressam serenidade e placidez, ao mesmo tempo em que manifestam um mundo extrassensorial, um mundo da espiritualidade negra.

 

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Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.