ESTRADA DAS BARREIRAS: A ARQUEOLOGIA QUILOMBOLA E O GENOCÍDIO DOS JOVENS NEGROS NA VILA MOISÉS

estrada das barreiras

Por Davi Nunes

A estrada quando era de barro, era mais fácil de tracejar os passos quilombolas: os pés que marcavam o chão – deixavam rastros de destinos. É fato. A episteme dos passos no Cabula fora soterrada pelo concreto da urbanização atual, pela desapropriação de quem fundou, originalmente, modelos civilizatórios africanos na região para verticalizar a classe média soteropolitana em seus cubículos de brancos encardidos. Mas ainda é possível perscrutar com os olhos para ver as marcas das pegadas dos ancestrais sob o asfalto quente, sob as pistas, para extrair, neste breve ensaio, nuances da história da Estrada das Barreiras, localizada no Cabula, no miolo da Cidade do Salvador-Ba.

A Estrada das Barreiras já foi nas décadas iniciais do século XX, segundo os moradores mais antigos, chamada de Estrada dos Bois, pois servia de passagem do gado que vinha da BR 324 para o Matadouro do Retiro. O barreiro se esvoaçava em poeira ao passar mortal dois bois e antes, no século XIX, servia como trilha para a mata escura, para o profundo do Quilombo do Cabula, destruído em 1807 por ordem de João Saldanha, Conde de Ponte, governador e capitão geral da Bahia na época.

Na Estrada das Barreiras tem-se também um dos templos religiosos afro-brasileiros mais importantes do Brasil, O terreiro Viva A Deus, que vem da antiga raiz do Tumbensi, uma casa de Angola, tida como a mais antiga da Bahia, fundada por um escravizado angolano, chamado Roberto Bairro Reis, em 1850. O Viva Deus conflui e preserva, em si, tradições seculares da socioexistência quilombola no lugar.

Pode-se notar que a Estrada das Barreiras é uma espécie de espinha dorsal. Ela começa na entrada do bairro Engomadeira e vai até a entrada da Rua Direta do Beiru e tem em suas duas margens conjuntos habitacionais, na verdade: de um lado o bairro Barreira, constituído com seus vários intra-bairros: ruas, vielas, guetos, os quais possuem um modo civilizatório próprio, constituidor de uma periferia urbana, com toda multidimensionalidade e linguagens que as compõe. Do outro lado se encontra à entrada da rua direta do Arraial do Retiro e vários outros intra-bairros também que formam a Barreira, valendo-se destacar aqui, A Vila Moisés, especificamente, por ter sofrido uma ação sintetizadora da opressão histórica, impetrada pelo Estado baiano aos moradores fundadores da territorialidade e sociabilidades, advindas de uma tradição quilombola no Cabula.

A Vila Moisés está na margem baixa da Estrada das Barreiras, é em sua maioria erigida de casas de blocos nus, lajes e telhas de Eternit, formando becos “zigue-zagues” que descambam num campinho, o qual tem, em seu fundo, um restante de mata atlântica, que formava, antes da explosão urbanista, toda a região do Cabula. No campinho, local de invencionices futebolísticas, do rolar dos sonhos em dribles, das “piculas” infantis, doze jovens negros, na madrugada do dia 6 de fevereiro de 2015, foram brutalmente assassinados pela polícia militar, depois tiveram seus corpos dessecados pelas falácias da imprensa sensacionalista baiana e as lágrimas de mães, esposas, de todos os parentes e moradores da comunidade desrespeitadas pela “injustiça”, pois os policiais foram absolvidos pela juíza Marivalda Almeida Moutinho, no dia 24 de julho deste mesmo ano.

Seis dias após o genocídio dos jovens, no dia 12 de fevereiro, participei da passeata organizada pelo grupo Reaja ou será morto, Reaja ou será morta. Cheguei no campinho,  pude ver, como todos que estavam lá, capsulas de balas, sandálias espalhadas ao desespero do fim da vida, os choros agônicos das mães e parentes desolados – o horror e a desumanidade esgaçadas à vista.

A história do Cabula, dos quilombolas que fundaram a região e moram hoje na periferia fora sempre resistindo às ignominias estruturais e raciais do Estado brasileiro: Foi assim em 1807 com a destruição do Quilombo do Cabula; foi assim na Operação Beiru em 1996, onde, em um mês, 52 jovens negros foram assassinados pela polícia. Exterminaram no bairro uma geração. Inocularam para sempre na alma das mães e pais o sangue dos filhos nos olhos. Hoje é assim na Vila Moisés, na Estrada das Barreiras. É secular a voracidade sanguínea e sistêmica dos cães mandibulares. É secular as impetrações dos governantes na Bahia, estruturando a cada época um novo extermínio.

A espinha dorsal, a Estrada das Barreiras, tem margens compondo o corpo geográfico, fundado na arqueologia transformadora do quilombo, que já são soantes no peito de muitos e se imiscui no verso do rap, nos grafites nas paredes, no gritar empoderado das mães, na gana dos jovens que arquitetam futuros, nas marchas contra o genocídio do povo negro a cada ano ganhando um escopo político e social maior, nas consciências a se enegrecerem em cada gueto, viela, favela e já buscarem ações para a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Anúncios

Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s