CINZAS

cinzas imagem.

Por Davi Nunes

“As cinzas não caem à toa no café, é um momento onde todos os malditos dedos do mundo estão a pesar sobre o cigarro angustiante da sua vida; o sarcasmo escroto do sistema.” Este pensamento chegou a Toni no dia em que as circunstâncias do cotidiano haviam corroído toda a sua dignidade na multidão invisível de uma metrópole do século XXI. Na verdade, essa sentença se fez presente em sua consciência, numa noite que observava dentro da quitinete, em dívida de dois meses de aluguel e sentindo um ódio que se revelava em expressões agudas por todo seu corpo, as cinzas se dissipando na escuridão, na madrugada angustiosa do copo de café.

Antes, às seis e meia da manhã, havia acordado, o despertador alarmava às seis, estava atrasado. Vinha logo à cabeça a supervisora de área do trabalho de operador de telemarketing com seu chiclete a estralar ordens e ameaças sacanas. Tinha a ligeira sensação que era melhor não sair da cama, mas sensação não paga as dívidas. Saiu afobado. Tropeçou-se no tapete, bateu a cabeça na soleira do armário. Pensou que era melhor ficar na cama de novo. Vestiu-se, tomou café. Pôs-se à rua. Fumou o primeiro cigarro do dia, andando em direção ao ponto de ônibus. Tinha chovido na madrugada, a pressa não o fez ver as poças de água na pista, e o ônibus – que não conseguiu pegar para ir ao trabalho – apagou o seu cigarro, como o fez tomar o primeiro banho do dia. Desgraçados! Chegou ao ponto: um, dois, três minutos acendeu outro cigarro, assim que o viu aceso – enxergou já parando a condução. Não conseguiu apagá-lo na sola do sapato para colocá-lo de novo na carteira. Merda! O ônibus já estava lotado. Toni aí vai pendurado, surfando em sua porta, sentindo um vento que só os grandes velocistas do mundo já sentiram.

Depois, não sem dificuldade, conseguiu entrar no ”buzu”. Tentou abrir caminho no meio desse enxerto de humanos, indos para as suas obrigações ordinárias. Sem querer, encostou demais na bunda de uma mulher interposta no corredor da condução. Ela se revoltou. Todo o dia sempre tem um tarado, querendo encostar em minha… Desculpe senhora. Desculpe uma por… Todos o observam com olhos de reprovação, o linchamento parecia uma certeza, mas desceu do ônibus, ouvindo os impropérios mais absurdos que um ser humano poderia ouvir.  No trabalho: a mesa, computador e o café frio que a funcionária dos serviços gerais lhe entrega. Nunca dizia muita coisa, sempre agradecia com um sorriso amarelo na boca. Muito obrigado. A educação era o ponto mais fodido da sua personalidade, não era aquela altiva, clássica, mas subserviente.

A supervisora apareceu olhando o relógio, além de mascar e estralar o seu renitente chiclete, que o fazia se lembrar de alguns colegas da universidade: eles mascam e engolem o cuspe como se tivessem apreendendo, a cada mascada e engolida, um conhecimento importante para as suas pretensões acadêmicas. A supervisora carregava os traumas escolares em sua alma, pois no colegial, utilizando o ditado popular: ela não cheirava e nem fedia, era a opacidade absurda de um ser no ambiente social. Mas agora expelia o cheiro neurótico da arrogância: sussurrava, depois gritava em seu ouvido, batendo imperiosa em sua mesa. Atrasado! Atrasado! Atrasado! Vai trabalhar mais uma hora pra suprir o tempo perdido. Depois estralou a maldita bola em seu ouvido. Poki. Toni a imagina, neste ínterim, se engasgando com o nauseante chiclete e ele lhe dando milhões de tapas em suas costas, mas não seria para ela expelir a goma, era para fazê-la descer tripa a baixo. Não falou, entretanto, nada, martirizando-se em seis horas inúteis de trabalho repetitivo. Depois sabia que ia chegar atrasado à universidade, era dia de prova final, pressupunha que tinha passado, porém uma amiga lhe ligou, dizendo que teria que fazer a prova. Como vou fazer? Se fiz vinte e um pontos? Refletia perplexo. Antes de chegar à universidade passou num caixa eletrônico, deveria ter o dinheiro da bolsa de iniciação científica. Três meses de atraso. Não tinha nada, saldo zero. A professora já com um sorriso insosso no rosto o recepcionou:

– Boa prova, Toni.  Pra mim, você não vinha? –

– Obrigado, professora, vim. – Falou resignadamente.

A porra da caneta falha. Teria que pedir para alguém – a professora não tinha. De repente, ninguém possuía uma caneta em toda universidade. Correu fodido por todos os corredores. Uma caneta! Uma Caneta! Ninguém tinha. Vê a da funcionária do protocolo puxa-a, estava amarrada por uma corda. Arranca-a da corda e vai correndo fazer a prova.

– Tem só meia hora, Toni. – Falou a professora.

Fez a prova, respondeu só o suficiente para ela não o reprovar. Agora, a fome. Sim. Porém, não conseguiu nem pensar numa maneira de saciá-la, quando o dono da cantina apareceu em sua frente. Me deve trinta, viu Toni? Vai me pagar quando? Engoliu a saliva e se sentiu saciado. Amanhã seu Fernando, amanhã. Estava ferrado: a ampulheta da sua vida já havia escoado quase toda areia da sua dignidade. Restava ir para casa. Já era tarde. Mas escutou, como uma faca atravessando o ouvido, a voz do diretor do departamento o chamando. A funcionária me disse o que você fez. Disse que feriu ela. Por muito pouco já dificultei a vida de alunos nesse departamento. Essa passa, mas de uma próxima providenciarei seu jubilamento. Me dê, logo, a caneta! O corpo de Toni já se sobressaltava em espasmo de raiva, raiva que se processava nas entranhas de um dos “condenados da terra” ao olhar as palavras em câmara-lenta, saindo da boca do diretor, no entanto se controlou e falou:

– Tá bom, senhor. Não irá se repetir. –

Voltou para casa fazendo uma retrospectiva desse maldito dia, encontrou a namorada nervosa com mochila pronta para ir embora. Escutou de novo milhões de impropérios, que salientavam a sua condição de fodido no mundo.   Os espasmos estavam se tornando cada vez mais fortes.  O coração estava se tornando uma bomba relógio pronta para explodir, quando ele a enxergou batendo a porta, indo embora. Que se fo… Exclamou dentro da quitinete. Restava-lhe, assim, o café e o cigarro. Seria a melhor coisa que iria acontecer nesse dia cão. Aprontou com certa rapidez, pôs no copo, tomava amargo mesmo. Acendeu o cigarro uma, duas, três tragadas. A cinza já se fazia em extensão, o cinzeiro estava próximo do copo. As sucessões dos acontecimentos rodavam a sua mente como fantasmas. Quando, de súbito, como se a ampulheta da sua vida estivesse escoando o último grão de areia da sua dignidade, ele sentiu os dedos do mundo todo pesarem sobre o seu cigarro, batendo as cinzas no café.  Um ódio se revelou em expressões agudas por todo o seu corpo ao ver as cinzas se dissipando na escuridão, na madrugada angustiosa do copo de café. Num outro momento as expressões se paralisaram, ficaram estáticas, e o pensamento já se formara em sua mente: “As cinzas não caem à toa no café, é um momento onde todos os malditos dedos do mundo estão a pesar sobre o cigarro angustiante da sua vida; o sarcasmo escroto do sistema.” Esta conclusão o fez ficar olhando mais fixamente para o copo, mas não só olhando: fora arrebatado por uma ação propulsora que o fez pegar o copo e engolir de um só gole as cinzas no café. Na verdade, engoliu a namorada, o diretor do departamento, a funcionária, a professora, a supervisora, a mulher no ônibus, a poça d´agua, engoliu o sistema de uma só vez, e agora iria cuspi-lo para se tornar um sujeito, em pleno século XXI, construtor da sua própria história.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Anúncios

Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s