Bairro Mata Escura: gueto urbano – resistência quilombola

mata escura

Por: Davi Nunes

As histórias tiradas do profundo da mata, no curvar estratégico do rastro de mocambo, para deixar a força policial da província do Salvador, no século XIX, desnorteada no Quilombo do Cabula, são transpostas, neste breve ensaio, para tecer conhecimentos a cerca do bairro Mata Escura, localizado no miolo da Cidade do Salvador-Ba.

As marcas linguísticas, ou a influência das línguas africanas, sempre foram presentes para demarcação e nomeação de territórios na região do quilombo, haja vista Cabula, palavra de origem banto, além de Beiru, ou Gbeiru, ioruba, e Engomadeira – união do topônimo de origem africano-banto da língua Kimbundo Engoma com o sufixo português Eira. Da mesma forma existe a palavra ioruba Igbedú que quer dizer em português Mata Escura. Todas essas palavras demonstram claramente a existência de modelos civilizatórios africanos no Cabula, sendo o bairro Mata Escura um dos construtos quilombolas importantes da região.

A Mata Escura fora um dos locais mais seguros para o aquilombamento no passado, devido à profundidade da floresta atlântica, e após o “final” da escravidão, surgiu, aproximadamente em 1900, uma instituição religiosa demais importante: o terreiro de candomblé Inzo Manzo Bandukenké, atual terreiro Bate Folha, de nação angola, tombado pelo IPHAN, em 2003, como patrimônio da cultura Afro-brasileira.

bate folha

Outro aspecto relevante da história do bairro fora a construção em 1930, para o abastecimento de água da cidade, de duas represas – Prata e Mata Escura – no Rio Camurujipe, que era o maior de Salvador. Ele cortava, de lado a lado, o bairro e hoje é um deposito de detritos humanos, esgoto soterrado sob asfalto e pista. As represas foram projetadas pelo engenheiro Teodoro Sampaio e até 1987 abastecia boa parte da Cidade do Salvador.

Outra obra erguida em 1950 no bairro, complexo de grilhões, no lugar onde no passado os quilombolas tinham plantado axé, construído espaço de liberdade, é a penitenciária lemos de Brito, maior presídio do Estado, depositário de homens e mulheres, em sua grande maioria, negros e negras, “vigiados e punidos” devido às arregimentações dos tribunais e leis brancas.  

A estruturação atual do bairro teve início na década de 80 com obras de urbanização: foi quando construíram vários conjuntos habitacionais, porém devastaram muito da reserva atlântica local, além das estruturações espontâneas dos bairros e intra-bairros e do inchaço demográfica, devido à chegada de muitos trabalhadores do interior. Eles vinham trabalhar nas obras edificadoras do Cabula e da Salvador contemporâneo, de modo que assim ajudaram também a construírem a modelação periférica do bairro.

A periferia aqui é entendida em sua multidimensionalidade, lócus de manifestações humanas diversas e densas: arquitetar de casas de blocos nus, de guetos que entrecruzam vozes, constitui solidariedades na dinâmica da sobrevivência comunitária, no atentar do sangue escorrido, genocídio, do rap posto, papo reto, do grafite no muro, abrindo horizontes, da quebradeira do pagode, ritmado, do tambor tradicional que nos corações livres ainda soam Igbedú, a reconstruir os rastros estratégicos do mocambo consolador, a restituir a grandiosidade original do bairro Mata Escura.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

 

 

 

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Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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