Bairro São Gonçalo e o axé plantado pelos negros no Cabula

Por Davi Nunes

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Após a destruição do Quilombo do Cabula (1807) e do Quilombo do Urubu (1826), começaram a surgir as primeiras fazendas na região do Cabula, foi o começo da invasão dos brancos em terras que eram refúgio dos quilombolas, onde toda uma vivência e modos civilizatórios africanos já tinham sido construídos.  Nesse sentido, surgiu a Fazendo São Gonçalo, o que naturalmente descambou no bairro em sua modelação atual, o qual vamos tentar nesse breve ensaio trazer à vitrine escritural um retrato três por quatro da sua história.

A Fazenda São Gonçalo estava localizada no lado sul da região que é o miolo da capital baiana, o Cabula. Ela foi uma grande produtora de laranja que abastecia em fins do século XIX e início do XX toda a cidade.  As atividades com o cultivo e comércio desse produto teve fim quando uma parte considerável da fazenda foi disponibilizada para a exploração de uma pedreira, o que tornou o solo infértil para a produção. Segundo Janice de Sena Nicolin em seu livro Ecos que entoam uma mata africano-brasileira (2014) citando *Gijo (2005), afirma que a fazenda São Gonçalo abrangia onde hoje é o supermercado Bom Preço do Cabula até o bairro Pernambués.

O bairro São Gonçalo, atualmente, está situado entre a Estrada das Barreiras e a BR 324, na verdade se divide entre São Gonçalo do Retiro e São Gonçalo do Cabula. Pode-se imaginar que fora um dos lugares mais importantes para a penetração dos escravizados fugidos para chegarem ao Quilombo do Cabula, nos séculos da escravidão baiana.

Em 1910 surge no São Gonçalo uma das instituições das religiosas afro-brasileiras mais importantes, o Ilê Axé opô Afonja. Mãe Eugênia Ana dos Santos comprou, nessa época, um lote de terra e construiu o tradicional terreiro.  A Ialorixá adquiriu o terreno segundo os mais velhos da região, pois o local estava associado ao passado de luta dos quilombolas do Cabula. O solo para o templo erguido era sagrado, pois tinha os passos dos antepassados que construíram a liberdade e já plantaram o axé há muito tempo na região. Sabia que o espaço iria servir durante muito tempo como catalizador de angústias e cura das amarguras para fortalecer nas lutas contra as opressões que passam ainda o povo negro nessa diáspora de dor. Mãe Eugênia nesse espaço sagrado deu início à nação de candomblé chamada de nagô ou Ketu e seus filhos de santo e descendentes passaram a pertencer a essa nação.

O poder e saber matrilinear fundada por Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, no São Gonçalo, no terreiro Ilê Axé Opô Afonja, perpassou tradição, assentou durante a história outras mulheres no trono, como  Mãe Bada de Oxalá, Mãe senhora, Mãe Ondina de Oxalá e agora Mãe Estela de Oxóssi. Assim, no bairro São Gonçalo há uma articulação secular onde as mulheres negras influíram e influem na dinâmica do bairro, pois foram edificadoras da tradição e da força que é muito bem sintetizada na existência e poder de Mãe Estela de Oxóssi.

Outro fator interessante que se liga a todo Cabula, mas especificamente ao São Gonçalo do Retiro também, é o surgimento do primeiro transporte coletivo, o bonde que ligava o Cabula a Barroquinha. Esse bonde – que surgiu entre 1920 e 1925 – subia a ladeira do Cabula e quem o perdesse tinha outra opção: pegar o próximo que tinha seu fim de linha no Retiro.

A arqueologia do São Gonçalo hoje é como a de qualquer bairro periférico de Salvador: densidade demográfica, multidimensionalidade de linguagens e ritmos, jovens com aspirações e sonhos, mas ligados na dinâmica frenética do genocídio estruturado pelo estado. Muitos descendentes dos antigos quilombolas que ainda permanecem – devido à força do Ilê Axe Opô Afonja – religados à sua raiz anímica, a ancestralidade. O bairro nesse sentido possui tradição, possui signos que são poderes, que dão sentidos aos novos para se conectarem com a história de luta dos antepassados, para continuarem lutando nessa terra desassossegada para conseguir a transformação.

 

 

*Gijo (2005), na época era um filho do terreiro Onzo Nsumbo Tabula Dico a Meiã Dandalunda,  mais conhecido como Terreiro São Roque, no Beiru.

 

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta,  contista e escritor de literatura infantil.

 

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Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

2 comentários em “Bairro São Gonçalo e o axé plantado pelos negros no Cabula”

  1. Obrigada pelo belo texto, uma excelente oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a nossa história africanobrasileira e sobre o São Gonçalo do Retiro, assim como a ancestralidade africana materializada no Ilê Axé Opô Afonjá.

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