Gringo de Periferia: pequena crônica sobre o bairro Beiru

ilustração: Maicon NascimentoApresentação1

Por: Davi Nunes

– O Beiru dá e deixa, né cumpade? Onti um desses minino de faculdade, que chega na favela e todo mundo, só de vê de longe, já sabe que nun é daqui,  igual a gringo no Pelô,  me perguntou sobre o finado Rufino. –

Falou isto Manoel Guerreiro ao seu compadre Zezeu, espremendo, com a sua máquina antiga, até o bagaço, para preencher o copo do freguês com caldo de cana de açúcar. Zezeu, no momento da pergunta, olhava a rua direta do bairro Beiru e via muita gente que subia e descia do Arenoso, que já fora um dos locais mais bonitos do Cabula, com rios e barros de diferentes cores, formando uma inebriante paisagem.

– Perguntou mermo, foi cumpade Mané?

– Perguntou, Zezeu.

– Vixe!

– Me perguntou como era o pai Rufino… Lhe disse que era preto com cabelo de índio tupinambá. Aí, depois continuei o meu serviço. Ele fez uma cara de muzungu medroso, como se fosse lhe acontecê uma coisa de ruím a couqué momento, anotou no seu caderninho e tomou corage pra fazê outra pergunta.

“Em que lugar era o terreiro de Rufino e o de Miguel Arcanjo, o senhor sabe?“

– Não tenho costume de respondê muita coisa pra essa gente de fora, cumpade Zezeu. Ainda mais, depois que uma das fía do finado Rufino, me disse que… Eles bota na internet as coisa diferente do que a gente fala… Que eles pega a nossa história e veste a roupa da história deles.

– É verdade, cumpade Mané. Isso acontece mermo.

– Mas, escute Zezeu, nesse dia eu tava de boa, ia abrí uma brechinha. Sei que, muita vez, a história dita é melhor do que história não dita. Fui vê que roupa ia sê vestida, né.

– Você que sabe, Mané. Espero que tenha sido a bermuda com o peito aberto, que é o que a gente veste, né mermo? Agora se fô aquelas roupa de pinguim, dos homi, das novela… Saia fora, que é esparro. – Riram os dois.

– Tou sabeno cumpade, mas resolvi contá coisa pequena pra o gringo de periferia. Primeiro, apontei com o dedo a igreja Universal, que fica perto do ponto, onde vendo o meu caldo de cana no Parquinho, que é como a Praça Campo Grande do Beiru: você é daqui, você sabe. Junta um bocado de gente.  Aí lhe disse que esta igreja foi construída no lugar, que antigamente era o terreiro de Rufino do Beiru, babalorixá poderoso, conhecido por todo povo de santo da Bahia. A terra dele, né mermo? Ia até o campo Seco, já perto do cabula VI. Aí, lhe virei pelo contrário e apontei a delegacia.

“Tá vendo ali?”

“Estou.“

– ele respondeu, Zezeu, e eu continuei falando. –

“Ali, minino, era a fazenda Beiru, que o pai Miguel Arcanjo comprou, no tempo de antigamente, dos Hélios Silva Garcia, fundando a nação de Amburaxó. Toda essa história, escute! Dos antepassado, parece que foi enterrada pela força da igreja e da justiça, né não?”

“Parece.”

– Nessa hora, cumpade Zezeu, uns menino, uns êre que ainda não tinha estourado todas as bomba de São João, explodiu uma dessas perto do estudante, que se preparava pra fazê outra pergunta, mas, com o estrondo, ficou todo esquisito.

“O que é isso? É tiro, moço? É tiro!”

– A bomba, Zezeu, fez o estudante ficar todo borrado. Verdade. Acho que ele imaginou um monte de homi, com armas em punho, vindo, atirando em sua direção. Um, na esquina. Outro, no bar. No beco, no mercado, de couqué lugar poderia ví o tiro da sua morte naquele momento. O cara ficou louco. Ainda falei pra se acalmá que era só bomba, mas ele respondeu todo acabrunhado:

“Não; vou-me embora.”

– Ele, Zezeu, atravessou a pista, entrou no carro e desapareceu, esquecendo o caderno de anotações.

– Foi mesmo, Manoel? –

– Eh, cumpade Zezeu, pela primeira vez, o que disse de memória, ficou o escrito em minha mão. Acho que a roupa de pinguim ficou pra quem usa bermuda e peito aberto, né mermo? – Riram.

– É verdade, cumpade Manoel, é verdade.

– Agora… vei até um mote de um samba duro na minha cabeça, Zezeu. Vou anotá aqui no caderno do estudante mermo.

– Anota, cumpade. Anota.

– Pra cantá mais tarde com as sambadeira no terreiro.

Depois disso, Manoel preto juntou seu maquinário de trabalho e foi para casa, com Zezeu que morava perto, cantando pelas ruas o seu novo samba.

Muzungo medroso no Beiru

Muzungo medroso no Beiru

Corre ao primeiro zunzunzum

Corre ao primeiro zunzunzum.

– Eh, cumpade Zezeu, acho que tá tudo certo. O samba tá sendo feito, as menina já passa nos afazeres da festa. Agora, o gringo de periferia… Que muzungo medroso! –

Riram os dois, mas antes de entrarem em casa, Manoel Preto ainda falou uma última frase, sem parar de rir, a compadre Zezeu.

– O Beiru dá e deixa mermo, né cumpade! –.

Davi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.

ENGOMADEIRA: UMA HISTÓRIA DE ENGOMA

mapa engomadeira

Por: Davi Nunes

ALGUMAS estórias ESTÃO SEMPRE MINUSCULARIZADAS PELA CATARATA ORTOGRÁFICA DO DESCONHECIMENTO. TÊM ALGUNS ASSUNTOS QUE SÓ GANHAM RELEVO EPISTEMOLÓGICO EM CAIXA ALTA. NÃO DIGO ISSO PARA GANHAR A ATENÇÃO DO LEITOR PÓS-MODERNO, ATRAVÉS DE UMA ORGANIZAÇÃO ESCRITURAL INUSITADA, NO INTUITO DE TIRAR UM PEQUENO RETRATO, UMA FOTO 3 por 4 DA HISTÓRIA DO BAIRRO ENGOMADEIRA. EXPONHO PORQUE SEI QUE DEPOIS DE OPERADA A VISÃO (PERDIDA EM TREVAS) VISLUMBRA-SE UM MUNDO TODO EM CAIXA ALTA.

ENGOMA DE ACORDO COM OS ESTUDOS DA ETNOLINGUÍSTA YEDA PESSOA DE CASTRO, EM SEU LIVRO FALARES AFRICANOS NA BAHIA (2001), É UMA PALAVRA DE ORIGEM AFRICANO-BANTO DA LÍNGUA KIMBUNDO E KIKONGO, CUJA RAIZ É NGOMA E DAÍ SURGE NGOMADELE. ALÉM DISSO, DEVIDO AO PROCESSO DE CONTATO LINGUÍSTICO OCORRIDO NO BRASIL, O TOPÔNIMO ENGOMA JUNTOU-SE COM O SUFIXO PORTUGUÊS EIRA, FORMANDO A PALAVRA QUE NOMEIA HOJE UM GRANDIOSO CONGLOMERADO ARQUITETÔNICO DE CASAS, SUSTENTADAS POR VIGAS E BLOCOS NUS, FORMANDO AVENIDAS, RUAS E VIELAS, CONSTITUIDORAS DA ENGOMADEIRA.

A ENGOMADEIRA SE LOCALIZA NA REGIÃO CONSIDERADA “O MIOLO DE SALVADOR”, O CABULA. ALÉM DISSO, FAZ FRONTEIRA, EM SUA PARTE BAIXA, (CONHECIDA HISTORICAMENTE COMO ENGOMADEIRA PEQUENA) COM O CENTRO GEOGRÁFICO DO CABULA – O BEIRU; E EM SUA PARTE ALTA, DENOMINADA ENGOMADEIRA GRANDE, COM TODA A EXTENSÃO QUE MARGEA O FUNDO DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEB.

AS FRONTEIRAS DEMARCADAS ENTRE ENGOMADEIRA E BEIRU ERAM DETERMINADAS POR UM RIO QUE DIVIDIA OS DOIS BAIRROS, E SERVIA PARA AS MULHERES ENGOMADEIRAS, CANTANDO AS CANTIGAS QUE EMBALAVAM O TRABALHO E FORMAVAM A CULTURA DOS SAMBADORES ANTIGOS DO BAIRRO, LAVAREM E ENGOMAREM AS ROUPAS DOS CORONÉIS DO EXÉRCITO (PROPRIETÁRIOS DE FAZENDAS E DE CHÁCARAS NA REGIÃO ATÉ MAIS DA METADE DO SÉCULO PASSADO), MAS QUE ANTES, NO SÉCULO XIX, TINHA SIDO LOCUS DE RESISTÊNCIA QUILOMBOLA AO SISTEMA ESCRAVOCRATA BRASILEIRO.

O RIO DAS ENGOMADEIRAS SE TRANSFIGUROU EM UM CONTÍNUO DE DETRITOS HUMANOS, ELE PASSA ATÉ HOJE PELAS JANELAS DOS MORADORES DA ENGOMADEIRA PEQUENA. A CONSTRUÇÃO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS, EM 1965 A 1966, FOI O MARCO INICIAL DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO DO CABULA, ATRAINDO UM CONTIGENTE POPULACIONAL DO INTERIOR DA BAHIA (QUE FOI MORAR EM HABITAÇÕES ESPONTÂNEAS, CASAS DE PAU-A-PIQUE E EM OUTRAS, QUE JÁ TINHA O ENCADEAR SISTEMÁTICO DOS BLOCOS) PARA TRABALHAR NAS DIVERSAS OBRAS, MODELADORAS DO CABULA E DA ENGOMADEIRA EM SUA VITALIDADE MODERNA. TODO ESSE PROCESSO OCASIONOU A DESTRUIÇÃO DE GRANDE PARTE DA MATA-ATLÂNTICA E NA MORTE DOS RIOS.

UTILIZA-SE A TERMINOLOGIA MODERNA AQUI, AGREGANDO OS VALORES CONSTRATANTES QUE LHE DÃO SIGNIFICAÇÃO. NO CABULA TÊM-SE LOCAIS E HABITAÇÕES QUE SE APROXIMAM DOS ÍNDICES DE VIDAS EUROPEIAS, COMO TEM OUTROS, A EXEMPLO DOS INTRA-BAIRROS DA ENGOMADEIRA, AS BAIXADAS E AS “BOCADAS”, QUE APRESENTAM, AO MÍNINO VOLTAR DE OLHAR, AO HORIZONTE DE ALGUM BECO DO BAIRRO, CONDIÇÕES DE MISERABILIDADE SEMELHANTES AOS DOS PAÍSES MAIS POBRES DO MUNDO.

A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO TRANSPOSTO NESTE BREVE ENSAIO ADVÉM DE UMA REDE DE TESTEMUNHOS ORAIS, PASSADOS DO MAIS VELHO AO MAIS NOVO, DA BOCA PARA O OUVIDO, E QUE AGORA GANHA STATUS DE ESCRITA PELAS MÃOS QUE BUSCAM ESCREVER COMO SE ENGOMASSEM O TECIDO TÊNUE DE UM POVO FEITO DE NGOMA, FEITO DE TAMBOR.

A OPERAÇÃO REALIZADA, AQUI, REVESTE O CRISTALINO DA HISTÓRIA NGOMA COM AS IMAGENS EM SEUS ASPECTOS ANCESTRAIS: QUILOMBO, SAMBA, MULHERES ENGOMADEIRAS, CASA DE TAIPA, MANDINGA, RIOS, TILÁPIAS, AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA E TAMBÉM COM AS SUAS FEIÇÕES MODERNAS: ENTRECRUZAR VELOZ DE CARROS, MOTOS E TRASEUNTES; O MULTIPLICAR DE “BECOS-ZIGUE-ZAGUES”, O COMÉRCIO DE BENS E SERVIÇOS, A POLIFONIA RITMICA DO PAGODE, O RAP, O GRAFITE; TODO UM ESTRUTURAR MULTIDIMENSIONAL PERIFÉRICO QUE SÓ PODE SER VISLUMBRADO, EM SUA GRANDIOSIDADE CULTURAL E HUMANA,  COM O ABRIR DOS OLHOS, PERDIDOS NA CATARATA ORTOGRÁFICA DO DESCONHECIMENTO, EM CAIXA-ALTA.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

Cabula: resistência quilombola – uma ascendência Cabulosa

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Por: Davi Nunes

uma minúscula estética gráfica, dessas que se revelam mais no implícito, como um quilombola da mata Cabula, no século XIX, observando, em tocaia de mato escuro, os soldados imperiais, os milicianos de Pirajá; ou como um negro nos intra-bairros (becos e vielas) das periferias contemporâneas – em esconderijo perscrutador de arma de polícia – se desvela neste breve ensaio para explicitar elementos da história do centro geográfico da cidade do Salvador-Ba – o Cabula.

o topônimo Cabula /kimbula/ segundo estudos da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro  em seu livro Falares africanos na Bahia (2001) é uma palavra de origem banto da Língua Quicongo. A palavra está ligada ao sentido simbólico litúrgico da comunidade africana congo-angola e quer dizer “Lugar de afastamento dos males”. Os bantos, povos africanos mais antigos a chegarem ao território brasileiro, século XVI, principalmente do Congo e Angola, tentando se afastarem dos males da escravidão, fundaram e nomearam o Quilombo do Cabula. a Cabula designa também um ritual: era um toque, ritmo que os quilombolas faziam para irem à guerra – uma espécie de chamamento para a luta. os mais velhos da região diziam que os toques da Cabula iam das matas do quilombo e eram ouvidos no centro histórico e comercias da Cidade do Salvador, onde se agregavam muitas hordas de escravizados de ganho e os engenhos da cidade – os espíritos do congo aperreavam a cabeça dos escravocratas através dos tambores da Cabula.

o Quilombo do Cabula foi destruído em 1807, quando João Saldanha da Gama, Conde de Ponte, que era então governador e capitão general da capitania da Bahia, mandou o Capitão-Mor das Entradas e Assaltos do Termo da Cidade do Salvador, Severino da Silva Lessa, invadir o quilombo: ele tinha se tornado um lócus de resistência ao sistema escravocrata na cidade, destruindo as casas do arraial que o formava, e aprisionando setenta e oito aquilombados entre escravizados e forros.

o quilombo é o espaço de reminiscência ancestral, de lembranças da liberdade; foi o primeiro local onde o escravizado no Brasil pode se reconhecer livre. Por isso, um ponto crucial para a construção de uma identidade contemporânea positiva. uma espécie de “quilombo-ascendência”, que modernamente modela ainda hábitos e costumes, reconstruindo nos guetos e nas favelas ações de resistência cultural, religiosa e histórica e, notadamente, no Cabula, nos bairros localizados no antigo Quilombo: Cabula, Engomadeira, Beiru, São Gonçalo, Saboeiro, Mata Escura, Jardim Santo Inácio, Arraial do Retiro, Sussuarana, Pernambués, Narandiba, Doron, Resgate, Estrada das Barreiras e Arenoso, se manifesta ainda na preservação de uma memória coletiva ancestral. esta memória coletiva tem como principal templo preservador os terreiros de candomblé espalhados pela região. a quilombo-ascendência, nesse sentido, seria uma concepção de ancestralidade a qual busca a construção de uma identidade afro-brasileira que não se esgote no arquétipo mítico da África ancestral; mas se construa também a partir do espaço concreto da liberdade para os crioulos, negros brasileiros nascido aqui, quanto para os que vieram com o tráfico negreiro – que é o quilombo.

Desde a década de 70 e, atualmente, com maior densidade, os empreendimentos imobiliários no espaço vêm destruindo a mata atlântica do bairro para verticalizar a classe média soteropolitana em seus cúbicos modernos, espreitando a existência no individualismo de apartamento, de caixa de fósforo, construindo shoppings, destruindo o que, de terra e verde, ligava o bairro ao passado ancestral. o que se destrói de natureza, se extingue também de história oral: cada animal morto é uma anedota perdida; cada planta medicinal extinta, menos uma receita de cura passada do mais velho ao mais jovem; cada passarinho morto, menos uma aventura na infância; cada rio poluído, menos enredo para a estória de pescador. são as implicações da contemporaneidade, mas os signos que eram quilombolas vão, de certa forma, resistindo ainda à dinâmica veloz da urbanidade, mantendo um modelo civilizatório nas periferias (contínuo de vivências quilombolas) costuradas durante todo esse tempo até chegarem à atualidade.

o Cabula se encontra no espaço não oficial da história da Cidade do Salvador; é um quilombo de estórias, apesar de existirem alguns documentos escriturais como a carta que o Conde de Ponte remeteu ao ministro da Marinha e Ultramar, em 7 de abril de 1807, falando da destruição do Quilombo do Cabula e algumas pesquisas, valendo-se aqui ressaltar o brilhante livro Ecos que entoam uma mata africano-brasileira da professora e pesquisadora Janice de Sena Nicolin, publicado pela EDUFBA (2014) tem-se muito ainda a se pesquisar sobre a história da região.  no entanto, muito se restitui através do testemunho oral, passado de terreiro a terreiro, do mais velho ao mais novo, transpassando tradições e costumes de séculos, preservando e fortalecendo a ascendência quilombola dos moradores da região, e que, agora, se explicita em minúscula estética gráfica no corpo deste breve ensaio cabuloso.

Colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.