Frontispício

igreja nossa senhora do rosário dos pretos

 

Por Davi Nunes

I

O frontispício da Igreja de Nossa Senhora Do Rosário dos Pretos – azul mítico de ébanos segredos – não esconde a história de amor e sofrimento de Manoel Mambí com a bela Ashanti; Guarda-a em sua camada mais profunda – abissal – em seu reboco primeiro, demão de um pedreiro crioulo em 1685, ano de sua fundação, segundo alguns historiadores reminiscentes. A história de Mambí e Ashanti só se manifesta, e vem se manifestando há séculos, através do sagrado – tambores ancestrais entoando enredos na alma, em momentos de fé, na Terça da Bênção no Pelourinho – só assim que se apresenta, inevitavelmente. E foi dessa forma que o jovem historiador de guetos, Zezé Santos, fora arrebatado em voos de repique de tambor, à época de Mambí, quando estava sentado na placidez espiritual de um dos bancos da Igreja de Rosário dos Pretos, rezando e aguardando o momento de ir encontrar a noiva e fotógrafa, Samira Flores, na sua casa, localizada no bairro do Santo Antônio Além do Carmo.

II

Zezé, perdido nas reminiscências históricas e ancestrais, viu Mambí carregando na cabeça, junto com outros pretos da irmandade do Rosário, as pedras que tiravam da pedreira do Taboão (subindo e descendo em passos de paralelepípedos as ladeiras) para construírem a igreja – mocambo de negros nas vistas de brancos. Zezé observou Mambí em olhar terno de amor com a bela Ashanti e com o plano de fuga para o Quilombo do Cabula. Amor vivido em liberdade nasce filhos de ventre livre. Fugiu com Ashanti. Léguas para liberdade. Foram emboscados. Ele matou um capitão do mato, mas fora capturado, afastado do seu amor, açoitado e decapitado na Ladeira do Pelourinho. Zezé ainda viu a procissão emocionante do enterro de Mambí, organizado pela Irmandade do Rosário dos Pretos e o desespero de Ashanti em grande comoção e revolta.

III

Zezé voltou das reminiscências históricas, entendeu a mensagem que Ogum mandara através dos tambores. Agradeceu. Fora para a casa de Samira Flores. Viu traços de Ashanti nela, abraçou-a como se fosse a primeira vez e declarou de novo o seu amor.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Anúncios

CINZAS

cinzas imagem.

Por Davi Nunes

“As cinzas não caem à toa no café, é um momento onde todos os malditos dedos do mundo estão a pesar sobre o cigarro angustiante da sua vida; o sarcasmo escroto do sistema.” Este pensamento chegou a Toni no dia em que as circunstâncias do cotidiano haviam corroído toda a sua dignidade na multidão invisível de uma metrópole do século XXI. Na verdade, essa sentença se fez presente em sua consciência, numa noite que observava dentro da quitinete, em dívida de dois meses de aluguel e sentindo um ódio que se revelava em expressões agudas por todo seu corpo, as cinzas se dissipando na escuridão, na madrugada angustiosa do copo de café.

Antes, às seis e meia da manhã, havia acordado, o despertador alarmava às seis, estava atrasado. Vinha logo à cabeça a supervisora de área do trabalho de operador de telemarketing com seu chiclete a estralar ordens e ameaças sacanas. Tinha a ligeira sensação que era melhor não sair da cama, mas sensação não paga as dívidas. Saiu afobado. Tropeçou-se no tapete, bateu a cabeça na soleira do armário. Pensou que era melhor ficar na cama de novo. Vestiu-se, tomou café. Pôs-se à rua. Fumou o primeiro cigarro do dia, andando em direção ao ponto de ônibus. Tinha chovido na madrugada, a pressa não o fez ver as poças de água na pista, e o ônibus – que não conseguiu pegar para ir ao trabalho – apagou o seu cigarro, como o fez tomar o primeiro banho do dia. Desgraçados! Chegou ao ponto: um, dois, três minutos acendeu outro cigarro, assim que o viu aceso – enxergou já parando a condução. Não conseguiu apagá-lo na sola do sapato para colocá-lo de novo na carteira. Merda! O ônibus já estava lotado. Toni aí vai pendurado, surfando em sua porta, sentindo um vento que só os grandes velocistas do mundo já sentiram.

Depois, não sem dificuldade, conseguiu entrar no ”buzu”. Tentou abrir caminho no meio desse enxerto de humanos, indos para as suas obrigações ordinárias. Sem querer, encostou demais na bunda de uma mulher interposta no corredor da condução. Ela se revoltou. Todo o dia sempre tem um tarado, querendo encostar em minha… Desculpe senhora. Desculpe uma por… Todos o observam com olhos de reprovação, o linchamento parecia uma certeza, mas desceu do ônibus, ouvindo os impropérios mais absurdos que um ser humano poderia ouvir.  No trabalho: a mesa, computador e o café frio que a funcionária dos serviços gerais lhe entrega. Nunca dizia muita coisa, sempre agradecia com um sorriso amarelo na boca. Muito obrigado. A educação era o ponto mais fodido da sua personalidade, não era aquela altiva, clássica, mas subserviente.

A supervisora apareceu olhando o relógio, além de mascar e estralar o seu renitente chiclete, que o fazia se lembrar de alguns colegas da universidade: eles mascam e engolem o cuspe como se tivessem apreendendo, a cada mascada e engolida, um conhecimento importante para as suas pretensões acadêmicas. A supervisora carregava os traumas escolares em sua alma, pois no colegial, utilizando o ditado popular: ela não cheirava e nem fedia, era a opacidade absurda de um ser no ambiente social. Mas agora expelia o cheiro neurótico da arrogância: sussurrava, depois gritava em seu ouvido, batendo imperiosa em sua mesa. Atrasado! Atrasado! Atrasado! Vai trabalhar mais uma hora pra suprir o tempo perdido. Depois estralou a maldita bola em seu ouvido. Poki. Toni a imagina, neste ínterim, se engasgando com o nauseante chiclete e ele lhe dando milhões de tapas em suas costas, mas não seria para ela expelir a goma, era para fazê-la descer tripa a baixo. Não falou, entretanto, nada, martirizando-se em seis horas inúteis de trabalho repetitivo. Depois sabia que ia chegar atrasado à universidade, era dia de prova final, pressupunha que tinha passado, porém uma amiga lhe ligou, dizendo que teria que fazer a prova. Como vou fazer? Se fiz vinte e um pontos? Refletia perplexo. Antes de chegar à universidade passou num caixa eletrônico, deveria ter o dinheiro da bolsa de iniciação científica. Três meses de atraso. Não tinha nada, saldo zero. A professora já com um sorriso insosso no rosto o recepcionou:

– Boa prova, Toni.  Pra mim, você não vinha? –

– Obrigado, professora, vim. – Falou resignadamente.

A porra da caneta falha. Teria que pedir para alguém – a professora não tinha. De repente, ninguém possuía uma caneta em toda universidade. Correu fodido por todos os corredores. Uma caneta! Uma Caneta! Ninguém tinha. Vê a da funcionária do protocolo puxa-a, estava amarrada por uma corda. Arranca-a da corda e vai correndo fazer a prova.

– Tem só meia hora, Toni. – Falou a professora.

Fez a prova, respondeu só o suficiente para ela não o reprovar. Agora, a fome. Sim. Porém, não conseguiu nem pensar numa maneira de saciá-la, quando o dono da cantina apareceu em sua frente. Me deve trinta, viu Toni? Vai me pagar quando? Engoliu a saliva e se sentiu saciado. Amanhã seu Fernando, amanhã. Estava ferrado: a ampulheta da sua vida já havia escoado quase toda areia da sua dignidade. Restava ir para casa. Já era tarde. Mas escutou, como uma faca atravessando o ouvido, a voz do diretor do departamento o chamando. A funcionária me disse o que você fez. Disse que feriu ela. Por muito pouco já dificultei a vida de alunos nesse departamento. Essa passa, mas de uma próxima providenciarei seu jubilamento. Me dê, logo, a caneta! O corpo de Toni já se sobressaltava em espasmo de raiva, raiva que se processava nas entranhas de um dos “condenados da terra” ao olhar as palavras em câmara-lenta, saindo da boca do diretor, no entanto se controlou e falou:

– Tá bom, senhor. Não irá se repetir. –

Voltou para casa fazendo uma retrospectiva desse maldito dia, encontrou a namorada nervosa com mochila pronta para ir embora. Escutou de novo milhões de impropérios, que salientavam a sua condição de fodido no mundo.   Os espasmos estavam se tornando cada vez mais fortes.  O coração estava se tornando uma bomba relógio pronta para explodir, quando ele a enxergou batendo a porta, indo embora. Que se fo… Exclamou dentro da quitinete. Restava-lhe, assim, o café e o cigarro. Seria a melhor coisa que iria acontecer nesse dia cão. Aprontou com certa rapidez, pôs no copo, tomava amargo mesmo. Acendeu o cigarro uma, duas, três tragadas. A cinza já se fazia em extensão, o cinzeiro estava próximo do copo. As sucessões dos acontecimentos rodavam a sua mente como fantasmas. Quando, de súbito, como se a ampulheta da sua vida estivesse escoando o último grão de areia da sua dignidade, ele sentiu os dedos do mundo todo pesarem sobre o seu cigarro, batendo as cinzas no café.  Um ódio se revelou em expressões agudas por todo o seu corpo ao ver as cinzas se dissipando na escuridão, na madrugada angustiosa do copo de café. Num outro momento as expressões se paralisaram, ficaram estáticas, e o pensamento já se formara em sua mente: “As cinzas não caem à toa no café, é um momento onde todos os malditos dedos do mundo estão a pesar sobre o cigarro angustiante da sua vida; o sarcasmo escroto do sistema.” Esta conclusão o fez ficar olhando mais fixamente para o copo, mas não só olhando: fora arrebatado por uma ação propulsora que o fez pegar o copo e engolir de um só gole as cinzas no café. Na verdade, engoliu a namorada, o diretor do departamento, a funcionária, a professora, a supervisora, a mulher no ônibus, a poça d´agua, engoliu o sistema de uma só vez, e agora iria cuspi-lo para se tornar um sujeito, em pleno século XXI, construtor da sua própria história.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

ESTRADA DAS BARREIRAS: A ARQUEOLOGIA QUILOMBOLA E O GENOCÍDIO DOS JOVENS NEGROS NA VILA MOISÉS

estrada das barreiras

Por Davi Nunes

A estrada quando era de barro, era mais fácil de tracejar os passos quilombolas: os pés que marcavam o chão – deixavam rastros de destinos. É fato. A episteme dos passos no Cabula fora soterrada pelo concreto da urbanização atual, pela desapropriação de quem fundou, originalmente, modelos civilizatórios africanos na região para verticalizar a classe média soteropolitana em seus cubículos de brancos encardidos. Mas ainda é possível perscrutar com os olhos para ver as marcas das pegadas dos ancestrais sob o asfalto quente, sob as pistas, para extrair, neste breve ensaio, nuances da história da Estrada das Barreiras, localizada no Cabula, no miolo da Cidade do Salvador-Ba.

A Estrada das Barreiras já foi nas décadas iniciais do século XX, segundo os moradores mais antigos, chamada de Estrada dos Bois, pois servia de passagem do gado que vinha da BR 324 para o Matadouro do Retiro. O barreiro se esvoaçava em poeira ao passar mortal dois bois e antes, no século XIX, servia como trilha para a mata escura, para o profundo do Quilombo do Cabula, destruído em 1807 por ordem de João Saldanha, Conde de Ponte, governador e capitão geral da Bahia na época.

Na Estrada das Barreiras tem-se também um dos templos religiosos afro-brasileiros mais importantes do Brasil, O terreiro Viva A Deus, que vem da antiga raiz do Tumbensi, uma casa de Angola, tida como a mais antiga da Bahia, fundada por um escravizado angolano, chamado Roberto Bairro Reis, em 1850. O Viva Deus conflui e preserva, em si, tradições seculares da socioexistência quilombola no lugar.

Pode-se notar que a Estrada das Barreiras é uma espécie de espinha dorsal. Ela começa na entrada do bairro Engomadeira e vai até a entrada da Rua Direta do Beiru e tem em suas duas margens conjuntos habitacionais, na verdade: de um lado o bairro Barreira, constituído com seus vários intra-bairros: ruas, vielas, guetos, os quais possuem um modo civilizatório próprio, constituidor de uma periferia urbana, com toda multidimensionalidade e linguagens que as compõe. Do outro lado se encontra à entrada da rua direta do Arraial do Retiro e vários outros intra-bairros também que formam a Barreira, valendo-se destacar aqui, A Vila Moisés, especificamente, por ter sofrido uma ação sintetizadora da opressão histórica, impetrada pelo Estado baiano aos moradores fundadores da territorialidade e sociabilidades, advindas de uma tradição quilombola no Cabula.

A Vila Moisés está na margem baixa da Estrada das Barreiras, é em sua maioria erigida de casas de blocos nus, lajes e telhas de Eternit, formando becos “zigue-zagues” que descambam num campinho, o qual tem, em seu fundo, um restante de mata atlântica, que formava, antes da explosão urbanista, toda a região do Cabula. No campinho, local de invencionices futebolísticas, do rolar dos sonhos em dribles, das “piculas” infantis, doze jovens negros, na madrugada do dia 6 de fevereiro de 2015, foram brutalmente assassinados pela polícia militar, depois tiveram seus corpos dessecados pelas falácias da imprensa sensacionalista baiana e as lágrimas de mães, esposas, de todos os parentes e moradores da comunidade desrespeitadas pela “injustiça”, pois os policiais foram absolvidos pela juíza Marivalda Almeida Moutinho, no dia 24 de julho deste mesmo ano.

Seis dias após o genocídio dos jovens, no dia 12 de fevereiro, participei da passeata organizada pelo grupo Reaja ou será morto, Reaja ou será morta. Cheguei no campinho,  pude ver, como todos que estavam lá, capsulas de balas, sandálias espalhadas ao desespero do fim da vida, os choros agônicos das mães e parentes desolados – o horror e a desumanidade esgaçadas à vista.

A história do Cabula, dos quilombolas que fundaram a região e moram hoje na periferia fora sempre resistindo às ignominias estruturais e raciais do Estado brasileiro: Foi assim em 1807 com a destruição do Quilombo do Cabula; foi assim na Operação Beiru em 1996, onde, em um mês, 52 jovens negros foram assassinados pela polícia. Exterminaram no bairro uma geração. Inocularam para sempre na alma das mães e pais o sangue dos filhos nos olhos. Hoje é assim na Vila Moisés, na Estrada das Barreiras. É secular a voracidade sanguínea e sistêmica dos cães mandibulares. É secular as impetrações dos governantes na Bahia, estruturando a cada época um novo extermínio.

A espinha dorsal, a Estrada das Barreiras, tem margens compondo o corpo geográfico, fundado na arqueologia transformadora do quilombo, que já são soantes no peito de muitos e se imiscui no verso do rap, nos grafites nas paredes, no gritar empoderado das mães, na gana dos jovens que arquitetam futuros, nas marchas contra o genocídio do povo negro a cada ano ganhando um escopo político e social maior, nas consciências a se enegrecerem em cada gueto, viela, favela e já buscarem ações para a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil