OS SACERDOTES E SACERDOTISAS DA ESPIRITUALIDADE BANTO DO ANTIGO BEIRU

Por Davi Nunes

RUF

A religiosidade banto no Beiru do século XX, bairro localizado na região do miolo da Cidade do Salvador-Ba, o Cabula, foi estro de tambor e de espiritualidade alargada nos movimentos do corpo. A raiz era forte, era de massanganga e do Tumbensi. Era cerimônia africana que se fazia ao redor das árvores sagradas, a exterioridade ancestral do povo Muxicongo que passava o àse a todos os vunjis, malungos e malungas da região. O poder era forte. Fazia gambé se aquiescer em sua fraqueza espiritual, por isso sucedo aqui como dizem os iorubás com o agó humildemente pedido para traçar algumas linhas sobre o panteão de religiosos importantes (Miguel Arcanjo, Maria Neném, Manuel Ciriaco e Manuel Rufino) que estenderam/fundaram a espiritualidade banto na localidade.

Miguel Arcanjo de Souza, dijina Massaganga de Cariolé do Santo Amuraxó, cuja travessia à Aruanda – segundo relatos da oralidade – o boca a boca atemporal, ocorreu com 81 anos, no ano de 1941, foi um tata (babalorixá) do candomblé banto. Ele era originalmente da nação extinta, Angola Tapuia, de maneira que se mudou para a nação Angola Muxicongo.

Em 1910, Miguel Arcanjo comprou a Fazenda Beiru, a antiga Fazenda Campo Seco, dos Hélios Silva Garcia, escravizadores do homem nigeriano, Gbeiru, que conseguiu de maneira estratégica as terras e a liberdade ainda no século XIX. No entanto, após a sua morte, em fins deste mesmo século, os Garcias recuperaram as terras e, em 1910, Miguel Arcanjo conseguiu comprar a fazenda, como se pode ver na certidão de compra e venda no livro Beiru, lançado pela Associação Comunitária Mundo Negro. E já em 1912 Massaganga fundou a Nação de Amburaxó e o importante Terreiro de Massangua.

A Nação de Amburaxó de acordo com os mais antigos se caracterizava por realizar as cerimônias religiosas ao redor das árvores sagradas e isso é só um átimo de muitos mistérios que a envolve e que pouco alcançamos.  Além disso, o Terreiro de Massangua se localizava – pode se estimar a extensão minimamente aqui – onde é hoje, no Beiru, o Terreiro São Roque, a 11º delegacia da polícia e os seus arredores.

Maria Nenem I

Outra sacerdotisa importante no Beiru foi Maria Genoveva do Bonfim, Maria Neném, dijina Mametu Tuenda dia Nzambi, nascida no Rio Grande do Sul, em 1865, e feito à travessia para Aruanda em Salvador, no ano de 1945. Ela foi uma grande matriarca fundadora do primeiro candomblé angola no Brasil, o Tumbensi, e através dessa raiz poderosa se originaram vários outros terreiros de candomblé da nação angola, são eles: Terreiro Tumba Junçara, Terreiro Bate Folha, Terreiro Tanuri Junçara e vários outros na Bahia e no Brasil.

O terreiro de Maria Neném, o Tumbensi, dizem os mais os velhos da religião que se localizava de frente para o de Miguel Arcanjo. Os dois eram amigos e vizinhos, dividiam o segredo do pó da raiz de amburaxó, que fechava o corpo com o bem cuidado das folhas e raízes.

Ciriaco dijina Ludiamungongo

Também admirável religioso foi Manoel Ciriaco de Jesus, dijina ludyamungongo, junto com seu irmão Manoel Rodrigues do Nascimento, dijina Kambambe, os dois iniciados pela sacerdotisa Maria Neném, fundaram em 1910 o Terreiro Tumba Junçara em Santo Amaro, no recôncavo da Bahia. Mas após algum tempo se transferiram para o bairro Beiru e junto com Maria Neném, Miguel Arcanjo contribuíram na região para o crescimento da espiritualidade do candomblé angola.

Rufino

Outro poderoso sacerdote, Manoel Rufino de Souza, dijina Omin da Samba, que fez sua travessia para a Aruanda, no ano de 1973. Estimasse com 85 anos. Levou o candomblé angola a ser mais conhecido. Ele foi filho de santo do Tata Miguel Arcanjo e um religioso famoso, muito poderoso com o seu terreiro Àse do Beiru. O seu poder era transposto em várias dimensões na religião, era sábio e alquimista com o pó da raiz amburaxó, preparado com folhas, raízes e ingredientes que erigiam força e cura para o seu povo.

A espiritualidade banto espraiada por todos esses sacerdotes e sacerdotisa, além de muitos outros, outras, faz quilombo ainda em nossas cabeças e corações no Beiru. Ainda são vários os templos que mantém seus ensinamentos. É horizonte que nos liga a uma memória e sociabilidade africana no bairro, há uma ancestralidade que nos reergue poderosos(as) todos os dias, pois é sagrado as nossas vidas, é sagrado o àse.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, do site de cultura Norte Americano, Cores Brilhantes, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

A mirror of false reflection that doesn’t fit our image, the word is not amor (love), it’s dengo

Black Women of Brazil

A palavra não é amor, é dengo

Note from BW of Brazil: As we continue to try to re-construct our realities as African peoples stolen from our lands, we must deal with the multiplicity of methods that the colonizer used to conquer our beings, essences and very souls. One of those methods that is often overlooked is the simple usage of the language we were taught to use in the new lands to which we were transported and how these foreign tongues often cannot sufficiently describe our experiences, memories and ancestral ties as a people. Below, Davi Nunes explores the usage of a term that supposedly describes a universal sentiment and how its imposition on a people is yet another mismatch in our experience. 

The word is not amor (love), it’s dengo.

By Davi Nunes *

Portuguese, the language imposed by the colonizer, even after centuries of use, is an imperfect fit in our ori, in the

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CHAMEGO: AFETO ANCESTRAL QUE CHEGOU COM OS POVOS BANTOS NO BRASIL

 

Por Davi Nunes

shona-banto

A transposição do sentimento africano para o Brasil ocorreu muito através das línguas que eles trouxeram para cá. A língua como revestimento sensível da nossa humanidade, transposição dos laços profundos do coração, da ancestralidade afetuosa que resistiu às atrocidades transatlânticas – absurdas ações que duraram séculos. Dois continentes e um mar tingido de sangue, não foram suficientes para destruir a beleza dos sentimentos originários dos diversos povos africanos que chegaram por essas terras.

Os povos bantos, assim, foram os primeiros a chegarem nesse país. De maneira que as línguas da raiz banto: Quimbundo, Quicongo, Umbundo, entre outras influíram de forma substancial na formação do  português brasileiro, conseguiram influenciar nas diversas estruturas do idioma e colocaram na vitrine da fala e escrita signos que nos religam a uma maneira de sentir e pensar africano, que permaneceu e permanece na nossa forma de demonstrar afeto e saber.

Assim, uma das palavras que está dentro dessa raiz estruturante na constituição do português, ou “pretoguês” brasileiro (a qual me atenho aqui) é a palavra “chamego”, ou mais africanamente escrita “xamego”.

O chamego é um sentimento de atração – repuxo civilizatório ancestral íntimo – de negrxs que veio com os povos bantos da África e ganhou campo fértil no Brasil. É lastro de afeto que compõe o ser, é o galanteio e o bem-querer que se bem feito se chega ao xodó para daí se construir o dengo.

Talvez pode se equiparar com a paixão, mas a paixão na cultura ocidental funciona mais como um desalinho dos sentidos, que pode pender para algo bom ou ruim. Entre a tragédia e a benevolência a linha é tênue. Diferente do chamego que é alinho manhoso dos sentidos. É sublimação positiva dos sentimentos. É alinhamento ancestral.

Estar de chamego com alguém é estar preocupado em encantar a pessoa do nosso desejo, há poesia e flerte libidinoso nisso, não é sentimento murcho, preenche a existência. O chamego é força propulsora de beleza, é o religamento dos continentes afastados, que se manifesta no frio que esquenta o espírito a eriçar os pelos.

Além disso, pensando de maneira mais macro, o chamego nas relações familiares e quilombolas é uma prática social de restabelecimento do ser. Se a escravidão e o racismo trouxeram e trazem o banzo – dor e resistência – o chamego cura, reestabelece, dar sentido onde tem desespero. Faz com que se vislumbre o dengo e resista às intempéries estruturais que nos assola no mundo.

Por isso, antes do dengo tem o chamego. Tem que saber “chamegar” para arar o terreno da afetividade na manha, assentar o xodó, fluir de peles, prazeres e fertilidades, entrelaçar corações para erguer de forma suprema o dengo.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

 

47 anos da morte de João Cândido: Herói Negro na Revolta da Chibata

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Por Davi Nunes

Ha 47 anos, 6 de Dezembro de 1969, morria João Candido, o herói negro da Revolta da Chibata. João, mais conhecido Almirante negro, nasceu em 1880 no Estado do Rio Grande do Sul.

O mar para ele era a imagem que compunha aos seus olhos o que se poderia chamar de liberdade. Falo do mar, não da marinha. Essa era grilhão e açoite.

Quando o Almirante negro entrou para Escola de Aprendizes Marinheiros de Porto Alegre, aos 15 anos, depois viajou para o Rio de Janeiro e viu pela primeira vez o mar – horizonte líquido estendido a um esplendor tão grande que se cruzava em seu ponto mais universal e cósmico com a ponta do céu – ele logo se deitou aos seus pés e pediu axé e saber a Iemanjá.

Assim, aos 21 anos, fora promovido a marinheiro de primeira classe e dois anos depois, em 1903, foi promovido a cabo-de-esquadra, sendo depois rebaixado por ter levado, introduzido no ambiente de opressão, que se assemelhava ainda aos tumbeiros da escravização, um jogo de baralho.

Trabalhou na marinha brasileira com protagonismo durante 15 anos, viajou por vários países, agregou em si saberes e culturas que não mais permitiu se submeter às opressões e racismo estruturante da Marinha brasileira.

A punição que acontecia, principalmente aos marinheiros negros, era: por alguma falta leve (poderia ser qualquer distração) prisão a ferro na solitária – cincos dias a pão e água, e faltas (nos critérios deles graves) 25 chibatadas no mínimo.

Por isso em 1910, não só por isso, pois João sabia que era necessário – mesmo já “abolida a escravidão” – a qual os seus pais, João Felisberto e Inácia Cândida Felisberto foram vítimas, lutar para a libertação do seu povo. Era preciso liderar 2400 marinheiros contra as imprecauções racistas da marinha. E fez. Enfrentou os autos escalões brancos da marinha. Ameaçou, para ter os seus direitos conquistados, bombardear a cidade do Rio de Janeiro, lutou heroicamente com todos os seus companheiros, organizaram motins, batalharam e resistiram até o fim.

João Cândido e seus companheiros conseguiram acabar, por  fim aos castigos corporais, quebrou as chibatas que cortavam a carne dos marinheiros negros pelas mãos dos oficiais brancos, no entanto fora expulso, renegado da marinha, vindo a trabalhar como timoneiro e carregador em algumas embarcações particulares, tendo depois a sua morte social decretada, pois fora demitido de todos os serviços da marinha por intervenção de oficiais do dito alto-escalão.

Viveu firme, altivo até o fim de sua vida. Conviveu com a perseguição da marinha, com o banzo da morte de sua primeira esposa, Marieta Cândido; o suicídio da segunda, Maria Dolores Vidal, e depois de dez anos dessa tragédia, ocorreu à terceira, o suicídio de sua filha. Levou uma vida de heroísmo e tragédias, fora carcomido pelo racismo e pobreza, faleceu na Cidade do Rio de Janeiro, em 06 de dezembro de 1969.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

A palavra não é amor, é dengo

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Por Davi Nunes

O português, a língua imposta pelo colonizador, mesmo depois de séculos de uso, é encaixe imperfeito no nosso ori, no mutuê. É palavra presa na língua. É a língua represa nas palavras que nos desencaixam como ser no mundo. Roupa que vestimos e não cabe confortável no nosso corpo. Falo especificamente da norma padrão, a musa esquálida e pálida, a torre de marfim que é campo de concentração linguístico para torturar e dissolver gramaticalmente o nosso corpo-língua ancestral.

Observo que os nossos afetos, sentimentos transpostos através das palavras, terminologias, nomenclaturas organizadas historicamente pela hegemonia branca para nos dominar – a língua como um ferro quente na boca – demarca o lastro terrível da escravização e racismo, não pode servir como elemento simbólico, signos, para representar as formas de afeto que ocorrem entre negros e negras.

Penso que a palavra amor tão consagrada pela cultura ocidental desde a “Antiguidade Clássica” não tão clássica e antiga quanto às clássicas civilizações melanodérmicas e ancestrais, berço de tudo, seja uma dessas. A palavra amor para nós negrxs é espelho de reflexo falso, não cabe a nossa imagem nela, que é profusão humana e beleza que extrapola a sua lógica.

A palavra amor se articula no mundo branco como pré-ódio, exemplo: primeiro invadem outras nações, cometem as mais atrozes barbáries, depois contemporizam com seus tratados filosóficos, religiões, mitos, literaturas que azorragam a ideia de amor, a flor maior dos sentimentos humanos segundo eles, para construírem uma sanção positiva das suas humanidades derreadas e exercerem tranquilamente o poder sobre os outros povos. A palavra amor assim é um embuste de algo sublime que funciona para eles, pois possui uma função objetiva: criar conforto diante das suas quimeras mais profundas.

Para nós, negros, ela não funciona, é espelho falso e reflexo bifurcado tragicamente, é desencaixe cognitivo e afetivo, sofisma que nos adoece, ilusão fantasmagórica que não alcançamos e não comunga com a extensão abissal de nossos sentimentos, pois desde o início estamos além. É um signo que não comporta a densidade e beleza significativa da nossa afetividade, do nosso sentir. É o desencaixo no coração, okan, e na cabeça, ori.

A palavra que dá conta de acoplar a nossa afetividade, no caso do Brasil, de abarcar a batida mandingueira do nosso coração, da magia e poesia do encontro ancestral de negros e negras, é a palavra de origem banto da língua Quicongo, totalmente inserida na variação do português falado principalmente por negrxs chamada de dengo.  Óbvio que falo aqui do dengo em seu sentido mais profundo e ancestral, o supremo dengo. Não da significação subscrita nos dicionários brancos, que apequena os sentidos das palavras de origem africana.

O dengo durante toda a história de escravização, favelização e racismo nessa diáspora de angústia, o Brasil, foi o instante eterno de libertação expressado num simples aconchego de esperança no desconforto cotidiano. A união dos corações em sublimação ancestral, o oriki que arrepia os pelos, pois ecoa por todo o corpo o axé e o poder dos orixás. Os olhos que se entrecruzam e se fixam, pois há de haver o beijo, supremo dengo, libelo de libertação expresso no gesto. Os corações que se entrelaçam para fazerem o “corre” do quilombo intimo e movimentar os outros mocambos para construir o grande quilombo. A humanidade que se reconstrói depois de se diluir através do racismo das grandes metrópoles em frenesi no sorriso da companheira(o) no encontro sagrado depois da batalha enfrentada. O reencontro dos continentes afastados através de um juntar manhoso de faces azeviches a formarem destinos.

A palavra dengo é signo portentoso e conjuga em seu interior a palavra chamego, é a família preta em celebração do quilombo íntimo, é a África na origem, o sopro da criação original no ouvido a trazer placidez e beleza ao coração.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

A palavra mocambo e os dicionários brancos

Por Davi Nunes

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O dicionário é o inventário dos signos, a vitrine escritural onde as palavras eleitas estão à vista como roupas sofisticadas nos mostradores dos shoppings centers. Talvez seja isso mesmo, mas nem tanto. Nunca gostei muito das palavras de origem africana no dicionário dos brancos: significados e significantes carcomidos pelo enredar do racismo. Nosso corpo-palavra destroçado por abutres com óculos e títulos a deixarem só ossos, sangue e miséria no terreno das nossas significações.

Falo isso porque sempre gostei de uma palavra, não lembro nitidamente quando foi que a ouvi pela primeira vez, acho que foi com minha falecida avó, Xanda, ela estando na casa da minha mãe, Maria, falou: “Quero dormir no meu mocambo” e me chamou para levá-la à sua casa. A palavra mocambo ressoou nos meus ouvidos com tanta intimidade e poder que pude senti-la por todo o meu corpo e pude conceber toda a sua significação naquele momento.

Talvez aí surgiu o poeta, o estro original que compõe todas as demais inspirações. Pode ser. Entendi logo: o que ela falou para minha mãe não poderia ser pronunciado com a palavra casa, era um vocábulo fraco, deslocado, não cabia em sua morfologia, em sua sintaxe, em sua fraseologia afetiva e mágica. Mocambo para vovó era o quilombo íntimo, onde os filhos e os netos lhe rodeavam, e poderia estender toda a sua zanga, dengo e saberes, ordenando só com o olhar a dinâmica do lar, que se alargava à comunidade e tudo isso compunha toda uma forma de organização matrilinear.

O mocambo era palavra poderosa saída da boca da minha ancestral, tinha substância vivencial, mas quando fui ler seu significado no dicionário, aprendi que as leituras desses verbetes, mefistofelicamente, poderiam derrear os meus saberes. Como eles poderiam querer desfazer, matar o significado de tudo que havia aprendido com a voz da minha mais-velha? Como poderiam dizer que mocambo significa habitação miserável, palhoça, coutos de escravos fugidos, e se fosse adjetivo era: sem-valor, pífio? E várias outras definições que colocavam na subalternidade das significações a palavra mocambo, signo de poder evocado na pronuncia da minha avó.

Os dicionaristas haviam pegado as palavras na boca dos meus ancestrais e sofismado seus significados. Há de se perceber sempre as nuances de como eles nos ferra. Sei que o homem e a mulher escravizado(a) que queimou o engelho, matou o escravocrata, o feitor, entrou no profundo da mata, fez  o Quilombo dos Palmares, fez o Quilombo do Cabula, do Urubu, do Buraco do Tatu e tanto outros por esse país sabia, como a minha vó, que o mocambo era o nosso espaço redivivo de uma África já distante, o lar onde erguemos  pela primeira vez nessa terra o nosso assento de repouso, a nossa íntima liberdade.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Babilônia: entre Beiru e Engomadeira fora mocambo de guerreiros ancestrais

Por Davi Nunes

Torre de Babel

Esse trecho de Apocalipse – 18.16:19 “Ai! Ai! da grande cidade,… porque, em uma só hora, foi devastada!” – falando da destruição da Babilônia, dá conta de muito que vou descrever aqui. Visto que num só dia (19/07/2016) um jovem foi morto, uma criança de 2 anos e uma mulher foi baleada por ações impetradas pelo estado sanguinolento da Bahia, cuja cor negra a vestir a pele tem que ser também tingida com o sangue da morte, é a lógica macabra do genocídio e foi isso que ocorreu na Babilônia, um local que se encontra entre os bairros Engomadeira, Beiru/Tancredo Neves e Estrada das Barreiras, no miolo cidade do Salvador, o Cabula.

O local está onde hoje é um vale preenchido de casas com telhas de Eternit, lajes e blocos nus. No passado, segundo relato de um amigo morador da comunidade: ele ouviu de um mais velho que a região era habitada por uns homens e mulheres negras que não se misturavam e eram descendentes diretos de Beiru, homem nigeriano que veio escravizado na primeira metade do século XIX para Salvador e conseguiu a liberdade e terras. Eles viviam da agricultura, além da caça, pesca e da colheita de frutas, visto a imensidade de árvores frutíferas que existiam na região, além do rio que hoje é esgoto e divide o bairro Beiru e Engomadeira.

Óbvio que reconstruímos isso tudo através dos fios tênues da oralidade, os quais vão chegando no ouvido e vamos tentando transfigurar em escrita, pois como nos diz Hampatê Bâ, pensamento e fala não se contradizem, tem que ser um fato verdadeiro  e documental. Assim vamos como bibliotecas vivas transpassando saberes, tradições e histórias através das gerações.

A violência que atinge os moradores da região não fora porque desafiaram algum deus construindo o zigurate de Babel para alcançarem o céu, ela existe porque desde a escravização à favelização atual, ela fora a pedra de toque, o escopo de uma (como fala Achille Mbembe) necropolítica secular.

E o movimento que se arvora paralelo na comunidade não se reveste em ações para colocá-la como sujeita da construção de um novo porvir; ver-se imbuída, ou é arquitetada pelas próprias frechas assassinas do estado a nos criminalizar e fazer da gente corpos matáveis.

Sei que o espírito transformador ainda existe, está lá desde os primeiros habitantes quilombolas, ainda estamos em busca de um método, buscando o jeito para fazer com que toda a nossa potencialidade ganhe grande proporções, nos una como um povo para além da primeira ação de revolta à violência, que o principio dos ônibus atravessados na rua de descontentamento possa se tornar algo poderoso e transformador.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil