BAIRRO SUSSUARANA E OS SUSSUS ANCESTRAIS

sussuarana

Por: Davi Nunes

É difícil seguir o rastro da história depois que a mata foi devastada. Quando a suçuarana já fora extinta no ambiente e tudo virou esgoto e pista. Não é fácil. Mas abstrair o passado e o reconstruir é reviver signos latentes no peito, na conversa com os mais velhos, nos terreiros – templos sempre iluminadores – na transcendência dos tambores, no movimentar periférico afro dos jovens, e colocá-los na vitrine resplandecente do mundo, a escrita. Pelo menos é assim que se explicita na contemporaneidade.  Por isso, o esforço, neste breve ensaio, em colocar ao sol escritural a história do bairro Sussuarana, localizado no centro da península soteropolitana, em Salvador-Ba.

A palavra Sussuarana tem o radical sussu e de acordo com os estudos da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro em seu livro Falares Africanos na Bahia (2001) súsu, topônimo da língua Quimbundo, quer dizer algo “que atemoriza”. O temor está relacionado com a existência das onças suçuaranas que até a década de 70 do século XX, devido à densa mata existente, podia se encontrar na região.

A professora e pesquisadora Janice de Sena Nicolin no seu livro Ecos que entoam: uma mata africano-brasileira demonstra que Nina Rodrigues (1990) refere-se ao povo sussus, lembrados por africanos escravizados numa entrevista que ele fez. Apreensão da experiência afro para estigmatizá-la. O bom disso (se é que se tem algo bom) que ficou o registro. Necessário. Ademais, no livro publicado pela UNESCO em 1980, História da África, Vol. IV encontra-se a referência sobre os povos Sussus: povos isolados que viviam na Serra Leoa, onde ficavam os Mandingas, a língua usada por eles era o mande, a mesma dos Mandingas. Assim percebe-se que a nomeação do bairro, como a fundação de uma vivência livre se deu com os aquilombados, que, no Quilombo do Cabula, no século XIX, lutaram e resistiram à escravidão.

A destruição da mata atlântica ocasionado pelo processo de urbanização e de inchaço demográfico desde fins da década de 60 no Cabula e que, especificamente, ocorreu na Sussuarana em 80, fez com que as onças fossem extintas no ambiente.

A grande Sussuarana abrange uma área composta por Nova Sussuarana, Novo Horizonte e Sussuarana, além de vários loteamentos e conjuntos habitacionais. Um estabelecimento importante muito próximo do bairro é o Centro Administrativo da Bahia, local onde se organizar os desmandos, se engendra agora as opressões que são seculares do Estado baiano.

A Sussuarana como um dos bairros do que era o antigo Quilombo do Cabula, destruído em 1807, hoje é uma conjunção arquitetônica de casas erigidas de blocos nus, de ruas, avenidas, além de todo um complexo demográfico que compõe um grande bairro periférico de Salvador. No entanto, o periférico é vista aqui como um centro, lócus de explosão de humanidades, lastro comunitário secular que compõe a região e constrói histórias: haja vista o Sarau da onça, voz poética imposta para expressar os anseios diante da desesperança, as revoltas frente ao genocídio impetrado, a sensibilidade estética diante da dor dos jovens negros que já são mais do que Sussuarana, são sussus.

A sussuarana como os outros bairros que formam o Cabula são épicos, confluem em si a história de luta secular da negritude baiana, resiste as intempéries institucionais, ao racismo que oblitera e cheira a morte, tem no modelo civilizatório periférico, o germe revolucionário do quilombo, o poder para a grande virada, para a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Bairro Mata Escura: gueto urbano – resistência quilombola

mata escura

Por: Davi Nunes

As histórias tiradas do profundo da mata, no curvar estratégico do rastro de mocambo, para deixar a força policial da província do Salvador, no século XIX, desnorteada no Quilombo do Cabula, são transpostas, neste breve ensaio, para tecer conhecimentos a cerca do bairro Mata Escura, localizado no miolo da Cidade do Salvador-Ba.

As marcas linguísticas, ou a influência das línguas africanas, sempre foram presentes para demarcação e nomeação de territórios na região do quilombo, haja vista Cabula, palavra de origem banto, além de Beiru, ou Gbeiru, ioruba, e Engomadeira – união do topônimo de origem africano-banto da língua Kimbundo Engoma com o sufixo português Eira. Da mesma forma existe a palavra ioruba Igbedú que quer dizer em português Mata Escura. Todas essas palavras demonstram claramente a existência de modelos civilizatórios africanos no Cabula, sendo o bairro Mata Escura um dos construtos quilombolas importantes da região.

A Mata Escura fora um dos locais mais seguros para o aquilombamento no passado, devido à profundidade da floresta atlântica, e após o “final” da escravidão, surgiu, aproximadamente em 1900, uma instituição religiosa demais importante: o terreiro de candomblé Inzo Manzo Bandukenké, atual terreiro Bate Folha, de nação angola, tombado pelo IPHAN, em 2003, como patrimônio da cultura Afro-brasileira.

bate folha

Outro aspecto relevante da história do bairro fora a construção em 1930, para o abastecimento de água da cidade, de duas represas – Prata e Mata Escura – no Rio Camurujipe, que era o maior de Salvador. Ele cortava, de lado a lado, o bairro e hoje é um deposito de detritos humanos, esgoto soterrado sob asfalto e pista. As represas foram projetadas pelo engenheiro Teodoro Sampaio e até 1987 abastecia boa parte da Cidade do Salvador.

Outra obra erguida em 1950 no bairro, complexo de grilhões, no lugar onde no passado os quilombolas tinham plantado axé, construído espaço de liberdade, é a penitenciária lemos de Brito, maior presídio do Estado, depositário de homens e mulheres, em sua grande maioria, negros e negras, “vigiados e punidos” devido às arregimentações dos tribunais e leis brancas.  

A estruturação atual do bairro teve início na década de 80 com obras de urbanização: foi quando construíram vários conjuntos habitacionais, porém devastaram muito da reserva atlântica local, além das estruturações espontâneas dos bairros e intra-bairros e do inchaço demográfica, devido à chegada de muitos trabalhadores do interior. Eles vinham trabalhar nas obras edificadoras do Cabula e da Salvador contemporâneo, de modo que assim ajudaram também a construírem a modelação periférica do bairro.

A periferia aqui é entendida em sua multidimensionalidade, lócus de manifestações humanas diversas e densas: arquitetar de casas de blocos nus, de guetos que entrecruzam vozes, constitui solidariedades na dinâmica da sobrevivência comunitária, no atentar do sangue escorrido, genocídio, do rap posto, papo reto, do grafite no muro, abrindo horizontes, da quebradeira do pagode, ritmado, do tambor tradicional que nos corações livres ainda soam Igbedú, a reconstruir os rastros estratégicos do mocambo consolador, a restituir a grandiosidade original do bairro Mata Escura.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

 

 

 

.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Narandiba em negrito: da natureza abundante à modelação periférica do bairro

narandiba foto

 

Por: Davi Nunes

 

Estórias sempre deveriam ser grafadas numa estética escritural em negrito. Essa fonte tem o ensolarado civilizatório, queima a palidez fantasmagórica e clássica do papel em branco, explicita, cria outras civilizações, finca territórios: quilombos, tribos, guetos, favelas, transpassam culturas e costumes no boca a boca atemporal da oralidade. Uma episteme, assim, surge vivaz, “barulhenta” ressoante como som de tambor, a tecer e construir, neste breve ensaio, conhecimentos sobre o bairro Narandiba, localizado no Cabula, centro geográfico da Cidade do Salvador-Ba.

            Narandiba é uma palavra de origem tupi-guarani: [narã(laranja) + diba ( lugar)], ou seja, significa literalmente “lugar com muita laranja”. O Cabula, até a metade do século passado, se caracterizava como local que possuía muitas fazendas de laranjas, responsáveis por abastecer, com este produto, grande parte da Cidade do Salvador. Dessa herança cítrica e agrária está à origem do nome do subdistrito. Com a modelação moderna do bairro: a construção da Avenida Edgar Santos, do Hospital Geral Roberto Santos, do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, entre outras obras, que incentivaram a vinda de um grande contingente populacional do interior do Estado – foram-se as laranjas, ficou-se o belo nome indígena.  

 cabeção       Monumento a Edgar Santos 

Narandiba é toda delimitada por marcos institucionais: o monumento ao médico e primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia-UFBA, Edgar Santos (1884-1962) conhecido por todos os moradores do bairro como “cabeção”, localizado na encruzilhada entre Cabula, Narandiba e Saboeiro, onde as oferendas a Exu, orixá da comunicação, da fertilidade, são ofertadas para abrir o canal de comunicação e pedir a bênção a todos os ancestrais, que na escravatura, foram quilombos do Cabula. Outra instituição importante é o hospital, que leva a nomeação do médico, professor e político, Roberto Santos, hospital que trata das enfermidades dos soteropolitanos, como dos baianos de diferentes municípios; além disso, outro estabelecimento tradicional no bairro é o hospital psiquiátrico que leva o nome do primeiro professor universitário negro no Brasil, um brilhante intelectual, percursor da psiquiatria brasileira, Juliano Moreira (1873-1932).

Juliano_Moreira           Juliano Moreira

A ocupação do território do bairro, com a densidade demográfica que se encontra na atualidade, começou há pouco tempo, na década de 90, se comparado com outros subdistritos do Cabula. Nesta época, o morro que fica embaixo do Hospital Geral Roberto Santos foi sendo ocupado, como as margens direita e esquerda da Avenida Edgar Santos, constituindo, não sem a opressão do Estado, os intra-bairros, denominados pejorativamente de “invasões”, que foram formando guetos, os quais possuem uma dinâmica permeada de trocas solidárias, traços reminiscentes de quilombo; a construir costumes, hábitos e culturas, formando outro modelo civilizatório menos empalidecido, mais negrito.  

Segundo estórias contadas pelos moradores mais antigos do bairro, ao remontar as memórias de Narandiba anterior à constituição contemporânea e urbana: a região tinha belos rios, fontes de água, cachoeira, além da abundancia de frutas, de pescados e de caças. Há relatos também que no local onde hoje é uma praça, a “Rótula do Juliano”, lugar de recreação, shows de pagode, de hip-hop, jogos de futsal e basquete; um espaço de entretenimento coletivo dos moradores da comunidade, mas que em épocas remotas foi um rio, o qual o povo saía do Beiru, e de outros locais do Cabula, para se banhar nele. Boa parte do território nessa região era revestido de água doce e com a modernização periférica do bairro tudo foi virando asfalto, pista, esgoto.

            Outro aspecto de Narandiba é o forte comércio de bens e serviços (formais e informais), eles dinamizam o cotidiano da comunidade. Mercadinhos, mini-shoppings, padarias, pequenas empresas, além da multinacional brasileira, a Odebrecht, que se encontra instalada no subdistrito. A mata atlântica foi quase completamente destruída, a natureza já não oferta os frutos, que até o início da década de 90, se conseguia com facilidade. Tudo agora se possui e se consome pelo intermédio do “Deus visível”, o dinheiro.

No interior dos intra-bairros se encontra ainda, em Narandiba, resquícios da constituição antiga do bairro. Na mata restante se sente o cheiro de quilombo; nas casas de laje, telhas e blocos vermelhos, todos olham ainda a vida um dos outros; compartilham os medos, as estórias, as violências cotidianas; resistem, com coragem, às intemperes da vida; constroem costumes, hábitos e culturas, um modo civilizatório em cor negrita.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

Gringo de Periferia: pequena crônica sobre o bairro Beiru

ilustração: Maicon NascimentoApresentação1

Por: Davi Nunes

– O Beiru dá e deixa, né cumpade? Onti um desses minino de faculdade, que chega na favela e todo mundo, só de vê de longe, já sabe que nun é daqui,  igual a gringo no Pelô,  me perguntou sobre o finado Rufino. –

Falou isto Manoel Guerreiro ao seu compadre Zezeu, espremendo, com a sua máquina antiga, até o bagaço, para preencher o copo do freguês com caldo de cana de açúcar. Zezeu, no momento da pergunta, olhava a rua direta do bairro Beiru e via muita gente que subia e descia do Arenoso, que já fora um dos locais mais bonitos do Cabula, com rios e barros de diferentes cores, formando uma inebriante paisagem.

– Perguntou mermo, foi cumpade Mané?

– Perguntou, Zezeu.

– Vixe!

– Me perguntou como era o pai Rufino… Lhe disse que era preto com cabelo de índio tupinambá. Aí, depois continuei o meu serviço. Ele fez uma cara de muzungu medroso, como se fosse lhe acontecê uma coisa de ruím a couqué momento, anotou no seu caderninho e tomou corage pra fazê outra pergunta.

“Em que lugar era o terreiro de Rufino e o de Miguel Arcanjo, o senhor sabe?“

– Não tenho costume de respondê muita coisa pra essa gente de fora, cumpade Zezeu. Ainda mais, depois que uma das fía do finado Rufino, me disse que… Eles bota na internet as coisa diferente do que a gente fala… Que eles pega a nossa história e veste a roupa da história deles.

– É verdade, cumpade Mané. Isso acontece mermo.

– Mas, escute Zezeu, nesse dia eu tava de boa, ia abrí uma brechinha. Sei que, muita vez, a história dita é melhor do que história não dita. Fui vê que roupa ia sê vestida, né.

– Você que sabe, Mané. Espero que tenha sido a bermuda com o peito aberto, que é o que a gente veste, né mermo? Agora se fô aquelas roupa de pinguim, dos homi, das novela… Saia fora, que é esparro. – Riram os dois.

– Tou sabeno cumpade, mas resolvi contá coisa pequena pra o gringo de periferia. Primeiro, apontei com o dedo a igreja Universal, que fica perto do ponto, onde vendo o meu caldo de cana no Parquinho, que é como a Praça Campo Grande do Beiru: você é daqui, você sabe. Junta um bocado de gente.  Aí lhe disse que esta igreja foi construída no lugar, que antigamente era o terreiro de Rufino do Beiru, babalorixá poderoso, conhecido por todo povo de santo da Bahia. A terra dele, né mermo? Ia até o campo Seco, já perto do cabula VI. Aí, lhe virei pelo contrário e apontei a delegacia.

“Tá vendo ali?”

“Estou.“

– ele respondeu, Zezeu, e eu continuei falando. –

“Ali, minino, era a fazenda Beiru, que o pai Miguel Arcanjo comprou, no tempo de antigamente, dos Hélios Silva Garcia, fundando a nação de Amburaxó. Toda essa história, escute! Dos antepassado, parece que foi enterrada pela força da igreja e da justiça, né não?”

“Parece.”

– Nessa hora, cumpade Zezeu, uns menino, uns êre que ainda não tinha estourado todas as bomba de São João, explodiu uma dessas perto do estudante, que se preparava pra fazê outra pergunta, mas, com o estrondo, ficou todo esquisito.

“O que é isso? É tiro, moço? É tiro!”

– A bomba, Zezeu, fez o estudante ficar todo borrado. Verdade. Acho que ele imaginou um monte de homi, com armas em punho, vindo, atirando em sua direção. Um, na esquina. Outro, no bar. No beco, no mercado, de couqué lugar poderia ví o tiro da sua morte naquele momento. O cara ficou louco. Ainda falei pra se acalmá que era só bomba, mas ele respondeu todo acabrunhado:

“Não; vou-me embora.”

– Ele, Zezeu, atravessou a pista, entrou no carro e desapareceu, esquecendo o caderno de anotações.

– Foi mesmo, Manoel? –

– Eh, cumpade Zezeu, pela primeira vez, o que disse de memória, ficou o escrito em minha mão. Acho que a roupa de pinguim ficou pra quem usa bermuda e peito aberto, né mermo? – Riram.

– É verdade, cumpade Manoel, é verdade.

– Agora… vei até um mote de um samba duro na minha cabeça, Zezeu. Vou anotá aqui no caderno do estudante mermo.

– Anota, cumpade. Anota.

– Pra cantá mais tarde com as sambadeira no terreiro.

Depois disso, Manoel preto juntou seu maquinário de trabalho e foi para casa, com Zezeu que morava perto, cantando pelas ruas o seu novo samba.

Muzungo medroso no Beiru

Muzungo medroso no Beiru

Corre ao primeiro zunzunzum

Corre ao primeiro zunzunzum.

– Eh, cumpade Zezeu, acho que tá tudo certo. O samba tá sendo feito, as menina já passa nos afazeres da festa. Agora, o gringo de periferia… Que muzungo medroso! –

Riram os dois, mas antes de entrarem em casa, Manoel Preto ainda falou uma última frase, sem parar de rir, a compadre Zezeu.

– O Beiru dá e deixa mermo, né cumpade! –.

Davi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

ENGOMADEIRA: UMA HISTÓRIA DE ENGOMA

mapa engomadeira

Por: Davi Nunes

ALGUMAS estórias ESTÃO SEMPRE MINUSCULARIZADAS PELA CATARATA ORTOGRÁFICA DO DESCONHECIMENTO. TÊM ALGUNS ASSUNTOS QUE SÓ GANHAM RELEVO EPISTEMOLÓGICO EM CAIXA ALTA. NÃO DIGO ISSO PARA GANHAR A ATENÇÃO DO LEITOR PÓS-MODERNO, ATRAVÉS DE UMA ORGANIZAÇÃO ESCRITURAL INUSITADA, NO INTUITO DE TIRAR UM PEQUENO RETRATO, UMA FOTO 3 por 4 DA HISTÓRIA DO BAIRRO ENGOMADEIRA. EXPONHO PORQUE SEI QUE DEPOIS DE OPERADA A VISÃO (PERDIDA EM TREVAS) VISLUMBRA-SE UM MUNDO TODO EM CAIXA ALTA.

ENGOMA DE ACORDO COM OS ESTUDOS DA ETNOLINGUÍSTA YEDA PESSOA DE CASTRO, EM SEU LIVRO FALARES AFRICANOS NA BAHIA (2001), É UMA PALAVRA DE ORIGEM AFRICANO-BANTO DA LÍNGUA KIMBUNDO E KIKONGO, CUJA RAIZ É NGOMA E DAÍ SURGE NGOMADELE. ALÉM DISSO, DEVIDO AO PROCESSO DE CONTATO LINGUÍSTICO OCORRIDO NO BRASIL, O TOPÔNIMO ENGOMA JUNTOU-SE COM O SUFIXO PORTUGUÊS EIRA, FORMANDO A PALAVRA QUE NOMEIA HOJE UM GRANDIOSO CONGLOMERADO ARQUITETÔNICO DE CASAS, SUSTENTADAS POR VIGAS E BLOCOS NUS, FORMANDO AVENIDAS, RUAS E VIELAS, CONSTITUIDORAS DA ENGOMADEIRA.

A ENGOMADEIRA SE LOCALIZA NA REGIÃO CONSIDERADA “O MIOLO DE SALVADOR”, O CABULA. ALÉM DISSO, FAZ FRONTEIRA, EM SUA PARTE BAIXA, (CONHECIDA HISTORICAMENTE COMO ENGOMADEIRA PEQUENA) COM O CENTRO GEOGRÁFICO DO CABULA – O BEIRU; E EM SUA PARTE ALTA, DENOMINADA ENGOMADEIRA GRANDE, COM TODA A EXTENSÃO QUE MARGEA O FUNDO DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEB.

AS FRONTEIRAS DEMARCADAS ENTRE ENGOMADEIRA E BEIRU ERAM DETERMINADAS POR UM RIO QUE DIVIDIA OS DOIS BAIRROS, E SERVIA PARA AS MULHERES ENGOMADEIRAS, CANTANDO AS CANTIGAS QUE EMBALAVAM O TRABALHO E FORMAVAM A CULTURA DOS SAMBADORES ANTIGOS DO BAIRRO, LAVAREM E ENGOMAREM AS ROUPAS DOS CORONÉIS DO EXÉRCITO (PROPRIETÁRIOS DE FAZENDAS E DE CHÁCARAS NA REGIÃO ATÉ MAIS DA METADE DO SÉCULO PASSADO), MAS QUE ANTES, NO SÉCULO XIX, TINHA SIDO LOCUS DE RESISTÊNCIA QUILOMBOLA AO SISTEMA ESCRAVOCRATA BRASILEIRO.

O RIO DAS ENGOMADEIRAS SE TRANSFIGUROU EM UM CONTÍNUO DE DETRITOS HUMANOS, ELE PASSA ATÉ HOJE PELAS JANELAS DOS MORADORES DA ENGOMADEIRA PEQUENA. A CONSTRUÇÃO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS, EM 1965 A 1966, FOI O MARCO INICIAL DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DO CABULA, ATRAINDO UM CONTIGENTE POPULACIONAL DO INTERIOR DA BAHIA (QUE FOI MORAR EM HABITAÇÕES ESPONTÂNEAS, CASAS DE PAU-A-PIQUE E EM OUTRAS, QUE JÁ TINHA O ENCADEAR SISTEMÁTICO DOS BLOCOS) PARA TRABALHAR NAS DIVERSAS OBRAS, MODELADORAS DO CABULA E DA ENGOMADEIRA EM SUA VITALIDADE MODERNA. TODO ESSE PROCESSO OCASIONOU A DESTRUIÇÃO DE GRANDE PARTE DA MATA-ATLÂNTICA E NA MORTE DOS RIOS.

UTILIZA-SE A TERMINOLOGIA MODERNA AQUI, AGREGANDO OS VALORES CONSTRATANTES QUE LHE DÃO SIGNIFICAÇÃO. NO CABULA TÊM-SE LOCAIS E HABITAÇÕES QUE SE APROXIMAM DOS ÍNDICES DE VIDAS EUROPEIAS, COMO TEM OUTROS, A EXEMPLO DOS INTRA-BAIRROS DA ENGOMADEIRA, AS BAIXADAS E AS “BOCADAS”, QUE APRESENTAM, AO MÍNINO VOLTAR DE OLHAR, AO HORIZONTE DE ALGUM BECO DO BAIRRO, CONDIÇÕES DE MISERABILIDADE SEMELHANTES AOS DOS PAÍSES MAIS POBRES DO MUNDO.

A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO TRANSPOSTO NESTE BREVE ENSAIO ADVÉM DE UMA REDE DE TESTEMUNHOS ORAIS, PASSADOS DO MAIS VELHO AO MAIS NOVO, DA BOCA PARA O OUVIDO, E QUE AGORA GANHA STATUS DE ESCRITA PELAS MÃOS QUE BUSCAM ESCREVER COMO SE ENGOMASSEM O TECIDO TÊNUE DE UM POVO FEITO DE NGOMA, FEITO DE TAMBOR.

A OPERAÇÃO REALIZADA, AQUI, REVESTE O CRISTALINO DA HISTÓRIA NGOMA COM AS IMAGENS EM SEUS ASPECTOS ANCESTRAIS: QUILOMBO, SAMBA, MULHERES ENGOMADEIRAS, CASA DE TAIPA, MANDINGA, RIOS, TILÁPIAS, AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA E TAMBÉM COM AS SUAS FEIÇÕES MODERNAS: ENTRECRUZAR VELOZ DE CARROS, MOTOS E TRASEUNTES; O MULTIPLICAR DE “BECOS-ZIGUE-ZAGUES”, O COMÉRCIO DE BENS E SERVIÇOS, A POLIFONIA RITMICA DO PAGODE, O RAP, O GRAFITE; TODO UM ESTRUTURAR MULTIDIMENSIONAL PERIFÉRICO QUE SÓ PODE SER VISLUMBRADO, EM SUA GRANDIOSIDADE CULTURAL E HUMANA,  COM O ABRIR DOS OLHOS, PERDIDOS NA CATARATA ORTOGRÁFICA DO DESCONHECIMENTO, EM CAIXA-ALTA.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

Cabula: resistência quilombola – uma ascendência Cabulosa

valedoriocamurugipe-baixadocabula

Por: Davi Nunes

uma minúscula estética gráfica, dessas que se revelam mais no implícito, como um quilombola da mata Cabula, no século XIX, observando, em tocaia de mato escuro, os soldados imperiais, os milicianos de Pirajá; ou como um negro nos intra-bairros (becos e vielas) das periferias contemporâneas – em esconderijo perscrutador de arma de polícia – se desvela neste breve ensaio para explicitar elementos da história do centro geográfico da cidade do Salvador-Ba – o Cabula.

o topônimo Cabula /kimbula/ segundo estudos da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro  em seu livro Falares africanos na Bahia (2001) é uma palavra de origem banto da Língua Quicongo. A palavra está ligada ao sentido simbólico litúrgico da comunidade africana congo-angola e quer dizer “Lugar de afastamento dos males”. Os bantos, povos africanos mais antigos a chegarem ao território brasileiro, século XVI, principalmente do Congo e Angola, tentando se afastarem dos males da escravidão, fundaram e nomearam o Quilombo do Cabula. a Cabula designa também um ritual: era um toque, ritmo que os quilombolas faziam para irem à guerra – uma espécie de chamamento para a luta. os mais velhos da região diziam que os toques da Cabula iam das matas do quilombo e eram ouvidos no centro histórico e comercias da Cidade do Salvador, onde se agregavam muitas hordas de escravizados de ganho e os engenhos da cidade – os espíritos do congo aperreavam a cabeça dos escravocratas através dos tambores da Cabula.

o Quilombo do Cabula foi destruído em 1807, quando João Saldanha da Gama, Conde de Ponte, que era então governador e capitão general da capitania da Bahia, mandou o Capitão-Mor das Entradas e Assaltos do Termo da Cidade do Salvador, Severino da Silva Lessa, invadir o quilombo: ele tinha se tornado um lócus de resistência ao sistema escravocrata na cidade, destruindo as casas do arraial que o formava, e aprisionando setenta e oito aquilombados entre escravizados e forros.

o quilombo é o espaço de reminiscência ancestral, de lembranças da liberdade; foi o primeiro local onde o escravizado no Brasil pode se reconhecer livre. Por isso, um ponto crucial para a construção de uma identidade contemporânea positiva. uma espécie de “quilombo-ascendência”, que modernamente modela ainda hábitos e costumes, reconstruindo nos guetos e nas favelas ações de resistência cultural, religiosa e histórica e, notadamente, no Cabula, nos bairros localizados no antigo Quilombo: Cabula, Engomadeira, Beiru, São Gonçalo, Saboeiro, Mata Escura, Jardim Santo Inácio, Arraial do Retiro, Sussuarana, Pernambués, Narandiba, Doron, Resgate, Estrada das Barreiras e Arenoso, se manifesta ainda na preservação de uma memória coletiva ancestral. esta memória coletiva tem como principal templo preservador os terreiros de candomblé espalhados pela região. a quilombo-ascendência, nesse sentido, seria uma concepção de ancestralidade a qual busca a construção de uma identidade afro-brasileira que não se esgote no arquétipo mítico da África ancestral; mas se construa também a partir do espaço concreto da liberdade para os crioulos, negros brasileiros nascido aqui, quanto para os que vieram com o tráfico negreiro – que é o quilombo.

Desde a década de 70 e, atualmente, com maior densidade, os empreendimentos imobiliários no espaço vêm destruindo a mata atlântica do bairro para verticalizar a classe média soteropolitana em seus cúbicos modernos, espreitando a existência no individualismo de apartamento, de caixa de fósforo, construindo shoppings, destruindo o que, de terra e verde, ligava o bairro ao passado ancestral. o que se destrói de natureza, se extingue também de história oral: cada animal morto é uma anedota perdida; cada planta medicinal extinta, menos uma receita de cura passada do mais velho ao mais jovem; cada passarinho morto, menos uma aventura na infância; cada rio poluído, menos enredo para a estória de pescador. são as implicações da contemporaneidade, mas os signos que eram quilombolas vão, de certa forma, resistindo ainda à dinâmica veloz da urbanidade, mantendo um modelo civilizatório nas periferias (contínuo de vivências quilombolas) costuradas durante todo esse tempo até chegarem à atualidade.

o Cabula se encontra no espaço não oficial da história da Cidade do Salvador; é um quilombo de estórias, apesar de existirem alguns documentos escriturais como a carta que o Conde de Ponte remeteu ao ministro da Marinha e Ultramar, em 7 de abril de 1807, falando da destruição do Quilombo do Cabula e algumas pesquisas, valendo-se aqui ressaltar o brilhante livro Ecos que entoam uma mata africano-brasileira da professora e pesquisadora Janice de Sena Nicolin, publicado pela EDUFBA (2014) tem-se muito ainda a se pesquisar sobre a história da região.  no entanto, muito se restitui através do testemunho oral, passado de terreiro a terreiro, do mais velho ao mais novo, transpassando tradições e costumes de séculos, preservando e fortalecendo a ascendência quilombola dos moradores da região, e que, agora, se explicita em minúscula estética gráfica no corpo deste breve ensaio cabuloso.

Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.