Narandiba em negrito: da natureza abundante à modelação periférica do bairro

narandiba foto

 

Por: Davi Nunes

 

Estórias sempre deveriam ser grafadas numa estética escritural em negrito. Essa fonte tem o ensolarado civilizatório, queima a palidez fantasmagórica e clássica do papel em branco, explicita, cria outras civilizações, finca territórios: quilombos, tribos, guetos, favelas, transpassam culturas e costumes no boca a boca atemporal da oralidade. Uma episteme, assim, surge vivaz, “barulhenta” ressoante como som de tambor, a tecer e construir, neste breve ensaio, conhecimentos sobre o bairro Narandiba, localizado no Cabula, centro geográfico da Cidade do Salvador-Ba.

            Narandiba é uma palavra de origem tupi-guarani: [narã(laranja) + diba ( lugar)], ou seja, significa literalmente “lugar com muita laranja”. O Cabula, até a metade do século passado, se caracterizava como local que possuía muitas fazendas de laranjas, responsáveis por abastecer, com este produto, grande parte da Cidade do Salvador. Dessa herança cítrica e agrária está à origem do nome do subdistrito. Com a modelação moderna do bairro: a construção da Avenida Edgar Santos, do Hospital Geral Roberto Santos, do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, entre outras obras, que incentivaram a vinda de um grande contingente populacional do interior do Estado – foram-se as laranjas, ficou-se o belo nome indígena.  

 cabeção       Monumento a Edgar Santos 

Narandiba é toda delimitada por marcos institucionais: o monumento ao médico e primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia-UFBA, Edgar Santos (1884-1962) conhecido por todos os moradores do bairro como “cabeção”, localizado na encruzilhada entre Cabula, Narandiba e Saboeiro, onde as oferendas a Exu, orixá da comunicação, da fertilidade, são ofertadas para abrir o canal de comunicação e pedir a bênção a todos os ancestrais, que na escravatura, foram quilombos do Cabula. Outra instituição importante é o hospital, que leva a nomeação do médico, professor e político, Roberto Santos, hospital que trata das enfermidades dos soteropolitanos, como dos baianos de diferentes municípios; além disso, outro estabelecimento tradicional no bairro é o hospital psiquiátrico que leva o nome do primeiro professor universitário negro no Brasil, um brilhante intelectual, percursor da psiquiatria brasileira, Juliano Moreira (1873-1932).

Juliano_Moreira           Juliano Moreira

A ocupação do território do bairro, com a densidade demográfica que se encontra na atualidade, começou há pouco tempo, na década de 90, se comparado com outros subdistritos do Cabula. Nesta época, o morro que fica embaixo do Hospital Geral Roberto Santos foi sendo ocupado, como as margens direita e esquerda da Avenida Edgar Santos, constituindo, não sem a opressão do Estado, os intra-bairros, denominados pejorativamente de “invasões”, que foram formando guetos, os quais possuem uma dinâmica permeada de trocas solidárias, traços reminiscentes de quilombo; a construir costumes, hábitos e culturas, formando outro modelo civilizatório menos empalidecido, mais negrito.  

Segundo estórias contadas pelos moradores mais antigos do bairro, ao remontar as memórias de Narandiba anterior à constituição contemporânea e urbana: a região tinha belos rios, fontes de água, cachoeira, além da abundancia de frutas, de pescados e de caças. Há relatos também que no local onde hoje é uma praça, a “Rótula do Juliano”, lugar de recreação, shows de pagode, de hip-hop, jogos de futsal e basquete; um espaço de entretenimento coletivo dos moradores da comunidade, mas que em épocas remotas foi um rio, o qual o povo saía do Beiru, e de outros locais do Cabula, para se banhar nele. Boa parte do território nessa região era revestido de água doce e com a modernização periférica do bairro tudo foi virando asfalto, pista, esgoto.

            Outro aspecto de Narandiba é o forte comércio de bens e serviços (formais e informais), eles dinamizam o cotidiano da comunidade. Mercadinhos, mini-shoppings, padarias, pequenas empresas, além da multinacional brasileira, a Odebrecht, que se encontra instalada no subdistrito. A mata atlântica foi quase completamente destruída, a natureza já não oferta os frutos, que até o início da década de 90, se conseguia com facilidade. Tudo agora se possui e se consome pelo intermédio do “Deus visível”, o dinheiro.

No interior dos intra-bairros se encontra ainda, em Narandiba, resquícios da constituição antiga do bairro. Na mata restante se sente o cheiro de quilombo; nas casas de laje, telhas e blocos vermelhos, todos olham ainda a vida um dos outros; compartilham os medos, as estórias, as violências cotidianas; resistem, com coragem, às intemperes da vida; constroem costumes, hábitos e culturas, um modo civilizatório em cor negrita.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

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Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

6 comentários em “Narandiba em negrito: da natureza abundante à modelação periférica do bairro”

  1. Que bacana, vivi 29 anos no Saboeiro. Nasci lá em 1982 e vi o crescimento da Narandiba e hj ainda me assusto com o “desenvolvimento” da localidade. Convivo com a comunidade de lá, apesar de morar em outra cidade agora, pois sou professor de uma escola localizada próximo a cesta do povo.
    Sou apaixonado pelo Cabula e gostei muito dessa “matéria”.

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