KEMET

Poemas publicados na Coletânea poética Enegrescência (2016)

Davi Nunes

ilustracao-zozimo-3                                                                            Ilustração Stefany Lima

 

I

Uma mão medonha de algum deus branco

aperta – em espremer maldito de dor –

a minha cabeça.

Crava digitais de fel e horror

nas paredes esqueléticas do meu crânio.

Esbraveja maldições e emparedamentos,

comprime até as veias estourarem

no meu rosto o sangue da desesperança.

Sugere-me: suicídio. E ri loucamente

com seu eco sinistro de cientista

das amarguras universais.

Grito a irromper com as minhas ondas

de desespero o mistério do buraco negro,

olho para o totem ancestral e rogo-lhe uma arma.

Escuto o tambor e sinto que sou um deus de Kemet

posso agora estourar com o fogo do cano-de-aço

a cabeça-monstro do meu algoz.

 

II

Um demônio em pele de fantasma

com a palidez ártica das cavernas

tem uma arma apontada para mim

Tem uma arma apontada no meu peito

um demônio em pele de fantasma

com uma inveja espumada em ódio

que não ri

Um demônio com farda de fantasma

com uma inveja espumada em ódio

tem passos de botas e uma arma engatilhada

para meu fim.

 

III

Talvez eles queiram com os seus olhares de maldições

que os meus ossos se diluam

virem pó

que minha pele fique flácida

como um saco plástico

como seus rostos pálidos

ao me ver passar

não podem apagar a luz do corpo de um faraó

não podem parar a edificação da pirâmide

que irá soterrá-los.

 

IV

Eu tive a cabeça da faraó aconchegada em ternura de amor sobre o meu peito

beijei o veludo delicado do seu cabelo

percorri com os olhos de amante a beleza azeviche do seu corpo

fui feliz.

 

V

Vi por um buraco de bloco

no meu gueto, no Cabula,

Kemet grandiosa

Vi o portal ancestral

de Kemet se abrir

Vi um exército de homens com peles frias e pálidas

com canhões apontados para Kemet

Vi o Deus Amon-rá gritar guerra para esses homens

eu vi.

 

VI

A profecia irá se cumprir

– afã e poder dos deuses –

nesse mar de angústia e atrocidades

obeliscos, esfinges e pirâmides

serão de novo levantadas

Faraós se reergueram do Vale dos Reis

e eu já sou Ramsés II encarnado

um pedaço de sol sobre a terra

nos guetos de Salvador.

 

VII

Há três mil anos antes de cristo

1280 quilômetros ao fim da fronteira de Kemet

no sul da Etiópia

eu era grande

um escriba-poeta

observando o Nilo miraculoso em sua glória

eu era grande

um gênio numa civilização melanodérmica

a sonhar com cem pirâmides gigantescas

eu era grande

e imortal como um deus.

 

VIII

Meu corpo estava dentro do relicário

no Vale dos Reis

não havia interferência dos homens gelos

na minha morte

No Vale dos Reis

virava deus-eterno

Agora sob o teto quente dessa casa

no gueto

Há a interferência dos homens gelos

na minha morte

e não existe mais o relicário

a me guardar.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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