A palavra mocambo e os dicionários brancos

Por Davi Nunes

quilombo-imagem

O dicionário é o inventário dos signos, a vitrine escritural onde as palavras eleitas estão à vista como roupas sofisticadas nos mostradores dos shoppings centers. Talvez seja isso mesmo, mas nem tanto. Nunca gostei muito das palavras de origem africana no dicionário dos brancos: significados e significantes carcomidos pelo enredar do racismo. Nosso corpo-palavra destroçado por abutres com óculos e títulos a deixarem só ossos, sangue e miséria no terreno das nossas significações.

Falo isso porque sempre gostei de uma palavra, não lembro nitidamente quando foi que a ouvi pela primeira vez, acho que foi com minha falecida avó, Xanda, ela estando na casa da minha mãe, Maria, falou: “Quero dormir no meu mocambo” e me chamou para levá-la à sua casa. A palavra mocambo ressoou nos meus ouvidos com tanta intimidade e poder que pude senti-la por todo o meu corpo e pude conceber toda a sua significação naquele momento.

Talvez aí surgiu o poeta, o estro original que compõe todas as demais inspirações. Pode ser. Entendi logo: o que ela falou para minha mãe não poderia ser pronunciado com a palavra casa, era um vocábulo fraco, deslocado, não cabia em sua morfologia, em sua sintaxe, em sua fraseologia afetiva e mágica. Mocambo para vovó era o quilombo íntimo, onde os filhos e os netos lhe rodeavam, e poderia estender toda a sua zanga, dengo e saberes, ordenando só com o olhar a dinâmica do lar, que se alargava à comunidade e tudo isso compunha toda uma forma de organização matrilinear.

O mocambo era palavra poderosa saída da boca da minha ancestral, tinha substância vivencial, mas quando fui ler seu significado no dicionário, aprendi que as leituras desses verbetes, mefistofelicamente, poderiam derrear os meus saberes. Como eles poderiam querer desfazer, matar o significado de tudo que havia aprendido com a voz da minha mais-velha? Como poderiam dizer que mocambo significa habitação miserável, palhoça, coutos de escravos fugidos, e se fosse adjetivo era: sem-valor, pífio? E várias outras definições que colocavam na subalternidade das significações a palavra mocambo, signo de poder evocado na pronuncia da minha avó.

Os dicionaristas haviam pegado as palavras na boca dos meus ancestrais e sofismado seus significados. Há de se perceber sempre as nuances de como eles nos ferra. Sei que o homem e a mulher escravizado(a) que queimou o engelho, matou o escravocrata, o feitor, entrou no profundo da mata, fez  o Quilombo dos Palmares, fez o Quilombo do Cabula, do Urubu, do Buraco do Tatu e tanto outros por esse país sabia, como a minha vó, que o mocambo era o nosso espaço redivivo de uma África já distante, o lar onde erguemos  pela primeira vez nessa terra o nosso assento de repouso, a nossa íntima liberdade.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Babilônia: entre Beiru e Engomadeira fora mocambo de guerreiros ancestrais

Por Davi Nunes

Torre de Babel

Esse trecho de Apocalipse – 18.16:19 “Ai! Ai! da grande cidade,… porque, em uma só hora, foi devastada!” – falando da destruição da Babilônia, dá conta de muito que vou descrever aqui. Visto que num só dia (19/07/2016) um jovem foi morto, uma criança de 2 anos e uma mulher foi baleada por ações impetradas pelo estado sanguinolento da Bahia, cuja cor negra a vestir a pele tem que ser também tingida com o sangue da morte, é a lógica macabra do genocídio e foi isso que ocorreu na Babilônia, um local que se encontra entre os bairros Engomadeira, Beiru/Tancredo Neves e Estrada das Barreiras, no miolo cidade do Salvador, o Cabula.

O local está onde hoje é um vale preenchido de casas com telhas de Eternit, lajes e blocos nus. No passado, segundo relato de um amigo morador da comunidade: ele ouviu de um mais velho que a região era habitada por uns homens e mulheres negras que não se misturavam e eram descendentes diretos de Beiru, homem nigeriano que veio escravizado na primeira metade do século XIX para Salvador e conseguiu a liberdade e terras. Eles viviam da agricultura, além da caça, pesca e da colheita de frutas, visto a imensidade de árvores frutíferas que existiam na região, além do rio que hoje é esgoto e divide o bairro Beiru e Engomadeira.

Óbvio que reconstruímos isso tudo através dos fios tênues da oralidade, os quais vão chegando no ouvido e vamos tentando transfigurar em escrita, pois como nos diz Hampatê Bâ, pensamento e fala não se contradizem, tem que ser um fato verdadeiro  e documental. Assim vamos como bibliotecas vivas transpassando saberes, tradições e histórias através das gerações.

A violência que atinge os moradores da região não fora porque desafiaram algum deus construindo o zigurate de Babel para alcançarem o céu, ela existe porque desde a escravização à favelização atual, ela fora a pedra de toque, o escopo de uma (como fala Achille Mbembe) necropolítica secular.

E o movimento que se arvora paralelo na comunidade não se reveste em ações para colocá-la como sujeita da construção de um novo porvir; ver-se imbuída, ou é arquitetada pelas próprias frechas assassinas do estado a nos criminalizar e fazer da gente corpos matáveis.

Sei que o espírito transformador ainda existe, está lá desde os primeiros habitantes quilombolas, ainda estamos em busca de um método, buscando o jeito para fazer com que toda a nossa potencialidade ganhe grande proporções, nos una como um povo para além da primeira ação de revolta à violência, que o principio dos ônibus atravessados na rua de descontentamento possa se tornar algo poderoso e transformador.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Bairro Saboeiro: os quilombolas e o Rio Cascão

Por Davi Nunes

 

saboeiro

Antes era a mata e transcorria o Rio Saboeiro com todo a sua beleza, e, por todo ele, em suas margens tinha uma planta que produzia espuma, servia como sabão, como uma nuvem sobre a água que se espalhava por toda corrente. O nome dessa planta era saboeiro e até a década de 70 as mulheres e homens quilombolas usavam para lavar as suas roupas e até mesmo servia para tomar banho. Escrevo isso porque esses acontecimentos ocorreram no miolo de Salvador, numa parte da região onde fora o Quilombo do Cabula, no bairro que (como a antiga planta) se chama Saboeiro.

O bairro se divide em Baixa do Saboeiro, Saboeiro e Beco da Coruja, vamos nos ater agora a primeira parte, visto que ela foi morada dos antigos quilombolas, e ainda é onde mora muitos dos seus descendentes. Segundo relatos dos mais velhos da região, relatos costurados pela oralidade, o local tinha muitas árvores frutíferas: bananeiras, limoeiros, tangerinas, abacates, mangueiras, jaqueiras, goiabeiras, cajueiros, coqueiros, pitangueiras, além do Rio Saboeiro que percorria boa parte do Cabula e tem suas nascentes localizadas entre os bairros da Engomadeira e Narandiba.

O Rio Saboeiro é atualmente esgoto e a Baixa do Saboeiro se tornou uma periferia urbana comum a várias outras da cidade do Salvador. Com toda uma dinâmica que costura a vida dos descendentes dos quilombolas, como daqueles que vieram do interior devido à explosão de obras que tomou todo Cabula já em fins da década de 60.

A outra parte do bairro conhecida somente como Saboeiro são os conjuntos habitacionais construídos pela URBIS na década de 70, o que destruiu muito da mata atlântica, além de contribuir para a poluição dos rios. Esses condomínios foram feitos para abrigarem parte de uma classe média branca da cidade. O Saboeiro, ou o conjunto habitacional governador José Marcelino é tido como o Cabula X, por causa da divisão feita pela URBIS da região.

Já o Beco da coruja é uma área residencial, com casas grandes, e condomínios também. É uma região que possui ainda uma densa natureza, devido a toda mata atlântica preservada no 19 BC – 19° Batalhão de caçadores, além do Rio Cascão que tem suas nascentes protegidas dentro da mata.

Sobre o Rio Cascão sigo com uma anedota pessoal: no ano 1998 ainda um pivete aventureiro fui com um tio e muitos amigos corajosos pescar tilápia no rio Cascão, no entanto a pesca era proibida, o rio se encontrava em áreas do exercito. Mas como bons quilombolas não tínhamos medo e em alta noite saímos de Narandiba, subimos o Saboeiro, entramos no Beco da Coruja, penetramos a mata e começamos a pescar em absoluto silêncio e escondidos em moitas para que nenhuma guarnição do exército em suas rondas nos visse. Todos tivemos muito sucesso com a pesca, estávamos cheios de gordas tilápias, mas na volta para casa, ainda dentro da mata, os soldados nos viram e  sofremos uma perseguição, como os quilombolas do Cabula em 1807 tiveram para se protegerem da Milícia de Pirajá. Os homens do exército não conseguiram nos pegar mesmo com os seus gritos e suas armas apontadas em nossa direção, fugimos. Depois de passado o perigo rimos e podemos ver nossas mães cozinharem, já em casa, os peixes enquanto resenhávamos da aventura.

Essa anedota dá conta das violências e das perdas de espaço que sofremos no Cabula em todo século XX, e como resistimos a isso tudo durante esse tempo. Na Baixa do Saboeiro, o que era rio, virou esgoto, o racismo ambiental que degringola o espaço, degenera a natureza para nos afastar de nossas divindades e nos tornar frágeis; no conjunto Saboeiro, Cabula X, sobrou o amarelado sujo dos velhos apartamentos e o olhar peco de uma classe média pobre, e no Beco da Coruja a natureza escondida pelo exército.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

 

 

 

 

Bairro Arraial do Retiro: retiro dos quilombolas

Por Davi Nunes

pedreira do Arraial do Retiro

O arraial sempre fora retiro, assento para o corpo dos viajantes mais intrépidos que carregavam as suas bagagens-vida para procurarem o melhor mocambo, para fugirem das opressões ou simplesmente para fazerem negócios e continuarem a trajetória. Ou para depois de terem findado o trabalho de extração de minério nas pedreiras em 1940, no Cabula, terem o canto-retiro para deitar o corpo cansado.  Assim, vou nesse assento escritural, buscar dar conta de alguns fatos e tentar traçar um pequeno quadro da história do bairro Arraial do retiro, localizado no centro geográfico de Salvador, o Cabula.

O bairro Arraial do Retiro fora uma parte da fazenda São Gonçalo, a fazenda tinha uma grande extensão, tanto no sentido alto, o Cabula, quanto na margem baixa, São Gonçalo do Retiro, que dá na BR 324. O surgimento da comunidade ocorre quando parte da fazenda foi disponibilizada para a exploração de uma pedreira que hoje divide o local.

Dados da oralidade: outro dia um amigo, em entusiasmo de conversa sobre o Beiru, me disse que um mais velho lhe falou que no Retiro tinha a porteira de uma grande fazenda, a qual daria nas partes mais profundas do Cabula. Se for pensar geograficamente daria mesmo, mas provavelmente ele estava falando da fazenda São Gonçalo. As linhas que costuram as vozes da nossa história chegam sempre aos ouvidos atentos, faz a imaginação fluir fora do campo semântico do mundo branco e constitui as nossas verdades. Isso é um fato. Ouvido aberto para tecer em escrita a nossa história.

O bairro está localizado entre duas pedreiras: uma no lado esquerdo e outra no direito, dividindo a comunidade entre Arraial de cima e o Arraial de baixo. Essas pedreiras tiveram minérios extraídos até a década de 80. Observa-se que com o findar do trabalho com as plantações de laranja, pelo menos na Fazenda São Gonçalo, muitos dos antigos quilombolas foram para o trabalho nas pedreiras, na extração de minério. Foi um trabalho que durou algumas décadas, além de ter deixado infértil o solo para a plantação de laranja.

A socioexistência dos negros que fundaram a região fora sempre de muito trabalho, constituindo sobrevivência e tentando alastrar as vivências quilombolas – continuo de vivências africanas na diáspora – para constituir um bem-viver. No entanto, com a invasão dos brancos na região: primeiro com as chácaras, depois pela desapropriação do estado de muitas terras dos quilombolas, no intuito de criarem os prédios para a classe média baiana, e agora com a forte especulação imobiliária que vem ocorrendo na região, tudo foi ficando mais difícil.

As pedreiras do retiro possuem muita beleza: as suas dimensões são grandiosas, os buracos e paredões compõem o olhar com uma paisagem sublime, além dos lagos que completam a paisagem com o verde forte das águas. Toda essa natureza ainda se mantém forte e agonizante, devido o estado de degradação ambiental o qual passou todo o Cabula durante a sua história.

Outro fator interessante eram as linhas de bonde que surgiram entre 1920 e 1925. Elas vinham da Barroquinha; um subia a ladeira do Cabula, e a outra ia até o final de linha do Retiro, o que beneficiava os moradores da região como todo, inclusive do Arraial.

Assim, o Arraial do Retiro ainda é mocambo para os descendentes dos quilombolas, possui uma dinâmica comum dos bairros da periferia, polifonia rítmica dos andares dos jovens negros (as), atentos (as), pois precisam se esquivar às violências do estado baiano, o genocídio. Velhas(os) que observam as pedreiras, as paisagens, signos que compõem as suas vidas e histórias que são passadas no gesto, na culinária, no olhar, na fala. Há uma natureza que traz o passado e toda uma dinâmica periférica atual que não esconde o desejo que estava incontido nos quilombos antigos, que é de transformação e de restauração da negritude fragmentada em anos de opressão e racismo estrutural.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Bairro Pernambués: território fundado pelos quilombolas do Cabula

Por Davi Nunes

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Talvez o mar de casas com blocos nus, sem reboco , com telhas de Eternit, ou laje, em confluir de vielas e ruas não tenham mais o conforto dos mocambos passados, os quais tinham em seus quintais as árvores soprando a sabedoria dos antepassados divinizados no ouvido. Talvez a periferia com seu fluir frenético de aglomeração de multidões, com meninos perdidos por força da opressão nos enrolos sistemáticos do tráfico, não tenha a força política e revolucionária que havia no quilombo, mas ainda sei que há o germe, o afã inicial dos guerreiros quilombolas que bateram de frente com a escravidão. Por isso escrevo para tentar restaurar, isso, nesse breve ensaio sobre aspectos da história do bairro Pernambués, que segundo dados do IBGE (2010) possui a maior população negra declarada – com 53.580 habitantes – da cidade do Salvador.

O Pernambués é mais um bairro que está localizado no território correspondente à área que foi o Quilombo do Cabula no século XIX, no miolo de Salvador. Tem ligações com avenidas importantes da cidade – a Paralela e a ACM. Além disso, se encontra próximo à Estação Rodoviária da cidade. Seus marcos geográficos podem ser definidos com uma parte ligada ao Cabula, ao norte; à Avenida Paralela, ao sul; à Avenida Luís Eduardo Magalhães e a área Federal do 19° Batalhão de Caçadores, ao leste; e com a comunidade de Saramandaia, à oeste.

O nome do bairro tem origem indígena, cujo significado é “mar feito à parte” ou “tanque de água”. Na verdade, existia um rio chamado Pernambués no local, que acabou nomeando toda a comunidade. Atualmente ainda há resquícios desse rio preservado no interior do 19 BC.

O lugar onde se encontra hoje o Pernambués abrigava várias chácaras e fazendas, as quais se formaram no Cabula em fins do século XIX e se desenvolveram durante toda a primeira metade do século XX. Assim, entre as varias fazendas que tinha, existia uma bastante importante, produtora de laranja, chamada Santa Clara. No entanto, com a sua dissolução, em 1956, os quilombolas retomaram as terras e deram origem ao bairro.

A territorialidade recuperada em 1956 fez com que a comunidade fosse construindo uma estrutura social baseada numa dinâmica de organização africana, uma arquitetura de divisão do espaço que podemos dizer neo-quilombola. Ela se formou e ainda possuía uma ordem formal no desenvolvimento do bairro; e esse espírito quase perdido de coordenação pode se ver notado até hoje na formar como os lideres e associações comunitárias tentam organizar minimamente a comunidade. Porem, isso se desmantelou no inicio da década de 80, com a construção do Shopping Iguatemi e da Estação Rodoviária. Uma nova dinâmica social se formara com o “desenvolvimento” ocorrido na própria Cidade do Salvador. As obras que desde a década de 70 tomavam o Cabula também trouxe um grande contingente de pessoas do interior do estado para trabalharem nas construções, o que fez aumentar consideravelmente o número populacional da comunidade.

Atualmente, o bairro se encontra numa localização estratégica, próximo de três grandes shoppings: Iguatemi, Salvador e Bela Vista.  Não que isso signifique muito, pois só possibilita a alguns moradores trabalharem no serviço informal, na periferia dessas instituições comerciais; como também terem um acesso fragilizado a alguns serviços e consumo. Na verdade, conseguem se influírem na lógica do comércio e constituírem a sobrevivência.

No bairro também há muitos condomínios, prédios. Eles foram construídos para setores médios e brancos da sociedade morarem, o que destruiu muito da mata atlântica que existia e desapropriou os quilombolas que eram donos das terras, levando-os a morarem em lugares mais escantilhados da comunidade e socialmente desguarnecidos.

A grande quantidade de negros(as) existentes no Pernambués – homens e mulheres de ascendência africana que sobrevivem nessa diáspora de desespero, chamada Salvador – constituem a paisagem humana do bairro, a sua dinâmica cotidiana, a forma como se modela e se estrutura. No entanto, se faz necessário restaurar a força, o axé dos ancestrais quilombolas, que constituíram com muita resistência a socioexistência do local, para se resgatar  o espírito de unidade e saber qual a batalha que se tem que travar nessa terra, cujo trajetória histórica – para o povo negro – fora sempre de luta e conquista da liberdade.

 

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

 

Bairro São Gonçalo e o axé plantado pelos negros no Cabula

Por Davi Nunes

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Após a destruição do Quilombo do Cabula (1807) e do Quilombo do Urubu (1826), começaram a surgir as primeiras fazendas na região do Cabula, foi o começo da invasão dos brancos em terras que eram refúgio dos quilombolas, onde toda uma vivência e modos civilizatórios africanos já tinham sido construídos.  Nesse sentido, surgiu a Fazendo São Gonçalo, o que naturalmente descambou no bairro em sua modelação atual, o qual vamos tentar nesse breve ensaio trazer à vitrine escritural um retrato três por quatro da sua história.

A Fazenda São Gonçalo estava localizada no lado sul da região que é o miolo da capital baiana, o Cabula. Ela foi uma grande produtora de laranja que abastecia em fins do século XIX e início do XX toda a cidade.  As atividades com o cultivo e comércio desse produto teve fim quando uma parte considerável da fazenda foi disponibilizada para a exploração de uma pedreira, o que tornou o solo infértil para a produção. Segundo Janice de Sena Nicolin em seu livro Ecos que entoam uma mata africano-brasileira (2014) citando *Gijo (2005), afirma que a fazenda São Gonçalo abrangia onde hoje é o supermercado Bom Preço do Cabula até o bairro Pernambués.

O bairro São Gonçalo, atualmente, está situado entre a Estrada das Barreiras e a BR 324, na verdade se divide entre São Gonçalo do Retiro e São Gonçalo do Cabula. Pode-se imaginar que fora um dos lugares mais importantes para a penetração dos escravizados fugidos para chegarem ao Quilombo do Cabula, nos séculos da escravidão baiana.

Em 1910 surge no São Gonçalo uma das instituições das religiosas afro-brasileiras mais importantes, o Ilê Axé opô Afonja. Mãe Eugênia Ana dos Santos comprou, nessa época, um lote de terra e construiu o tradicional terreiro.  A Ialorixá adquiriu o terreno segundo os mais velhos da região, pois o local estava associado ao passado de luta dos quilombolas do Cabula. O solo para o templo erguido era sagrado, pois tinha os passos dos antepassados que construíram a liberdade e já plantaram o axé há muito tempo na região. Sabia que o espaço iria servir durante muito tempo como catalizador de angústias e cura das amarguras para fortalecer nas lutas contra as opressões que passam ainda o povo negro nessa diáspora de dor. Mãe Eugênia nesse espaço sagrado deu início à nação de candomblé chamada de nagô ou Ketu e seus filhos de santo e descendentes passaram a pertencer a essa nação.

O poder e saber matrilinear fundada por Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, no São Gonçalo, no terreiro Ilê Axé Opô Afonja, perpassou tradição, assentou durante a história outras mulheres no trono, como  Mãe Bada de Oxalá, Mãe senhora, Mãe Ondina de Oxalá e agora Mãe Estela de Oxóssi. Assim, no bairro São Gonçalo há uma articulação secular onde as mulheres negras influíram e influem na dinâmica do bairro, pois foram edificadoras da tradição e da força que é muito bem sintetizada na existência e poder de Mãe Estela de Oxóssi.

Outro fator interessante que se liga a todo Cabula, mas especificamente ao São Gonçalo do Retiro também, é o surgimento do primeiro transporte coletivo, o bonde que ligava o Cabula a Barroquinha. Esse bonde – que surgiu entre 1920 e 1925 – subia a ladeira do Cabula e quem o perdesse tinha outra opção: pegar o próximo que tinha seu fim de linha no Retiro.

A arqueologia do São Gonçalo hoje é como a de qualquer bairro periférico de Salvador: densidade demográfica, multidimensionalidade de linguagens e ritmos, jovens com aspirações e sonhos, mas ligados na dinâmica frenética do genocídio estruturado pelo estado. Muitos descendentes dos antigos quilombolas que ainda permanecem – devido à força do Ilê Axe Opô Afonja – religados à sua raiz anímica, a ancestralidade. O bairro nesse sentido possui tradição, possui signos que são poderes, que dão sentidos aos novos para se conectarem com a história de luta dos antepassados, para continuarem lutando nessa terra desassossegada para conseguir a transformação.

 

 

*Gijo (2005), na época era um filho do terreiro Onzo Nsumbo Tabula Dico a Meiã Dandalunda,  mais conhecido como Terreiro São Roque, no Beiru.

 

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta,  contista e escritor de literatura infantil.

 

Cabeça de Zumbi

Por Davi Nunes

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Madrugada. Um bater “parkinsioso” e raivoso na porta do quarto. A cabeça que, em repouso de entressono, não consegue se virar a perceber os vultos, em circulações anímicas e escatológicas, pelos quatro cantos do aposento. Um urgir, com hálito de epiderme humana no Ouvido-da-cabeça, estronda: HUUAAURRR. O bater “parkinsioso” e raivoso na porta se intensifica. A Cabeça vira, enxerga os vultos. A Boca-da-cabeça pergunta: quem é? A boca-da-madrugada é o caixão dos demônios, o caixão do subterrâneo humano. quem é? Diabos, miados do inferno, lobisomens que só enxergam o que está em suas costas, vampiros, zumbis. quem é?  O hálito de carne humana se encrosta em todos os objetos do quarto tenebroso, e um odor amarelo, encrespado em maldição, envolve com morte todo o recinto. O Olho-da-cabeça vacila. Seriam impressões hollywoodianas de filmes de terror, fazendo aparecer criaturas horripilantes no inconsciente?  Mas o odor, o bater assombrador na porta… O urgir já avulta rostos, com sangue a escorrer pela boca, das trevas do quarto e os ocultam de novo como um vírus a buscar as melhores condições para uma incubação mortal.

A Cabeça já se revira em epiléticas expressões monstruosas. (o vírus) A escuridão deforma os homens e as coisas se assombram em colorações de outro mundo. (desespero) A Boca-da-cabeça fala: me deixe em paz. Sei o que vocês são. Eu não deveria ter voltado para essas terra maldita. A Cabeça para. O Olho-da-cabeça se fecha, em temor aterrorizador, com as criaturas que apareciam da opacidão fúnebre do quarto, em flashes horripilantes. (zumbis?) Gritos agônicos se assomam ao bater à porta. Um flash dark e uma baba de sangue, saída da cova do inferno, pinga na testa da Cabeça, gelando-a com o frio das profundezas. (zumbis!) Não deveria ter voltado para essas terras desgraçadas.

A Cabula sempre despertou, com os seus tambores mágicos, os espíritos que ajudaram na luta contra os antepassados escravocratas (DA CABEÇA EM DESESPERO) e transformaram em zumbis os capatazes que os serviam… Os sacerdotes negros os amaldiçoaram a serem zumbis a expulsarem todos que tiverem a mão banhada pelo sangue da escravidão. A Cabeça levanta a sua mão ao Olho e enxerga-a banhada de sangue. Socorro! Os cachorros latem. O vento zumbe um zumbido de morte. Um toque de tambor ganha um tom a estremecer as almas dos dois mundos, a preencher todo o quarto.

Um espelho se avulta no meio do quarto. Gritos agônicos saem de dentro dele. Existe uma turvosidade temerosa, secular, embasando-o. As cenas vão se aclarando ao arregalar do Olho-da-cabeça aos poucos. Apresenta-se um casarão do século XIX, uma casa grande, toda entrecortada por portas e janelas azuis, com árvores que deitavam, em seus telhados de barro arenoso, as folhas secas, que constituíam um marrom sombrio. Dentro deste casarão, sentado numa cadeira de balanço, escura como a cor da madrugada, se encontra um Velho Branco muito calvo e de olhos arregalados, olhando para o horizonte, pressentindo, temeroso como uma ovelha a sentir o espumar carnívoro dos lobos famintos, o derradeiro fim mefistofélico da sua vida maldita. Eles estão chegando, vão cobrar a conta do mal que lhe fiz. Eles estão chegando! Balançava a cadeira freneticamente, que produzia ao ouvido um som, um ronronar agonizante de madeira carcomida pelo cupim derradeiro do tempo. Estão ansiosos pela minha carne velha. Desgraçados!

Além deste velho, se encontra na casa um senhor, fidalgo de botas esfarrapadas pelos novos tempos, filho do Velho Branco em temor, olhando, ao tragar extasiado um charuto do recôncavo, a sua filha, que parecia em palidez quase doentia com uma dessas musas, de suicidas poetas ultrarromânticos, a tocar uma missa fúnebre ao piano, o Réquiem em Ré menor de Mozart.  Num sofá, em um canto opaco da casa, se encontra outra mulher, vestida de preto com olhar lutuoso para um retrato antigo de um homem com chapéu em comprimento cavalheiresco. Em uma alcova da casa, outra filha do fidalgo, tocava-se excitada ao imaginar o homem da lavoura invadindo fervoroso o seu sexo.

A Cabeça, olhando o espelho tenebroso, escuta os seus gemidos mais sádicos em gozo ressoante de mais de um século atrás. Por trás da portinhola da porta um olho de criança a olha; mas não vê o olho da sua mãe, a mulher do fidalgo a observá-lo. O réquiem ganha os seus tons agudos, junto com o gozo solitário da moça. O olho da criança ganha projeções adultas, a sua mãe estática o observa, a pianista toca com mais espasmo de inspiração; o charuto do fidalgo já exaure pela metade, enquanto a sua alma vibra delirante com a música; a mulher vestida de preto, rente ao retrato, entorna lágrimas a formarem rios pela sua face mórbida; o Velho Branco se balança animicamente: eles estão vindo, eles estão vindo. O Olho-da-cabeça se desespera. Em “aterrorizantes Flashbacks” essas cenas vão se reproduzindo: (…) o gozo solitário da moça, o olho da criança, a sua mãe estática, a pianista, o fidalgo, a mulher de preto, o Velho Branco (…) etc, etc etc. Todos esses flashes imagéticos fazem com que o Olho-da-cabeça se aperte, tentando parar o movimento assombrador.

Um minuto. O olho-da-cabeça se manteve, assim, lacrado nas trevas do seu sinistro interior. Ele parecia menos assustador do que o quadrado fechado do seu quarto opaco.  Depois, abriu-se lentamente, clamando, para ser despertado de um pesadelo terrível. O espelho se apresenta implacável à sua visão. O olho-da-cabeça observa o mesmo cenário em sua frente: um casarão do século XIX todo entrecortado por portas e janelas azuis, com árvores que deitavam, em seus telhados de barro arenoso, as folhas secas, que constituíam um marrom todo sombrio. A Boca-da-cabeça atormentada diz: isso não deve ser real. Já dentro do casarão todos escutam os atabaques que ribombam da mata escura. O Velho Branco: eles estão vindo. A Pianista, dedilhando com mais densidade: estão vindo? A mulher vestida de preto com o retrato abraçado ao peito: que venham e me levem para o meu amado. O Fidalgo temeroso: desgraçados. A mulher estática, a criança, a moça excitada: …!….?….^…………….

Na boca da mata: o Sacerdote Negro, em ritual vodu, feitiço espalmado na palma da mão, sopra a magia dos dois mundos, transformando os capatazes e capitães do mato em zumbis amaldiçoados a comerem a carne dos seus senhores.

Os tambores davam o ritmo da marcha zumbi ao casarão. O Velho Branco já enxerga os seus vultos do horizonte das trevas da mata, em seguida observa os calos dos açoites em suas mãos que constituíram toda a sua existência e fortuna. O Sacerdote Negro, solta uma gargalhada que entoa por toda mata Cabula. A casa vai sendo arrodeado pelo rosnar zumbi. O Velho Branco já cai, em balanço frenético, da cadeira. Vamos morrer. A criança do olho adulto corre para ajudá-lo com a sua mãe que o olhava. A musa doentia no piano parecia que iria tocar até a eternidade. A moça da alcova se contorcia ainda em seus arrepios langorosos. Sentia que seria o seu gozo derradeiro. A gargalhada do Sacerdote Negro adentra toda a casa. O Fidalgo medra, mas empunha a sua arma.

Os zumbis batem na porta da casa grande, era o mesmo bater “parkinsioso” que ocorria na porta do apartamento do quarto luxuoso da Cabeça assombrada.  Invadem a alcova da menina em último gozo, que grita ao sentir as mordidas frias dos zumbis a dilacerarem todo o corpo. Por todos os lados eles entram, acurralam, em bocas espumantes de sangue, todos os temerosos moradores. O Fidalgo tenta fugir, agarram-no e, em milhões de mordidas de lobos, devoram toda a sua existência. Os zumbis sobem em cima do piano, as gotas de sangue caem sobre as teclas, a musa ultrarromântica não para de tocar, comem-lhe as mãos. Ela grita em desespero. Os tambores são entoados com maior intensidade. E os zumbis alimentam-se de sua arrogância clássica. A mulher vestida de preto se despe toda e o seu fim chegou rápido com uma mordida no peito, arrancando-lhe o coração. A mãe e a criança tentam fugir, são acuadas e as suas vidas são corroídas pelo paladar antropofágico dos zumbis. Agora os olhos de todos os zumbis se voltam para o Velho Branco, a gargalhada do sacerdote ganham os assombros vingativos. Os zumbis o envolve num circo sepulcral, o Velho sente as gotas dos sangues que caem de suas bocas, cobrindo todo o seu corpo. Era o sangue dos seus entes, que tinturava a sua roupa de morte agora.  Um rosnar junto com uma mordida lhe fere a barriga. Miseráveis. As mordidas se sucedem na simultaneidade das dentadas zumbis. Mise… Comem-lhe a língua, destruindo a sua existência amaldiçoada.

O Olho-da-cabeça enxerga o Sacerdote Negro agora, franzindo todo rosto, em ódio secular, apontando-lhe um cajado e falando, em sua língua nativa, algo que não precisava de tradução, mas, que, pela explosão das ondas sonoras de suas palavras ao Ouvido-da-cabeça e o espalmar do seu corpo ao arremessar o objeto encantado, quebrando em milhões de pedaços o espelho, deduzia-se: eram impropérios poderosos que fizeram os zumbis do quarto opaco invadirem o interior da Cabeça amaldiçoada. A Boca-da-cabeça fala desesperada: saiam da minha mente, sairei desta terra, não tenho culpa do que os meus antepassados fizeram. A Cabeça sente o rosnar e as dentadas dos zumbis lhe corroendo o cérebro: me perdoem. As dores vão ganhando tensões infernais a cada mordida: me perdoem. A gargalhada do Sacerdote Negro, os tambores, o bater na porta: não tenho culpa. A Cabeça sente a sua alma sendo puxada às profundezas do inferno a cada dilaceração do seu cérebro. Grita: AAAAAAAAAAAH. Entra no obscuro profundo da existência e desperta ao ver atônito a materialidade do seu corpo. Apalpa. Pernas, tronco, braços e cabeça. Diz pra si: foi só um maldito pesadelo. Vai até a janela, observa a suntuosidade do seu prédio Cabula, avista ao longe o horizonte esplendoroso do mar. Foi só um maldito pesadelo. Sorri. Enxerga ainda um traço da mata antiga. Sente aí, sob os pés, o entranhar fino, lento e doloroso: era os cacos de vidros do espelho quebrado por todo o quarto. Depois escutou uma voz, que lhe deixou com a alma estática em terror: vá embora daqui. Era um ribombar fônico de tambor, do Sacerdote Negro, saído das entranhas desesperadas da sua cabeça de zumbi.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta,  contista e escritor de literatura infantil.