ENGOMADEIRA: UMA HISTÓRIA DE ENGOMA

mapa engomadeira

Por: Davi Nunes

ALGUMAS estórias ESTÃO SEMPRE MINUSCULARIZADAS PELA CATARATA ORTOGRÁFICA DO DESCONHECIMENTO. TÊM ALGUNS ASSUNTOS QUE SÓ GANHAM RELEVO EPISTEMOLÓGICO EM CAIXA ALTA. NÃO DIGO ISSO PARA GANHAR A ATENÇÃO DO LEITOR PÓS-MODERNO, ATRAVÉS DE UMA ORGANIZAÇÃO ESCRITURAL INUSITADA, NO INTUITO DE TIRAR UM PEQUENO RETRATO, UMA FOTO 3 por 4 DA HISTÓRIA DO BAIRRO ENGOMADEIRA. EXPONHO PORQUE SEI QUE DEPOIS DE OPERADA A VISÃO (PERDIDA EM TREVAS) VISLUMBRA-SE UM MUNDO TODO EM CAIXA ALTA.

ENGOMA DE ACORDO COM OS ESTUDOS DA ETNOLINGUÍSTA YEDA PESSOA DE CASTRO, EM SEU LIVRO FALARES AFRICANOS NA BAHIA (2001), É UMA PALAVRA DE ORIGEM AFRICANO-BANTO DA LÍNGUA KIMBUNDO E KIKONGO, CUJA RAIZ É NGOMA E DAÍ SURGE NGOMADELE. ALÉM DISSO, DEVIDO AO PROCESSO DE CONTATO LINGUÍSTICO OCORRIDO NO BRASIL, O TOPÔNIMO ENGOMA JUNTOU-SE COM O SUFIXO PORTUGUÊS EIRA, FORMANDO A PALAVRA QUE NOMEIA HOJE UM GRANDIOSO CONGLOMERADO ARQUITETÔNICO DE CASAS, SUSTENTADAS POR VIGAS E BLOCOS NUS, FORMANDO AVENIDAS, RUAS E VIELAS, CONSTITUIDORAS DA ENGOMADEIRA.

A ENGOMADEIRA SE LOCALIZA NA REGIÃO CONSIDERADA “O MIOLO DE SALVADOR”, O CABULA. ALÉM DISSO, FAZ FRONTEIRA, EM SUA PARTE BAIXA, (CONHECIDA HISTORICAMENTE COMO ENGOMADEIRA PEQUENA) COM O CENTRO GEOGRÁFICO DO CABULA – O BEIRU; E EM SUA PARTE ALTA, DENOMINADA ENGOMADEIRA GRANDE, COM TODA A EXTENSÃO QUE MARGEA O FUNDO DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEB.

AS FRONTEIRAS DEMARCADAS ENTRE ENGOMADEIRA E BEIRU ERAM DETERMINADAS POR UM RIO QUE DIVIDIA OS DOIS BAIRROS, E SERVIA PARA AS MULHERES ENGOMADEIRAS, CANTANDO AS CANTIGAS QUE EMBALAVAM O TRABALHO E FORMAVAM A CULTURA DOS SAMBADORES ANTIGOS DO BAIRRO, LAVAREM E ENGOMAREM AS ROUPAS DOS CORONÉIS DO EXÉRCITO (PROPRIETÁRIOS DE FAZENDAS E DE CHÁCARAS NA REGIÃO ATÉ MAIS DA METADE DO SÉCULO PASSADO), MAS QUE ANTES, NO SÉCULO XIX, TINHA SIDO LOCUS DE RESISTÊNCIA QUILOMBOLA AO SISTEMA ESCRAVOCRATA BRASILEIRO.

O RIO DAS ENGOMADEIRAS SE TRANSFIGUROU EM UM CONTÍNUO DE DETRITOS HUMANOS, ELE PASSA ATÉ HOJE PELAS JANELAS DOS MORADORES DA ENGOMADEIRA PEQUENA. A CONSTRUÇÃO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS, EM 1965 A 1966, FOI O MARCO INICIAL DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DO CABULA, ATRAINDO UM CONTIGENTE POPULACIONAL DO INTERIOR DA BAHIA (QUE FOI MORAR EM HABITAÇÕES ESPONTÂNEAS, CASAS DE PAU-A-PIQUE E EM OUTRAS, QUE JÁ TINHA O ENCADEAR SISTEMÁTICO DOS BLOCOS) PARA TRABALHAR NAS DIVERSAS OBRAS, MODELADORAS DO CABULA E DA ENGOMADEIRA EM SUA VITALIDADE MODERNA. TODO ESSE PROCESSO OCASIONOU A DESTRUIÇÃO DE GRANDE PARTE DA MATA-ATLÂNTICA E NA MORTE DOS RIOS.

UTILIZA-SE A TERMINOLOGIA MODERNA AQUI, AGREGANDO OS VALORES CONSTRATANTES QUE LHE DÃO SIGNIFICAÇÃO. NO CABULA TÊM-SE LOCAIS E HABITAÇÕES QUE SE APROXIMAM DOS ÍNDICES DE VIDAS EUROPEIAS, COMO TEM OUTROS, A EXEMPLO DOS INTRA-BAIRROS DA ENGOMADEIRA, AS BAIXADAS E AS “BOCADAS”, QUE APRESENTAM, AO MÍNINO VOLTAR DE OLHAR, AO HORIZONTE DE ALGUM BECO DO BAIRRO, CONDIÇÕES DE MISERABILIDADE SEMELHANTES AOS DOS PAÍSES MAIS POBRES DO MUNDO.

A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO TRANSPOSTO NESTE BREVE ENSAIO ADVÉM DE UMA REDE DE TESTEMUNHOS ORAIS, PASSADOS DO MAIS VELHO AO MAIS NOVO, DA BOCA PARA O OUVIDO, E QUE AGORA GANHA STATUS DE ESCRITA PELAS MÃOS QUE BUSCAM ESCREVER COMO SE ENGOMASSEM O TECIDO TÊNUE DE UM POVO FEITO DE NGOMA, FEITO DE TAMBOR.

A OPERAÇÃO REALIZADA, AQUI, REVESTE O CRISTALINO DA HISTÓRIA NGOMA COM AS IMAGENS EM SEUS ASPECTOS ANCESTRAIS: QUILOMBO, SAMBA, MULHERES ENGOMADEIRAS, CASA DE TAIPA, MANDINGA, RIOS, TILÁPIAS, AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA E TAMBÉM COM AS SUAS FEIÇÕES MODERNAS: ENTRECRUZAR VELOZ DE CARROS, MOTOS E TRASEUNTES; O MULTIPLICAR DE “BECOS-ZIGUE-ZAGUES”, O COMÉRCIO DE BENS E SERVIÇOS, A POLIFONIA RITMICA DO PAGODE, O RAP, O GRAFITE; TODO UM ESTRUTURAR MULTIDIMENSIONAL PERIFÉRICO QUE SÓ PODE SER VISLUMBRADO, EM SUA GRANDIOSIDADE CULTURAL E HUMANA,  COM O ABRIR DOS OLHOS, PERDIDOS NA CATARATA ORTOGRÁFICA DO DESCONHECIMENTO, EM CAIXA-ALTA.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

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Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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