Cabeça de Zumbi

Por Davi Nunes

pintura-africana

Madrugada. Um bater “parkinsioso” e raivoso na porta do quarto. A cabeça que, em repouso de entressono, não consegue se virar a perceber os vultos, em circulações anímicas e escatológicas, pelos quatro cantos do aposento. Um urgir, com hálito de epiderme humana no Ouvido-da-cabeça, estronda: HUUAAURRR. O bater “parkinsioso” e raivoso na porta se intensifica. A Cabeça vira, enxerga os vultos. A Boca-da-cabeça pergunta: quem é? A boca-da-madrugada é o caixão dos demônios, o caixão do subterrâneo humano. quem é? Diabos, miados do inferno, lobisomens que só enxergam o que está em suas costas, vampiros, zumbis. quem é?  O hálito de carne humana se encrosta em todos os objetos do quarto tenebroso, e um odor amarelo, encrespado em maldição, envolve com morte todo o recinto. O Olho-da-cabeça vacila. Seriam impressões hollywoodianas de filmes de terror, fazendo aparecer criaturas horripilantes no inconsciente?  Mas o odor, o bater assombrador na porta… O urgir já avulta rostos, com sangue a escorrer pela boca, das trevas do quarto e os ocultam de novo como um vírus a buscar as melhores condições para uma incubação mortal.

A Cabeça já se revira em epiléticas expressões monstruosas. (o vírus) A escuridão deforma os homens e as coisas se assombram em colorações de outro mundo. (desespero) A Boca-da-cabeça fala: me deixe em paz. Sei o que vocês são. Eu não deveria ter voltado para essas terra maldita. A Cabeça para. O Olho-da-cabeça se fecha, em temor aterrorizador, com as criaturas que apareciam da opacidão fúnebre do quarto, em flashes horripilantes. (zumbis?) Gritos agônicos se assomam ao bater à porta. Um flash dark e uma baba de sangue, saída da cova do inferno, pinga na testa da Cabeça, gelando-a com o frio das profundezas. (zumbis!) Não deveria ter voltado para essas terras desgraçadas.

A Cabula sempre despertou, com os seus tambores mágicos, os espíritos que ajudaram na luta contra os antepassados escravocratas (DA CABEÇA EM DESESPERO) e transformaram em zumbis os capatazes que os serviam… Os sacerdotes negros os amaldiçoaram a serem zumbis a expulsarem todos que tiverem a mão banhada pelo sangue da escravidão. A Cabeça levanta a sua mão ao Olho e enxerga-a banhada de sangue. Socorro! Os cachorros latem. O vento zumbe um zumbido de morte. Um toque de tambor ganha um tom a estremecer as almas dos dois mundos, a preencher todo o quarto.

Um espelho se avulta no meio do quarto. Gritos agônicos saem de dentro dele. Existe uma turvosidade temerosa, secular, embasando-o. As cenas vão se aclarando ao arregalar do Olho-da-cabeça aos poucos. Apresenta-se um casarão do século XIX, uma casa grande, toda entrecortada por portas e janelas azuis, com árvores que deitavam, em seus telhados de barro arenoso, as folhas secas, que constituíam um marrom sombrio. Dentro deste casarão, sentado numa cadeira de balanço, escura como a cor da madrugada, se encontra um Velho Branco muito calvo e de olhos arregalados, olhando para o horizonte, pressentindo, temeroso como uma ovelha a sentir o espumar carnívoro dos lobos famintos, o derradeiro fim mefistofélico da sua vida maldita. Eles estão chegando, vão cobrar a conta do mal que lhe fiz. Eles estão chegando! Balançava a cadeira freneticamente, que produzia ao ouvido um som, um ronronar agonizante de madeira carcomida pelo cupim derradeiro do tempo. Estão ansiosos pela minha carne velha. Desgraçados!

Além deste velho, se encontra na casa um senhor, fidalgo de botas esfarrapadas pelos novos tempos, filho do Velho Branco em temor, olhando, ao tragar extasiado um charuto do recôncavo, a sua filha, que parecia em palidez quase doentia com uma dessas musas, de suicidas poetas ultrarromânticos, a tocar uma missa fúnebre ao piano, o Réquiem em Ré menor de Mozart.  Num sofá, em um canto opaco da casa, se encontra outra mulher, vestida de preto com olhar lutuoso para um retrato antigo de um homem com chapéu em comprimento cavalheiresco. Em uma alcova da casa, outra filha do fidalgo, tocava-se excitada ao imaginar o homem da lavoura invadindo fervoroso o seu sexo.

A Cabeça, olhando o espelho tenebroso, escuta os seus gemidos mais sádicos em gozo ressoante de mais de um século atrás. Por trás da portinhola da porta um olho de criança a olha; mas não vê o olho da sua mãe, a mulher do fidalgo a observá-lo. O réquiem ganha os seus tons agudos, junto com o gozo solitário da moça. O olho da criança ganha projeções adultas, a sua mãe estática o observa, a pianista toca com mais espasmo de inspiração; o charuto do fidalgo já exaure pela metade, enquanto a sua alma vibra delirante com a música; a mulher vestida de preto, rente ao retrato, entorna lágrimas a formarem rios pela sua face mórbida; o Velho Branco se balança animicamente: eles estão vindo, eles estão vindo. O Olho-da-cabeça se desespera. Em “aterrorizantes Flashbacks” essas cenas vão se reproduzindo: (…) o gozo solitário da moça, o olho da criança, a sua mãe estática, a pianista, o fidalgo, a mulher de preto, o Velho Branco (…) etc, etc etc. Todos esses flashes imagéticos fazem com que o Olho-da-cabeça se aperte, tentando parar o movimento assombrador.

Um minuto. O olho-da-cabeça se manteve, assim, lacrado nas trevas do seu sinistro interior. Ele parecia menos assustador do que o quadrado fechado do seu quarto opaco.  Depois, abriu-se lentamente, clamando, para ser despertado de um pesadelo terrível. O espelho se apresenta implacável à sua visão. O olho-da-cabeça observa o mesmo cenário em sua frente: um casarão do século XIX todo entrecortado por portas e janelas azuis, com árvores que deitavam, em seus telhados de barro arenoso, as folhas secas, que constituíam um marrom todo sombrio. A Boca-da-cabeça atormentada diz: isso não deve ser real. Já dentro do casarão todos escutam os atabaques que ribombam da mata escura. O Velho Branco: eles estão vindo. A Pianista, dedilhando com mais densidade: estão vindo? A mulher vestida de preto com o retrato abraçado ao peito: que venham e me levem para o meu amado. O Fidalgo temeroso: desgraçados. A mulher estática, a criança, a moça excitada: …!….?….^…………….

Na boca da mata: o Sacerdote Negro, em ritual vodu, feitiço espalmado na palma da mão, sopra a magia dos dois mundos, transformando os capatazes e capitães do mato em zumbis amaldiçoados a comerem a carne dos seus senhores.

Os tambores davam o ritmo da marcha zumbi ao casarão. O Velho Branco já enxerga os seus vultos do horizonte das trevas da mata, em seguida observa os calos dos açoites em suas mãos que constituíram toda a sua existência e fortuna. O Sacerdote Negro, solta uma gargalhada que entoa por toda mata Cabula. A casa vai sendo arrodeado pelo rosnar zumbi. O Velho Branco já cai, em balanço frenético, da cadeira. Vamos morrer. A criança do olho adulto corre para ajudá-lo com a sua mãe que o olhava. A musa doentia no piano parecia que iria tocar até a eternidade. A moça da alcova se contorcia ainda em seus arrepios langorosos. Sentia que seria o seu gozo derradeiro. A gargalhada do Sacerdote Negro adentra toda a casa. O Fidalgo medra, mas empunha a sua arma.

Os zumbis batem na porta da casa grande, era o mesmo bater “parkinsioso” que ocorria na porta do apartamento do quarto luxuoso da Cabeça assombrada.  Invadem a alcova da menina em último gozo, que grita ao sentir as mordidas frias dos zumbis a dilacerarem todo o corpo. Por todos os lados eles entram, acurralam, em bocas espumantes de sangue, todos os temerosos moradores. O Fidalgo tenta fugir, agarram-no e, em milhões de mordidas de lobos, devoram toda a sua existência. Os zumbis sobem em cima do piano, as gotas de sangue caem sobre as teclas, a musa ultrarromântica não para de tocar, comem-lhe as mãos. Ela grita em desespero. Os tambores são entoados com maior intensidade. E os zumbis alimentam-se de sua arrogância clássica. A mulher vestida de preto se despe toda e o seu fim chegou rápido com uma mordida no peito, arrancando-lhe o coração. A mãe e a criança tentam fugir, são acuadas e as suas vidas são corroídas pelo paladar antropofágico dos zumbis. Agora os olhos de todos os zumbis se voltam para o Velho Branco, a gargalhada do sacerdote ganham os assombros vingativos. Os zumbis o envolve num circo sepulcral, o Velho sente as gotas dos sangues que caem de suas bocas, cobrindo todo o seu corpo. Era o sangue dos seus entes, que tinturava a sua roupa de morte agora.  Um rosnar junto com uma mordida lhe fere a barriga. Miseráveis. As mordidas se sucedem na simultaneidade das dentadas zumbis. Mise… Comem-lhe a língua, destruindo a sua existência amaldiçoada.

O Olho-da-cabeça enxerga o Sacerdote Negro agora, franzindo todo rosto, em ódio secular, apontando-lhe um cajado e falando, em sua língua nativa, algo que não precisava de tradução, mas, que, pela explosão das ondas sonoras de suas palavras ao Ouvido-da-cabeça e o espalmar do seu corpo ao arremessar o objeto encantado, quebrando em milhões de pedaços o espelho, deduzia-se: eram impropérios poderosos que fizeram os zumbis do quarto opaco invadirem o interior da Cabeça amaldiçoada. A Boca-da-cabeça fala desesperada: saiam da minha mente, sairei desta terra, não tenho culpa do que os meus antepassados fizeram. A Cabeça sente o rosnar e as dentadas dos zumbis lhe corroendo o cérebro: me perdoem. As dores vão ganhando tensões infernais a cada mordida: me perdoem. A gargalhada do Sacerdote Negro, os tambores, o bater na porta: não tenho culpa. A Cabeça sente a sua alma sendo puxada às profundezas do inferno a cada dilaceração do seu cérebro. Grita: AAAAAAAAAAAH. Entra no obscuro profundo da existência e desperta ao ver atônito a materialidade do seu corpo. Apalpa. Pernas, tronco, braços e cabeça. Diz pra si: foi só um maldito pesadelo. Vai até a janela, observa a suntuosidade do seu prédio Cabula, avista ao longe o horizonte esplendoroso do mar. Foi só um maldito pesadelo. Sorri. Enxerga ainda um traço da mata antiga. Sente aí, sob os pés, o entranhar fino, lento e doloroso: era os cacos de vidros do espelho quebrado por todo o quarto. Depois escutou uma voz, que lhe deixou com a alma estática em terror: vá embora daqui. Era um ribombar fônico de tambor, do Sacerdote Negro, saído das entranhas desesperadas da sua cabeça de zumbi.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta,  contista e escritor de literatura infantil.

 

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Publicado por

Davi Nunes

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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