Cabula: resistência quilombola – uma ascendência Cabulosa

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Por: Davi Nunes

uma minúscula estética gráfica, dessas que se revelam mais no implícito, como um quilombola da mata Cabula, no século XIX, observando, em tocaia de mato escuro, os soldados imperiais, os milicianos de Pirajá; ou como um negro nos intra-bairros (becos e vielas) das periferias contemporâneas – em esconderijo perscrutador de arma de polícia – se desvela neste breve ensaio para explicitar elementos da história do centro geográfico da cidade do Salvador-Ba – o Cabula.

o topônimo Cabula /kimbula/ segundo estudos da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro  em seu livro Falares africanos na Bahia (2001) é uma palavra de origem banto da Língua Quicongo. A palavra está ligada ao sentido simbólico litúrgico da comunidade africana congo-angola e quer dizer “Lugar de afastamento dos males”. Os bantos, povos africanos mais antigos a chegarem ao território brasileiro, século XVI, principalmente do Congo e Angola, tentando se afastarem dos males da escravidão, fundaram e nomearam o Quilombo do Cabula. a Cabula designa também um ritual: era um toque, ritmo que os quilombolas faziam para irem à guerra – uma espécie de chamamento para a luta. os mais velhos da região diziam que os toques da Cabula iam das matas do quilombo e eram ouvidos no centro histórico e comercias da Cidade do Salvador, onde se agregavam muitas hordas de escravizados de ganho e os engenhos da cidade – os espíritos do congo aperreavam a cabeça dos escravocratas através dos tambores da Cabula.

o Quilombo do Cabula foi destruído em 1807, quando João Saldanha da Gama, Conde de Ponte, que era então governador e capitão general da capitania da Bahia, mandou o Capitão-Mor das Entradas e Assaltos do Termo da Cidade do Salvador, Severino da Silva Lessa, invadir o quilombo: ele tinha se tornado um lócus de resistência ao sistema escravocrata na cidade, destruindo as casas do arraial que o formava, e aprisionando setenta e oito aquilombados entre escravizados e forros.

o quilombo é o espaço de reminiscência ancestral, de lembranças da liberdade; foi o primeiro local onde o escravizado no Brasil pode se reconhecer livre. Por isso, um ponto crucial para a construção de uma identidade contemporânea positiva. uma espécie de “quilombo-ascendência”, que modernamente modela ainda hábitos e costumes, reconstruindo nos guetos e nas favelas ações de resistência cultural, religiosa e histórica e, notadamente, no Cabula, nos bairros localizados no antigo Quilombo: Cabula, Engomadeira, Beiru, São Gonçalo, Saboeiro, Mata Escura, Jardim Santo Inácio, Arraial do Retiro, Sussuarana, Pernambués, Narandiba, Doron, Resgate, Estrada das Barreiras e Arenoso, se manifesta ainda na preservação de uma memória coletiva ancestral. esta memória coletiva tem como principal templo preservador os terreiros de candomblé espalhados pela região. a quilombo-ascendência, nesse sentido, seria uma concepção de ancestralidade a qual busca a construção de uma identidade afro-brasileira que não se esgote no arquétipo mítico da África ancestral; mas se construa também a partir do espaço concreto da liberdade para os crioulos, negros brasileiros nascido aqui, quanto para os que vieram com o tráfico negreiro – que é o quilombo.

Desde a década de 70 e, atualmente, com maior densidade, os empreendimentos imobiliários no espaço vêm destruindo a mata atlântica do bairro para verticalizar a classe média soteropolitana em seus cúbicos modernos, espreitando a existência no individualismo de apartamento, de caixa de fósforo, construindo shoppings, destruindo o que, de terra e verde, ligava o bairro ao passado ancestral. o que se destrói de natureza, se extingue também de história oral: cada animal morto é uma anedota perdida; cada planta medicinal extinta, menos uma receita de cura passada do mais velho ao mais jovem; cada passarinho morto, menos uma aventura na infância; cada rio poluído, menos enredo para a estória de pescador. são as implicações da contemporaneidade, mas os signos que eram quilombolas vão, de certa forma, resistindo ainda à dinâmica veloz da urbanidade, mantendo um modelo civilizatório nas periferias (contínuo de vivências quilombolas) costuradas durante todo esse tempo até chegarem à atualidade.

o Cabula se encontra no espaço não oficial da história da Cidade do Salvador; é um quilombo de estórias, apesar de existirem alguns documentos escriturais como a carta que o Conde de Ponte remeteu ao ministro da Marinha e Ultramar, em 7 de abril de 1807, falando da destruição do Quilombo do Cabula e algumas pesquisas, valendo-se aqui ressaltar o brilhante livro Ecos que entoam uma mata africano-brasileira da professora e pesquisadora Janice de Sena Nicolin, publicado pela EDUFBA (2014) tem-se muito ainda a se pesquisar sobre a história da região.  no entanto, muito se restitui através do testemunho oral, passado de terreiro a terreiro, do mais velho ao mais novo, transpassando tradições e costumes de séculos, preservando e fortalecendo a ascendência quilombola dos moradores da região, e que, agora, se explicita em minúscula estética gráfica no corpo deste breve ensaio cabuloso.

Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.

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Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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