BAIRRO SUSSUARANA E OS SUSSUS ANCESTRAIS

sussuarana

Por: Davi Nunes

É difícil seguir o rastro da história depois que a mata foi devastada. Quando a suçuarana já fora extinta no ambiente e tudo virou esgoto e pista. Não é fácil. Mas abstrair o passado e o reconstruir é reviver signos latentes no peito, na conversa com os mais velhos, nos terreiros – templos sempre iluminadores – na transcendência dos tambores, no movimentar periférico afro dos jovens, e colocá-los na vitrine resplandecente do mundo, a escrita. Pelo menos é assim que se explicita na contemporaneidade.  Por isso, o esforço, neste breve ensaio, em colocar ao sol escritural a história do bairro Sussuarana, localizado no centro da península soteropolitana, em Salvador-Ba.

A palavra Sussuarana tem o radical sussu e de acordo com os estudos da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro em seu livro Falares Africanos na Bahia (2001) súsu, topônimo da língua Quimbundo, quer dizer algo “que atemoriza”. O temor está relacionado com a existência das onças suçuaranas que até a década de 70 do século XX, devido à densa mata existente, podia se encontrar na região.

A professora e pesquisadora Janice de Sena Nicolin no seu livro Ecos que entoam: uma mata africano-brasileira demonstra que Nina Rodrigues (1990) refere-se ao povo sussus, lembrados por africanos escravizados numa entrevista que ele fez. Apreensão da experiência afro para estigmatizá-la. O bom disso (se é que se tem algo bom) que ficou o registro. Necessário. Ademais, no livro publicado pela UNESCO em 1980, História da África, Vol. IV encontra-se a referência sobre os povos Sussus: povos isolados que viviam na Serra Leoa, onde ficavam os Mandingas, a língua usada por eles era o mande, a mesma dos Mandingas. Assim percebe-se que a nomeação do bairro, como a fundação de uma vivência livre se deu com os aquilombados, que, no Quilombo do Cabula, no século XIX, lutaram e resistiram à escravidão.

A destruição da mata atlântica ocasionado pelo processo de urbanização e de inchaço demográfico desde fins da década de 60 no Cabula e que, especificamente, ocorreu na Sussuarana em 80, fez com que as onças fossem extintas no ambiente.

A grande Sussuarana abrange uma área composta por Nova Sussuarana, Novo Horizonte e Sussuarana, além de vários loteamentos e conjuntos habitacionais. Um estabelecimento importante muito próximo do bairro é o Centro Administrativo da Bahia, local onde se organizar os desmandos, se engendra agora as opressões que são seculares do Estado baiano.

A Sussuarana como um dos bairros do que era o antigo Quilombo do Cabula, destruído em 1807, hoje é uma conjunção arquitetônica de casas erigidas de blocos nus, de ruas, avenidas, além de todo um complexo demográfico que compõe um grande bairro periférico de Salvador. No entanto, o periférico é vista aqui como um centro, lócus de explosão de humanidades, lastro comunitário secular que compõe a região e constrói histórias: haja vista o Sarau da onça, voz poética imposta para expressar os anseios diante da desesperança, as revoltas frente ao genocídio impetrado, a sensibilidade estética diante da dor dos jovens negros que já são mais do que Sussuarana, são sussus.

A sussuarana como os outros bairros que formam o Cabula são épicos, confluem em si a história de luta secular da negritude baiana, resiste as intempéries institucionais, ao racismo que oblitera e cheira a morte, tem no modelo civilizatório periférico, o germe revolucionário do quilombo, o poder para a grande virada, para a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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