Meu nome é Moa do Katendê

Por Davi Nunes

mestre moaLiteratura de cordel

 

O meu nome de batismo,

de cartório,  pode crer,

Romualdo Rosário da Costa

tem pouco de mim, porque

eu escolhi desde novo:

meu nome é Moa do Katendê.

 

A capoeira que me deu

junto com o candomblé:

Katendê é do Quicongo,

de origem banto é,

povo africano, guerreiro

que aqui plantou axé.

 

Moa – meus irmãos me deram

quando ainda era criança,

Romualdo era nome grande

pronúncia que a língua cansa,

Moa ficou mais bonito

Moa desde a infância.

 

Moa é golpe que voa

como um aú dos ventos

sabe? Que Zumbi zumbindo

todos os nossos lamentos

um berimbau bem tocado

pois é jogo, é movimento.

 

Nasci em 54

aqui mesmo em Salvador

no Dique do Tororó

orixá abençoou

nasci feito pra guerra

neste Brasil de tanto dor.

 

Iniciei na capoeira

ainda um moleque,

moleque é palavra africana

não confunda com pivete:

é ser rei quando menino

e quando grande, ser mestre.

 

Na Academia de Capoeira

Angola Cinco Estrelas

eu trenei muito o jogo

afastei as besteiras

e logo fui me tornando

um dos grandes capoeiras.

 

Mestre Bobó me ensinou

o espírito da capoeiragem,

eu tinha  uns oitos anos,

pra precaver da maldade

e já jovem vivi a ditadura,

sistema de pilantragem

 

Eu tinha dezesseis anos

no início dos anos 70

entrei na música de vez

música como ferramenta

para expor a cultura negra

sua beleza e resistência.

 

Fui compondo minhas músicas

esperando o carnaval

e foi em 77

o ano triunfal

ganhei o festival do Ilê Aiyê

foi algo muito  genial.

 

A música que me fez ganhar

se chama Bloco beleza,

o sucesso foi bem grande

que logo espantou a tristeza

e na avenida com o Ilê

me tornei Moa realeza.

 

Também nesse mesmo ano

aconteceu algo bom,

entrei no grupo Percussão

Viva Bahia, o dom

e pude viajar a Europa

pra realizar meu som.

 

Já no ano seguinte,

ano de 78,

90 anos da Lei Áurea

eu ainda sofria afoito,

o povo negro se ferrava

neste Brasil tão escroto

 

Por isso que eu criei

o afoxé Badauê

com as cores dos orixás

sem muito bereguedê

Oxalá, Oxum, Ogum

pra sempre nós proteger.

 

E o Badauê ficou foi forte

no ano seguinte campeão

do carnaval de Salvador

Caetano fez até canção

e eu, Moa, só seguia

a batida do  coração.

 

Eu reafricanizei

junto com o Ghandy e o Ilê

o carnaval de Salvador.

O afoxé do Badauê

na avenida fez até

os crentes se “remexer.”

 

Uma das coisas que eu fiz

teve gente que escreveu

sobre isso que te digo,

e que me aconteceu

foi juntar sonoridades

que no ouvido apareceu.

 

Pois juntei Jimmi Cliff

e também o Bob Marley

com o afoxé da Bahia

uma mistura de verdade

mistura de preto-rei

mistura de irmandade.

 

Tudo foi ocorrendo

assim como tem que ser

levei a capoeira

e também o Badauê

para todo o mundo

para todo mundo ver.

 

Conheci muitos artistas

uns bons, outros ruins

uns eram  estrangeiros

outros nacionais, brasis,

mas foi no Dique Pequeno

que eu sempre  fui  feliz.

 

É no Dique Pequeno

que boto as crianças pra jogar

é a minha comunidade

onde botei as pernas pro ar

desde que nasci, aprendi

aqui a capoeirá.

 

Me sinto muito feliz

quando passo conhecimento,

a arte da capoeira

todo o seu envolvimento

aos que estão chegando agora

ladainha-corpo- movimento.

 

O reconhecimento chegou,

chegou como tem que chegar

pois nós, do povo negro,

tamos sempre a guerrear

neste Brasil tão injusto

não tem como descansar.

 

Por isso eu fiz palestra

aqui e no estrangeiro,

levei afoxé, capoeira

e ainda não comi cheiro

de racista e fascista

e desse povo fuleiro.

 

E o Brasil tá se afundando

nessa onda fascista

de todo lado eu só vejo

um monte de gente racista

querendo tomar o poder

me chamando de comunista.

 

Eu sou que nem Bob Marley:

nem capitalista, nem comunista:

sou rasta do Badauê

sou um preto capoeirista

e quero que o Brasil melhore,

não um político nazista.

 

Fui morto na covardia

por lutar pelo país

país que pra nós pretos

foi sempre muito ruim

e agora pode cair na mão

de um genocida infeliz.

 

Fui morto no dia que votei

por uma escolha política

e tudo que aconteceu

foi uma maldosa fita:

um ódio que é do sistema

matou um capoeirista.

 

Muita coisa aí passei

estou agora  na paz

sentindo em Aruanda

toda beleza que apraz

revendo a realeza

elegante dos  ancestrais.

 

Muita beleza eu vejo

o axé bonito de Zambi

a morte não é o fim

de nada, não é o nome;

o plano de Aruanda é

Kitembo rei – a morte some.

 

Agora, eu deixo o axé,

toque logo o xequerê

estou com todos vocês

nessa luta pra valer

dia a dia se lembrem:

eu sou Moa do Katendê.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

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LUZIA

luzia

Por Davi Nunes

I

Vivi nesse Brasil há mais de 12 mil anos. Não sei tão bem ao certo. Ser uma ancestral da América, nunca foi fácil. Fiquei presa no grilhão do tempo. A terra não comeu a minha existência por inteiro – sobrou o fóssil. Minha vida aqui sempre foi um território movediço, a presença da morte.  Vultos e rosnar perigoso de tigre-dentes-de-sabre no ouvido. Sombra de pé de preguiça-gigante sobre a cabeça. E o pânico da aproximação assassina das aves de terror, que sempre me assustava com seus gritos de enguias carnívoras. Não queria morrer pelos bicos sanguíneos delas, não mesmo. Vivi muitas aventuras de fio da vida e corri atrás do mastodonte com lança – o alimento. Meu povo era bom de caça. Eu também. A natureza era dona do nosso corpo, do nosso tempo e seguíamos o seu fluxo poderoso.  Meus antepassados vieram da África no estirão profundo do tempo. Migraram. Atravessaram geadas, tempestades, vulcões, maremotos. Colheram e caçaram para sobreviverem em suas jornadas. Chegaram aqui, na América, onde eu nasci. Meu povo e eu vivemos guerras sangrentas por ocupação do território com outras espécies de humanos. Ganhamos muitas batalhas e no final sucumbimos e eu morri.

II

A terra me guardou em seu aconchego durante esses 12 mil anos. Estava em paz. Sentia seu movimento por dentro, suas movenças e suas rasuras continentais. Coexistia com todo o seu poder e beleza. Meus ossos, a terra fez casulo, conservou. Há mais ou menos 500 anos, senti uns pés pesados e estranhos pisarem essas terras. Eram uma espécie de humanos novos – homens de gelo. Pressenti, em seu passar ambicioso, o negativo das suas pegadas.  E depois senti toda a umidade do sangue que eles começaram a derramar sobre essa terra. Ganancia, ódio, extermínio, escravidão, genocídio – sangue. O sangue se tornou a cor principal da América e do Brasil.

III

Há pouco tempo fui desterrada. Tirada do meu casulo terreal – das suas entranhas.   Virei fóssil usada pelos homens desse tempo. O azedume sinistro de sua civilização assassina envolvia com umidade os meus ossos ainda. Sabia que seria terrível tudo que veria a acontecer.  Fui examinada, catalogada, destrinchada… E até me deram um nome: Luzia. O peso medonho de todo esse mundo caiu sobre mim. Senti meus ossos arderem pela primeira vez. Fui levada. Me percebi fora do chão. Viajava. A natureza parecia morta nesse plano – era suja. Me  colocaram no Museu, era o Museu Nacional, exposta. Observei durante algum tempo essa espécime estranha e ambiciosa de humano, me olhando – Queria voltar para o meu casulo. Até que o museu pegou fogo e senti meus ossos arderem em chamas e o fóssil, a parte existente da minha passagem por essas terras, virarem cinzas.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

REZADEIRA

Por Davi Nunes

Conto inspirado nas vozes e histórias das rezadeiras de Cachoeira-Ba Dona Deth, Dona Bichinha, Dona Ti, que vi-ouvi na mostra Voz de Iyá

Foto Silviafoto: Silva Leme

 

Minha mãe que me ensinou a rezar. Reza daqui, benção de lá. Aprendi. Passei a vida toda rezando. Rezadeira… Meu ofício, num sabe?  Curei gente de tudo que é lugar desse país. Do mau-olhado ao quebranto do corpo e da alma.  Foi assim. Não agravando a todos, tinha gente boa e gente ruim. Meu pai Omolu que tava na frente, me ajudando a colocar reza, proteção e cura nos corações das pessoas. Eu nasci aqui mesmo em Cachoeira, foi em 1917. É… Minha menina, tenho 101 anos, tem gente lá pros lados de Santo Amaro que tem mais. Em São Brás, na verdade. Ela tá viva ainda, acho; Dona Mocinha. Sambadeira das boas. Dois anos mais velha que eu. Converso com ela em reza, sempre.  Somos duas “mulé” de fé. A gente vive bastante tempo nesse recôncavo, sabe? Sabemos cuidar do espírito, menina. Mesmo que o mundo seja duro como um cão. A gente cuida do ori, vive e samba também. Nasci no mocambo antigo aqui no Caquende, não é isso que você que quer saber? Tudo aqui era quilombo, e quilombo sempre é, né mesmo? E fui logo banhada pelo Paraguaçu, naqueles lados onde hoje é a Faceira. Acho que esse banho foi a minha primeira reza, a benção, o axé que mãinha me deu, logo quando cheguei nesse mundo. Eu tive alguns filhos, em sua maioria já morreram. Vivi tempo demais. Atravessei o tempo deles, me entende? Mas ainda tenho dois que restaram, uma mulher e um homem, que já tem idade também. Tive oito no total. Naquele tempo era assim. Me lembro quando comecei a amamentar Toinho, ele não engordava. Toda noite quando ia dar de mamar, uma cobra sugava o meu leite, e, pra Toinho não chorar, a bicha deixava ele mamando a sua calda. É verdade. Tive alguns filhos que se foram assim, de rabo de cobra – mas com meu Toinho, não. Eu descobri. Contei pra todo mundo em Cachoeira, ninguém acreditou, mas rezei e numa noite consegui matar a cobra. Fiquei mais forte na reza. Consegui desfazer nó-de-destino, que é o pior nó que a pessoa pode ter na vida e sambei por esse recôncavo, filha. Ando com fé até hoje. A fé manda embora ”as coisas ruim”.  Você sabe, né? Num faiá.

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

ZANGA, ZANGALALA

Por Davi Nunes

 

basquiat cérebroJean Michel Basquiat

Um dos grandes problemas que nós negros da diáspora tivemos com todos esses séculos de transposição transatlântica, escravidão e racismo é a desconexão sígnica, isto é, a desconexão dos sentimentos africanos com as suas expressões, os signos correspondentes às línguas do continente.

Tivemos que revestir nossas significações, emoções, angústias e sofrimentos mais potentes com a língua, às palavras do colonizador. Ex: Paixão, raiva, amor, desespero, liberdade, ira, felicidade etc. Penso que todas essas palavras são como corpos sem sangue e osso para os negros(as) nessa diáspora de angústia. São sofismas bem articulados. Um desencaixo cognitivo, um vaco ilusório, abstrato, que nos deixa sempre no não lugar. São significantes que não dão conto dos nossos significados.

O nosso axé, forma motriz da humanidade negra, não cabe no idioma português sem perdas. Açoite e violência simbólica, saca? Mas algumas palavras africanas permaneceram não como descritas nos dicionários oficiais da língua portuguesa, mas como força semântica que se retroalimentou e se retroalimenta nos quilombos, nas bocas das noites mais frenéticas nas quebradas polifônicas e contemporâneas. Uma dessas palavras poderosas e que vamos nos ater aqui, é zanga.

Zanga (e se estendendo ao verbo zangar) é uma palavra que, segundo Nei Lopes no Novo Dicionário Banto no Brasil, tem origem banto, provavelmente do Quicongo isanga: lágrimas, singular de kisanga. Ou relativo ao quimbundo zangalala: rebelde. Que se liga a ondzanga: bravura, coragem, combatividade.

Nos dicionários oficiais da língua portuguesa zanga aparece significando aborrecimento, antipatia, mau humor e tantas outras definições que a esvaziou durante toda uma normatização secular de seu significado mais amplo, africano.

Zanga é super poder, é ancestral e por isso contemporâneo, é luz que desponta do cosmo do buraco negro e irradia o terceiro olho do faraó que está adormecido em nós. É o momento áureo da autoconsciência negra, é a negritude como força intempestiva, como ação – zangar – em frente aos monstros com mandíbulas ensanguentadas e pele de fantasmas assassinos, o sistema.

Zanga não é raiva negra. Caralho. A raiva não é um sentimento que alcança a plenitude intempestiva da zanga. Zanga é todo um sistema de luta negra, um gênio ativo que franze o rosto e não pestaneja na hora das guerras.

Desde o rapto transatlântico que estamos zangados, Porra! E toda vez que esmorecemos a zanga, morremos.  E continuamos a morrer, sem se zangar. E essa morte é a pior – a morte sem zanga – é a morte do não ser, do ser opaco que não queima e não age contra toda violência e racismo, a cobra de vidro a estourar seu veneno em nossas cabeças.

Zanga agora é um livro, é um livro de contos que compus. São dezanove contos, dezenove zangas escriturais. Dezenove zangalalas, rebeldias. Dezenove ondzangas, coragem. São banzos, dengos e quizilas também. É o mutuê, a cabeça, e o coração estourado em enredos e personagens que ardem e, sobretudo, zangam.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

Um Malê na Vila

male

foto vila isabel

Davi Nunes

Você sabe, né? O Pantanal tem uma vista bonita, o Rio aos seus pés. As balas são pássaros de fogo que a gente vê no pé do Morro do Macaco. Aqui é a cabeça, o ori. Onde a gente matuta e sonha. E muzungo não sobe de medo. É como a gente se protege, tá sabendo? É feitiço, mas não é o feitiço da vila. Nunca gostei daquela princesa. É feitiço da cabeça do macaco. Tem mosquito que mata brucutu – os canas que vem de madrugada com rosto de demônio. O povo esqueceu o significado de samba, é reza, menino. Não sabia? Semba é reza. Também só fala as línguas dos brancos… Fica burro. Fico aqui de cima todo dia, olhando essa vista, rezando, sambado pra proteger todo morro. Já faz uns 100 anos já… Seu avô era malê.  Veio da Bahia. Matou um barão lá na revolta e veio para cá. Ainda me lembro do seu amuleto, o patuá. Tinha reza escrita em Árabe dentro dele. Acredite. Era a sua proteção. Maior mandingueiro. Boladão. Quando enxerguei aquele homem, fiquei mole, dengosa. Era alto, bonito como uma noite enluarada. Como esse céu cheio de luz que a gente vê agora daqui de cima. O olhar dele era corajoso que só, não tinha naqueles olhos de haussá nenhuma gota de medo. Haussá era sua etnia. Um povo dos lados de lá da Nigéria. Foi o que ele me disse. Hoje, ninguém sabe mais de nada direito. Vive morto-vivo, andando por essa cidade cimentada. Prédio, carro, metrô, vlt, tiro. A porra que pariu todo mundo. Ele subiu o morro. Logo nos arrumamos. Eu nele, ele em mim. Foi o dengo, entende? Nosso barraco, ele rapidinho encheu de samba, os batuques e as rezas que trouxe de lá da Bahia. Se tornou barbeiro na Vila, numa birosca, por alí, onde hoje é a 28 de Setembro e matou um português, cortou sua garganta enquanto fazia a sua barba por ter tocado no seu patuá e lhe olhado feio. Os canas tentaram botar ele no xilindró, derrubou uns três, subiu o morro, entrou na mata e virou urubu, o pássaro mensageiro, entende? Ele voou pra Nigéria. Foi levar o lamento do nosso povo nessa terra. Eu não chorei. Sabia que quem leva o lamento, traz a cura. Já estava grávida e alguns meses depois, vi o urubu voando no horizonte do Morro da Mangueira. Entrei na mata do Pantanal, fui quase saindo do Macaco, senti as contrações e gritei por ele: Licutan! Ele apareceu por traz da sombra do urubu.  Parecia um deus. Me disse: “Essa menina que vem… Não nasce, nos que nascemos dela.” Ele fez o meu parto, pari sua mãe Danda. Voltamos pra nossa casa e ele tinha feito os canas se esquecerem da morte do português. Nossa casa se tornou uma casa de bamba. Samba e feitiço, malandragem e revolta. Fui feliz. Licutan compôs samba pra mim. Virou um sambista influente no morro. Desceu pra pista. Bebeu e tocou com um flautista importante no baile dos brancos pra tirar um bambar pra gente. Depois descobri que foi com Pixinguinha, fiz até uma feijoada pra ele aqui em casa. Pixinga era elegante, educado e sempre elogiava a minha comida e minha voz quando eu cantava. Os dois se tornaram parceiros de verdade. E, num certo dia, Licutan apareceu dizendo que ia viajar, sumiu por quase um ano, o filho da puta, apareceu falando que tinha ido na França com Pixinguinha e os batutas tudo tocar pros gringos e que bebeu e tocou junto com os músicos americanos do jazz lá. Ele me disse que esse contato mexeu muito com Pixinga, tanto que ele resolveu colocar o saxofone no choro. Peguei os bagulhos que ele trouxe da porra da França e taquei tudo na cara dele. Tava de sacanagem comigo. Sumiu quase um ano. Fiquei zangada. Depois fizemos amor e peguei o dinheiro que ele trouxe pra melhorar nossa casa. E no dia que ele desapareceu de vez, fiquei desesperada. Senti que nunca mais ia vê-lo. Licutan tinha comprado um saxofone pra presentear Pixinga. Falou que Alá tinha lhe dado essa missão. Voltou à noite pra Vila Isabel. Bebendo aqui e acolá. Os canas enquadraram ele. Um, disse que o saxofone era roubado. Mas não sei… Talvez tivessem se lembrado do caso do português. Um outro, tocou no seu patuá, quase arrancado. Licutan derrubou um e furou o outro com navalha, subiu o morro e vários canas vieram no encalço dele.  Escondeu o saxofone no nosso quintal. Beijou Danda e me disse pra entregar o instrumento a Pixinga, me deu o patuá malê e me falou que os ancestrais tavam esperando ele na floresta. Os canas atiraram muito, mas só viram seu vulto entrando na mata e eu hoje fico olhando esse horizonte todo daqui de cima do Pantanal e sempre aparece um urubu rei planando no céu e a cidade toda aos seus pés, a cidade toda aos nossos pés, filho.

 

Davi Nunes é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

a morte de um malê

 

Por Davi Nunes

malê

uma gota de suor escorre do rosto assassino

estrala como uma bola de canhão em minha testa

ressoa maldições por todo o meu corpo preso no cadafalso

vou morrer intacto com  minha fé – malê

 

nenhum homem com pele de fantasma envidraçada

irá me fazer ajoelhar,

pedindo piedade diante de um deus que quer me fazer escravo

vou morrer honrrando minha fé – malê

 

o vulto quente da navalha já mede o ponto certo da minha morte

o pescoço

e sinto, num átimo, o cio de todos os meus amores

marcas de eternidade na memória

 

na praça, há homens e mulheres pálidos

estourando nas faces veias de escamas de peixes – suplicantes pela execução

 

o executor já suste a navalha afiada sobre a cabeça

para o golpear derradeiro:

franze o rosto

deflagra o golpe

vejo, aí, (antes do fim)

seu reluzir dilacerante

descer em direção ao meu pescoço

fecho os olhos

fiel à minha fé, malê!