TRAÇOS DA HISTÓRIA DO BAIRRO ARENOSO E O QUILOMBISMO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA ZEFERINA-BEIRU

Por Davi Nunes

imagem biblioteca zeferina-beiruArtista:  Marcos De Oliveira Silva     

Aos guerreiros Diego Santos e Hugo Gabriel

As histórias tiradas do solo trazem rastros de pegadas e se o solo for arenoso pode tingir de vermelho os pés, deixar evidente, para os novos andantes, os passos dos ancestrais. Os mais velhos diluíram em concreto o arenoso, compuseram vigas com ele, construíram casas, avenidas, formaram o bairro Arenoso que compõe também a região onde, no século XIX, fora o quilombo do Cabula.

O Arenoso está localizado próximo aos bairros Beiru, Cabula 6, Sussuarana, Nova Sussuarna, Novo Horizonte e CAB. Está no centro geográfico da Cidade do Salvador-ba. E até o ano de 1940 fazia parte do bairro Beiru, como se pode ver no livro Beiru (2007), lançado pela Associação Comunitária e Carnavalesca Mundo Negro. O livro é um compendio de informações sobre a região: fotos, escrituras, abaixos assinados e textos falando sobre o arquétipo ancestral, Beiru, e os herdeiros da região.

A separação ou o desdobramento de parte do Beiru em Arenoso ocorreu por intervenção mítica, ou melhor, por mediação dos orixás, segundo relatos advindos do testemunho oral: em 1940 após uma chuva com trovoada, desígnios de Xangô, orixá da sabedoria e da justiça, e também com relâmpagos, poder de Iansã, a região foi separada; houve uma cisão geográfica natural. Além disso, havia um pé de umbu que a ventania arrancou com a chuva e um dos herdeiros das terras, chamado de Cara de Vaca percebeu que poderia ficar rico com a terra que estava por baixo de onde saiu à raiz do umbuzeiro. Era arenoso. Foram coletados três tipos de solo do local para o DRM Serviço Geológico do Estado e um engenheiro diagnosticou que os mesmos serviam para pavimentar ruas e construções. Ocorreu, assim, a tentativa de vender as terras para DRM, o valor do arenoso era um pouco semelhante como petróleo hoje, a empresa não teve condições de pagar, então colocou a serviço as caçambas e as máquinas para a extração e todo esse processo levou o bairro a se chamar Arenoso.

No bairro, durante a segunda metade do século XX, estava em atividade um grande terreiro, chamado de Asé do Beiru ou Ilê Axé Tomin Bokun. Ele era o santuário de expressão da religião e culturas bantos no Brasil, comandado por um dos tatas (babalorixas) mais poderosos do país, Manoel Rufino de Souza. Seu nome hoje nomeia uma das avenidas do bairro. E o espaço onde era o terreiro após sua morte, foi vendido para Igreja Universal.

rufino do BeiruManoel Rufino

 Outra instituição religiosa importante na região é o Ilê Axé Gezubum Santa Cruz, fundado em 1940 por mãe Rosalina Santiago dos Santos. O terreiro tem funcionamento até hoje e teve, ha poucos anos, a morte de sua grande sacerdotisa, que ficou durante 36 anos à frente da roça, Mãe Clarice Santiago Santos, mais conhecida como Minha Gal.

Um dos aspectos relevantes do subdistrito é o forte comércio de bens e serviços: mercadinhos, lanchonetes, padarias, salões de beleza que dinamizam a comunidade. Além de muitas pessoas que trabalham vendendo frutas nas feiras livres. O Arenoso possui uma estrutura demográfica densa como a maioria dos bairros periféricos de Salvador; assomam-se às casas que formam o horizonte da periferia, com pessoas que comungam trocas solidárias e tentam resistir à violência do estado, ao racismo (detritos de exclusão) e ao genocídio impetrado à juventude negra.

Outro espaço importante na região é o Centro Comunitário do Arenoso (antigo Cine teatro) que estava totalmente abandonado pelos órgãos públicos, mas que no ano de 2015 um grupo de jovens do bairro, do entorno e de outras periferias da cidade, referenciados pela história de luta dos ancestrais, conseguiram inaugurar no dia 28 e 29 de novembro, para a comunidade, a Biblioteca Comunitária Zeferina-Beiru.

Assim, os rastros arenosos dos antepassados foram retomados no quilombismo dos mutirões, na reforma; no olhar plácido da mais velha ao ver o grafite embelezando a parede; nas brincadeiras das crianças, erês inspiradores; na poesia que transpôs os anseios e as revoltas; na música, papo reto; na solidariedade comunitária para retomarmos o quilombo e fazermos a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Anúncios

Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

8 comentários em “TRAÇOS DA HISTÓRIA DO BAIRRO ARENOSO E O QUILOMBISMO DA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA ZEFERINA-BEIRU”

    1. Olá, amigo. O lendário Beiru é o arquétipo ancestral de toda comunidade. Ele fundou a territoriedade do bairro. O que aconteceu foi que em 1985 um vereador mudou o nome, colocou nas placas dos ônibus Tancredo Neves, tentando desreferenciar a população da sua história ancestral. Mas até hoje é registrado na prefeitura o nome Beiru, como sempre fora. A nomeação do bairro atualmente é Beiru/Tancredo Neves. E eu uso Beiru para resgatar e trazer à vitrine de representação a história vitorioso de um negro ancestral.

      Curtir

  1. Parabéns, que pena as escolas públicas não terem essa jóia nas mãos das crianças. Que Deus lhe abençoe e trace estratégia de difundir essa relíquia nas escolas. Abraço

    Curtir

  2. Nossa como o bairro é rico de cultura, historia e conhecimento nos dando um ar de interrogação nos dando sede de ir mas afundo na historia muito bem esta de parabéns

    Curtir

  3. Sou a yalorixa Jo d oya. Sou filha do asé Beiru. Sou iniciada no Ile axé Tomin Bokun. E fico feliz em saber que meu bisavô Rufino continua vivo na história. Como símbolo de cultura e alegria para os filhos do axé.

    Curtir

  4. Parabéns,tenho 23 anos e agradeço por compartilhar a história do bairro. carente de cultura, segurança… Essa história era para estar nas escolas do bairro.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s