A palavra não é amor, é dengo

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Por Davi Nunes

O português, a língua imposta pelo colonizador, mesmo depois de séculos de uso, é encaixe imperfeito no nosso ori, no mutuê. É palavra presa na língua. É a língua represa nas palavras que nos desencaixam como ser no mundo. Roupa que vestimos e não cabe confortável no nosso corpo. Falo especificamente da norma padrão, a musa esquálida e pálida, a torre de marfim que é campo de concentração linguístico para torturar e dissolver gramaticalmente o nosso corpo-língua ancestral.

Observo que os nossos afetos, sentimentos transpostos através das palavras, terminologias, nomenclaturas organizadas historicamente pela hegemonia branca para nos dominar – a língua como um ferro quente na boca – demarca o lastro terrível da escravização e racismo, não pode servir como elemento simbólico, signos, para representar as formas de afeto que ocorrem entre negros e negras.

Penso que a palavra amor tão consagrada pela cultura ocidental desde a “Antiguidade Clássica” não tão clássica e antiga quanto às clássicas civilizações melanodérmicas e ancestrais, berço de tudo, seja uma dessas. A palavra amor para nós negrxs é espelho de reflexo falso, não cabe a nossa imagem nela, que é profusão humana e beleza que extrapola a sua lógica.

A palavra amor se articula no mundo branco como pré-ódio, exemplo: primeiro invadem outras nações, cometem as mais atrozes barbáries, depois contemporizam com seus tratados filosóficos, religiões, mitos, literaturas que azorragam a ideia de amor, a flor maior dos sentimentos humanos segundo eles, para construírem uma sanção positiva das suas humanidades derreadas e exercerem tranquilamente o poder sobre os outros povos. A palavra amor assim é um embuste de algo sublime que funciona para eles, pois possui uma função objetiva: criar conforto diante das suas quimeras mais profundas.

Para nós, negros, ela não funciona, é espelho falso e reflexo bifurcado tragicamente, é desencaixe cognitivo e afetivo, sofisma que nos adoece, ilusão fantasmagórica que não alcançamos e não comunga com a extensão abissal de nossos sentimentos, pois desde o início estamos além. É um signo que não comporta a densidade e beleza significativa da nossa afetividade, do nosso sentir. É o desencaixo no coração, okan, e na cabeça, ori.

A palavra que dá conta de acoplar a nossa afetividade, no caso do Brasil, de abarcar a batida mandingueira do nosso coração, da magia e poesia do encontro ancestral de negros e negras, é a palavra de origem banto da língua Quicongo, totalmente inserida na variação do português falado principalmente por negrxs chamada de dengo.  Óbvio que falo aqui do dengo em seu sentido mais profundo e ancestral, o supremo dengo. Não da significação subscrita nos dicionários brancos, que apequena os sentidos das palavras de origem africana.

O dengo durante toda a história de escravização, favelização e racismo nessa diáspora de angústia, o Brasil, foi o instante eterno de libertação expressado num simples aconchego de esperança no desconforto cotidiano. A união dos corações em sublimação ancestral, o oriki que arrepia os pelos, pois ecoa por todo o corpo o axé e o poder dos orixás. Os olhos que se entrecruzam e se fixam, pois há de haver o beijo, supremo dengo, libelo de libertação expresso no gesto. Os corações que se entrelaçam para fazerem o “corre” do quilombo intimo e movimentar os outros mocambos para construir o grande quilombo. A humanidade que se reconstrói depois de se diluir através do racismo das grandes metrópoles em frenesi no sorriso da companheira(o) no encontro sagrado depois da batalha enfrentada. O reencontro dos continentes afastados através de um juntar manhoso de faces azeviches a formarem destinos.

A palavra dengo é signo portentoso e conjuga em seu interior a palavra chamego, é a família preta em celebração do quilombo íntimo, é a África na origem, o sopro da criação original no ouvido a trazer placidez e beleza ao coração.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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KEMET

Poemas publicados na Coletânea poética Enegrescência (2016)

Davi Nunes

ilustracao-zozimo-3                                                                            Ilustração Stefany Lima

 

I

Uma mão medonha de algum deus branco

aperta – em espremer maldito de dor –

a minha cabeça.

Crava digitais de fel e horror

nas paredes esqueléticas do meu crânio.

Esbraveja maldições e emparedamentos,

comprime até as veias estourarem

no meu rosto o sangue da desesperança.

Sugere-me: suicídio. E ri loucamente

com seu eco sinistro de cientista

das amarguras universais.

Grito a irromper com as minhas ondas

de desespero o mistério do buraco negro,

olho para o totem ancestral e rogo-lhe uma arma.

Escuto o tambor e sinto que sou um deus de Kemet

posso agora estourar com o fogo do cano-de-aço

a cabeça-monstro do meu algoz.

 

II

Um demônio em pele de fantasma

com a palidez ártica das cavernas

tem uma arma apontada para mim

Tem uma arma apontada no meu peito

um demônio em pele de fantasma

com uma inveja espumada em ódio

que não ri

Um demônio com farda de fantasma

com uma inveja espumada em ódio

tem passos de botas e uma arma engatilhada

para meu fim.

 

III

Talvez eles queiram com os seus olhares de maldições

que os meus ossos se diluam

virem pó

que minha pele fique flácida

como um saco plástico

como seus rostos pálidos

ao me ver passar

não podem apagar a luz do corpo de um faraó

não podem parar a edificação da pirâmide

que irá soterrá-los.

 

IV

Eu tive a cabeça da faraó aconchegada em ternura de amor sobre o meu peito

beijei o veludo delicado do seu cabelo

percorri com os olhos de amante a beleza azeviche do seu corpo

fui feliz.

 

V

Vi por um buraco de bloco

no meu gueto, no Cabula,

Kemet grandiosa

Vi o portal ancestral

de Kemet se abrir

Vi um exército de homens com peles frias e pálidas

com canhões apontados para Kemet

Vi o Deus Amon-rá gritar guerra para esses homens

eu vi.

 

VI

A profecia irá se cumprir

– afã e poder dos deuses –

nesse mar de angústia e atrocidades

obeliscos, esfinges e pirâmides

serão de novo levantadas

Faraós se reergueram do Vale dos Reis

e eu já sou Ramsés II encarnado

um pedaço de sol sobre a terra

nos guetos de Salvador.

 

VII

Há três mil anos antes de cristo

1280 quilômetros ao fim da fronteira de Kemet

no sul da Etiópia

eu era grande

um escriba-poeta

observando o Nilo miraculoso em sua glória

eu era grande

um gênio numa civilização melanodérmica

a sonhar com cem pirâmides gigantescas

eu era grande

e imortal como um deus.

 

VIII

Meu corpo estava dentro do relicário

no Vale dos Reis

não havia interferência dos homens gelos

na minha morte

No Vale dos Reis

virava deus-eterno

Agora sob o teto quente dessa casa

no gueto

Há a interferência dos homens gelos

na minha morte

e não existe mais o relicário

a me guardar.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

A palavra mocambo e os dicionários brancos

Por Davi Nunes

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O dicionário é o inventário dos signos, a vitrine escritural onde as palavras eleitas estão à vista como roupas sofisticadas nos mostradores dos shoppings centers. Talvez seja isso mesmo, mas nem tanto. Nunca gostei muito das palavras de origem africana no dicionário dos brancos: significados e significantes carcomidos pelo enredar do racismo. Nosso corpo-palavra destroçado por abutres com óculos e títulos a deixarem só ossos, sangue e miséria no terreno das nossas significações.

Falo isso porque sempre gostei de uma palavra, não lembro nitidamente quando foi que a ouvi pela primeira vez, acho que foi com minha falecida avó, Xanda, ela estando na casa da minha mãe, Maria, falou: “Quero dormir no meu mocambo” e me chamou para levá-la à sua casa. A palavra mocambo ressoou nos meus ouvidos com tanta intimidade e poder que pude senti-la por todo o meu corpo e pude conceber toda a sua significação naquele momento.

Talvez aí surgiu o poeta, o estro original que compõe todas as demais inspirações. Pode ser. Entendi logo: o que ela falou para minha mãe não poderia ser pronunciado com a palavra casa, era um vocábulo fraco, deslocado, não cabia em sua morfologia, em sua sintaxe, em sua fraseologia afetiva e mágica. Mocambo para vovó era o quilombo íntimo, onde os filhos e os netos lhe rodeavam, e poderia estender toda a sua zanga, dengo e saberes, ordenando só com o olhar a dinâmica do lar, que se alargava à comunidade e tudo isso compunha toda uma forma de organização matrilinear.

O mocambo era palavra poderosa saída da boca da minha ancestral, tinha substância vivencial, mas quando fui ler seu significado no dicionário, aprendi que as leituras desses verbetes, mefistofelicamente, poderiam derrear os meus saberes. Como eles poderiam querer desfazer, matar o significado de tudo que havia aprendido com a voz da minha mais-velha? Como poderiam dizer que mocambo significa habitação miserável, palhoça, coutos de escravos fugidos, e se fosse adjetivo era: sem-valor, pífio? E várias outras definições que colocavam na subalternidade das significações a palavra mocambo, signo de poder evocado na pronuncia da minha avó.

Os dicionaristas haviam pegado as palavras na boca dos meus ancestrais e sofismado seus significados. Há de se perceber sempre as nuances de como eles nos ferra. Sei que o homem e a mulher escravizado(a) que queimou o engelho, matou o escravocrata, o feitor, entrou no profundo da mata, fez  o Quilombo dos Palmares, fez o Quilombo do Cabula, do Urubu, do Buraco do Tatu e tanto outros por esse país sabia, como a minha vó, que o mocambo era o nosso espaço redivivo de uma África já distante, o lar onde erguemos  pela primeira vez nessa terra o nosso assento de repouso, a nossa íntima liberdade.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Babilônia: entre Beiru e Engomadeira fora mocambo de guerreiros ancestrais

Por Davi Nunes

Torre de Babel

Esse trecho de Apocalipse – 18.16:19 “Ai! Ai! da grande cidade,… porque, em uma só hora, foi devastada!” – falando da destruição da Babilônia, dá conta de muito que vou descrever aqui. Visto que num só dia (19/07/2016) um jovem foi morto, uma criança de 2 anos e uma mulher foi baleada por ações impetradas pelo estado sanguinolento da Bahia, cuja cor negra a vestir a pele tem que ser também tingida com o sangue da morte, é a lógica macabra do genocídio e foi isso que ocorreu na Babilônia, um local que se encontra entre os bairros Engomadeira, Beiru/Tancredo Neves e Estrada das Barreiras, no miolo cidade do Salvador, o Cabula.

O local está onde hoje é um vale preenchido de casas com telhas de Eternit, lajes e blocos nus. No passado, segundo relato de um amigo morador da comunidade: ele ouviu de um mais velho que a região era habitada por uns homens e mulheres negras que não se misturavam e eram descendentes diretos de Beiru, homem nigeriano que veio escravizado na primeira metade do século XIX para Salvador e conseguiu a liberdade e terras. Eles viviam da agricultura, além da caça, pesca e da colheita de frutas, visto a imensidade de árvores frutíferas que existiam na região, além do rio que hoje é esgoto e divide o bairro Beiru e Engomadeira.

Óbvio que reconstruímos isso tudo através dos fios tênues da oralidade, os quais vão chegando no ouvido e vamos tentando transfigurar em escrita, pois como nos diz Hampatê Bâ, pensamento e fala não se contradizem, tem que ser um fato verdadeiro  e documental. Assim vamos como bibliotecas vivas transpassando saberes, tradições e histórias através das gerações.

A violência que atinge os moradores da região não fora porque desafiaram algum deus construindo o zigurate de Babel para alcançarem o céu, ela existe porque desde a escravização à favelização atual, ela fora a pedra de toque, o escopo de uma (como fala Achille Mbembe) necropolítica secular.

E o movimento que se arvora paralelo na comunidade não se reveste em ações para colocá-la como sujeita da construção de um novo porvir; ver-se imbuída, ou é arquitetada pelas próprias frechas assassinas do estado a nos criminalizar e fazer da gente corpos matáveis.

Sei que o espírito transformador ainda existe, está lá desde os primeiros habitantes quilombolas, ainda estamos em busca de um método, buscando o jeito para fazer com que toda a nossa potencialidade ganhe grande proporções, nos una como um povo para além da primeira ação de revolta à violência, que o principio dos ônibus atravessados na rua de descontentamento possa se tornar algo poderoso e transformador.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Bairro Saboeiro: os quilombolas e o Rio Cascão

Por Davi Nunes

 

saboeiro

Antes era a mata e transcorria o Rio Saboeiro com todo a sua beleza, e, por todo ele, em suas margens tinha uma planta que produzia espuma, servia como sabão, como uma nuvem sobre a água que se espalhava por toda corrente. O nome dessa planta era saboeiro e até a década de 70 as mulheres e homens quilombolas usavam para lavar as suas roupas e até mesmo servia para tomar banho. Escrevo isso porque esses acontecimentos ocorreram no miolo de Salvador, numa parte da região onde fora o Quilombo do Cabula, no bairro que (como a antiga planta) se chama Saboeiro.

O bairro se divide em Baixa do Saboeiro, Saboeiro e Beco da Coruja, vamos nos ater agora a primeira parte, visto que ela foi morada dos antigos quilombolas, e ainda é onde mora muitos dos seus descendentes. Segundo relatos dos mais velhos da região, relatos costurados pela oralidade, o local tinha muitas árvores frutíferas: bananeiras, limoeiros, tangerinas, abacates, mangueiras, jaqueiras, goiabeiras, cajueiros, coqueiros, pitangueiras, além do Rio Saboeiro que percorria boa parte do Cabula e tem suas nascentes localizadas entre os bairros da Engomadeira e Narandiba.

O Rio Saboeiro é atualmente esgoto e a Baixa do Saboeiro se tornou uma periferia urbana comum a várias outras da cidade do Salvador. Com toda uma dinâmica que costura a vida dos descendentes dos quilombolas, como daqueles que vieram do interior devido à explosão de obras que tomou todo Cabula já em fins da década de 60.

A outra parte do bairro conhecida somente como Saboeiro são os conjuntos habitacionais construídos pela URBIS na década de 70, o que destruiu muito da mata atlântica, além de contribuir para a poluição dos rios. Esses condomínios foram feitos para abrigarem parte de uma classe média branca da cidade. O Saboeiro, ou o conjunto habitacional governador José Marcelino é tido como o Cabula X, por causa da divisão feita pela URBIS da região.

Já o Beco da coruja é uma área residencial, com casas grandes, e condomínios também. É uma região que possui ainda uma densa natureza, devido a toda mata atlântica preservada no 19 BC – 19° Batalhão de caçadores, além do Rio Cascão que tem suas nascentes protegidas dentro da mata.

Sobre o Rio Cascão sigo com uma anedota pessoal: no ano 1998 ainda um pivete aventureiro fui com um tio e muitos amigos corajosos pescar tilápia no rio Cascão, no entanto a pesca era proibida, o rio se encontrava em áreas do exercito. Mas como bons quilombolas não tínhamos medo e em alta noite saímos de Narandiba, subimos o Saboeiro, entramos no Beco da Coruja, penetramos a mata e começamos a pescar em absoluto silêncio e escondidos em moitas para que nenhuma guarnição do exército em suas rondas nos visse. Todos tivemos muito sucesso com a pesca, estávamos cheios de gordas tilápias, mas na volta para casa, ainda dentro da mata, os soldados nos viram e  sofremos uma perseguição, como os quilombolas do Cabula em 1807 tiveram para se protegerem da Milícia de Pirajá. Os homens do exército não conseguiram nos pegar mesmo com os seus gritos e suas armas apontadas em nossa direção, fugimos. Depois de passado o perigo rimos e podemos ver nossas mães cozinharem, já em casa, os peixes enquanto resenhávamos da aventura.

Essa anedota dá conta das violências e das perdas de espaço que sofremos no Cabula em todo século XX, e como resistimos a isso tudo durante esse tempo. Na Baixa do Saboeiro, o que era rio, virou esgoto, o racismo ambiental que degringola o espaço, degenera a natureza para nos afastar de nossas divindades e nos tornar frágeis; no conjunto Saboeiro, Cabula X, sobrou o amarelado sujo dos velhos apartamentos e o olhar peco de uma classe média pobre, e no Beco da Coruja a natureza escondida pelo exército.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

 

 

 

 

Bairro Arraial do Retiro: retiro dos quilombolas

Por Davi Nunes

pedreira do Arraial do Retiro

O arraial sempre fora retiro, assento para o corpo dos viajantes mais intrépidos que carregavam as suas bagagens-vida para procurarem o melhor mocambo, para fugirem das opressões ou simplesmente para fazerem negócios e continuarem a trajetória. Ou para depois de terem findado o trabalho de extração de minério nas pedreiras em 1940, no Cabula, terem o canto-retiro para deitar o corpo cansado.  Assim, vou nesse assento escritural, buscar dar conta de alguns fatos e tentar traçar um pequeno quadro da história do bairro Arraial do retiro, localizado no centro geográfico de Salvador, o Cabula.

O bairro Arraial do Retiro fora uma parte da fazenda São Gonçalo, a fazenda tinha uma grande extensão, tanto no sentido alto, o Cabula, quanto na margem baixa, São Gonçalo do Retiro, que dá na BR 324. O surgimento da comunidade ocorre quando parte da fazenda foi disponibilizada para a exploração de uma pedreira que hoje divide o local.

Dados da oralidade: outro dia um amigo, em entusiasmo de conversa sobre o Beiru, me disse que um mais velho lhe falou que no Retiro tinha a porteira de uma grande fazenda, a qual daria nas partes mais profundas do Cabula. Se for pensar geograficamente daria mesmo, mas provavelmente ele estava falando da fazenda São Gonçalo. As linhas que costuram as vozes da nossa história chegam sempre aos ouvidos atentos, faz a imaginação fluir fora do campo semântico do mundo branco e constitui as nossas verdades. Isso é um fato. Ouvido aberto para tecer em escrita a nossa história.

O bairro está localizado entre duas pedreiras: uma no lado esquerdo e outra no direito, dividindo a comunidade entre Arraial de cima e o Arraial de baixo. Essas pedreiras tiveram minérios extraídos até a década de 80. Observa-se que com o findar do trabalho com as plantações de laranja, pelo menos na Fazenda São Gonçalo, muitos dos antigos quilombolas foram para o trabalho nas pedreiras, na extração de minério. Foi um trabalho que durou algumas décadas, além de ter deixado infértil o solo para a plantação de laranja.

A socioexistência dos negros que fundaram a região fora sempre de muito trabalho, constituindo sobrevivência e tentando alastrar as vivências quilombolas – continuo de vivências africanas na diáspora – para constituir um bem-viver. No entanto, com a invasão dos brancos na região: primeiro com as chácaras, depois pela desapropriação do estado de muitas terras dos quilombolas, no intuito de criarem os prédios para a classe média baiana, e agora com a forte especulação imobiliária que vem ocorrendo na região, tudo foi ficando mais difícil.

As pedreiras do retiro possuem muita beleza: as suas dimensões são grandiosas, os buracos e paredões compõem o olhar com uma paisagem sublime, além dos lagos que completam a paisagem com o verde forte das águas. Toda essa natureza ainda se mantém forte e agonizante, devido o estado de degradação ambiental o qual passou todo o Cabula durante a sua história.

Outro fator interessante eram as linhas de bonde que surgiram entre 1920 e 1925. Elas vinham da Barroquinha; um subia a ladeira do Cabula, e a outra ia até o final de linha do Retiro, o que beneficiava os moradores da região como todo, inclusive do Arraial.

Assim, o Arraial do Retiro ainda é mocambo para os descendentes dos quilombolas, possui uma dinâmica comum dos bairros da periferia, polifonia rítmica dos andares dos jovens negros (as), atentos (as), pois precisam se esquivar às violências do estado baiano, o genocídio. Velhas(os) que observam as pedreiras, as paisagens, signos que compõem as suas vidas e histórias que são passadas no gesto, na culinária, no olhar, na fala. Há uma natureza que traz o passado e toda uma dinâmica periférica atual que não esconde o desejo que estava incontido nos quilombos antigos, que é de transformação e de restauração da negritude fragmentada em anos de opressão e racismo estrutural.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Bairro Pernambués: território fundado pelos quilombolas do Cabula

Por Davi Nunes

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Talvez o mar de casas com blocos nus, sem reboco , com telhas de Eternit, ou laje, em confluir de vielas e ruas não tenham mais o conforto dos mocambos passados, os quais tinham em seus quintais as árvores soprando a sabedoria dos antepassados divinizados no ouvido. Talvez a periferia com seu fluir frenético de aglomeração de multidões, com meninos perdidos por força da opressão nos enrolos sistemáticos do tráfico, não tenha a força política e revolucionária que havia no quilombo, mas ainda sei que há o germe, o afã inicial dos guerreiros quilombolas que bateram de frente com a escravidão. Por isso escrevo para tentar restaurar, isso, nesse breve ensaio sobre aspectos da história do bairro Pernambués, que segundo dados do IBGE (2010) possui a maior população negra declarada – com 53.580 habitantes – da cidade do Salvador.

O Pernambués é mais um bairro que está localizado no território correspondente à área que foi o Quilombo do Cabula no século XIX, no miolo de Salvador. Tem ligações com avenidas importantes da cidade – a Paralela e a ACM. Além disso, se encontra próximo à Estação Rodoviária da cidade. Seus marcos geográficos podem ser definidos com uma parte ligada ao Cabula, ao norte; à Avenida Paralela, ao sul; à Avenida Luís Eduardo Magalhães e a área Federal do 19° Batalhão de Caçadores, ao leste; e com a comunidade de Saramandaia, à oeste.

O nome do bairro tem origem indígena, cujo significado é “mar feito à parte” ou “tanque de água”. Na verdade, existia um rio chamado Pernambués no local, que acabou nomeando toda a comunidade. Atualmente ainda há resquícios desse rio preservado no interior do 19 BC.

O lugar onde se encontra hoje o Pernambués abrigava várias chácaras e fazendas, as quais se formaram no Cabula em fins do século XIX e se desenvolveram durante toda a primeira metade do século XX. Assim, entre as varias fazendas que tinha, existia uma bastante importante, produtora de laranja, chamada Santa Clara. No entanto, com a sua dissolução, em 1956, os quilombolas retomaram as terras e deram origem ao bairro.

A territorialidade recuperada em 1956 fez com que a comunidade fosse construindo uma estrutura social baseada numa dinâmica de organização africana, uma arquitetura de divisão do espaço que podemos dizer neo-quilombola. Ela se formou e ainda possuía uma ordem formal no desenvolvimento do bairro; e esse espírito quase perdido de coordenação pode se ver notado até hoje na formar como os lideres e associações comunitárias tentam organizar minimamente a comunidade. Porem, isso se desmantelou no inicio da década de 80, com a construção do Shopping Iguatemi e da Estação Rodoviária. Uma nova dinâmica social se formara com o “desenvolvimento” ocorrido na própria Cidade do Salvador. As obras que desde a década de 70 tomavam o Cabula também trouxe um grande contingente de pessoas do interior do estado para trabalharem nas construções, o que fez aumentar consideravelmente o número populacional da comunidade.

Atualmente, o bairro se encontra numa localização estratégica, próximo de três grandes shoppings: Iguatemi, Salvador e Bela Vista.  Não que isso signifique muito, pois só possibilita a alguns moradores trabalharem no serviço informal, na periferia dessas instituições comerciais; como também terem um acesso fragilizado a alguns serviços e consumo. Na verdade, conseguem se influírem na lógica do comércio e constituírem a sobrevivência.

No bairro também há muitos condomínios, prédios. Eles foram construídos para setores médios e brancos da sociedade morarem, o que destruiu muito da mata atlântica que existia e desapropriou os quilombolas que eram donos das terras, levando-os a morarem em lugares mais escantilhados da comunidade e socialmente desguarnecidos.

A grande quantidade de negros(as) existentes no Pernambués – homens e mulheres de ascendência africana que sobrevivem nessa diáspora de desespero, chamada Salvador – constituem a paisagem humana do bairro, a sua dinâmica cotidiana, a forma como se modela e se estrutura. No entanto, se faz necessário restaurar a força, o axé dos ancestrais quilombolas, que constituíram com muita resistência a socioexistência do local, para se resgatar  o espírito de unidade e saber qual a batalha que se tem que travar nessa terra, cujo trajetória histórica – para o povo negro – fora sempre de luta e conquista da liberdade.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil