Frontispício

igreja nossa senhora do rosário dos pretos

 

Por Davi Nunes

I

O frontispício da Igreja de Nossa Senhora Do Rosário dos Pretos – azul mítico de ébanos segredos – não esconde a história de amor e sofrimento de Manoel Mambí com a bela Ashanti; Guarda-a em sua camada mais profunda – abissal – em seu reboco primeiro, demão de um pedreiro crioulo em 1685, ano de sua fundação, segundo alguns historiadores reminiscentes. A história de Mambí e Ashanti só se manifesta, e vem se manifestando há séculos, através do sagrado – tambores ancestrais entoando enredos na alma, em momentos de fé, na Terça da Bênção no Pelourinho – só assim que se apresenta, inevitavelmente. E foi dessa forma que o jovem historiador de guetos, Zezé Santos, fora arrebatado em voos de repique de tambor, à época de Mambí, quando estava sentado na placidez espiritual de um dos bancos da Igreja de Rosário dos Pretos, rezando e aguardando o momento de ir encontrar a noiva e fotógrafa, Samira Flores, na sua casa, localizada no bairro do Santo Antônio Além do Carmo.

II

Zezé, perdido nas reminiscências históricas e ancestrais, viu Mambí carregando na cabeça, junto com outros pretos da irmandade do Rosário, as pedras que tiravam da pedreira do Taboão (subindo e descendo em passos de paralelepípedos as ladeiras) para construírem a igreja – mocambo de negros nas vistas de brancos. Zezé observou Mambí em olhar terno de amor com a bela Ashanti e com o plano de fuga para o Quilombo do Cabula. Amor vivido em liberdade nasce filhos de ventre livre. Fugiu com Ashanti. Léguas para liberdade. Foram emboscados. Ele matou um capitão do mato, mas fora capturado, afastado do seu amor, açoitado e decapitado na Ladeira do Pelourinho. Zezé ainda viu a procissão emocionante do enterro de Mambí, organizado pela Irmandade do Rosário dos Pretos e o desespero de Ashanti em grande comoção e revolta.

III

Zezé voltou das reminiscências históricas, entendeu a mensagem que Ogum mandara através dos tambores. Agradeceu. Fora para a casa de Samira Flores. Viu traços de Ashanti nela, abraçou-a como se fosse a primeira vez e declarou de novo o seu amor.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

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CINZAS

cinzas imagem.

Por Davi Nunes

“As cinzas não caem à toa no café, é um momento onde todos os malditos dedos do mundo estão a pesar sobre o cigarro angustiante da sua vida; o sarcasmo escroto do sistema.” Este pensamento chegou a Toni no dia em que as circunstâncias do cotidiano haviam corroído toda a sua dignidade na multidão invisível de uma metrópole do século XXI. Na verdade, essa sentença se fez presente em sua consciência, numa noite que observava dentro da quitinete, em dívida de dois meses de aluguel e sentindo um ódio que se revelava em expressões agudas por todo seu corpo, as cinzas se dissipando na escuridão, na madrugada angustiosa do copo de café.

Antes, às seis e meia da manhã, havia acordado, o despertador alarmava às seis, estava atrasado. Vinha logo à cabeça a supervisora de área do trabalho de operador de telemarketing com seu chiclete a estralar ordens e ameaças sacanas. Tinha a ligeira sensação que era melhor não sair da cama, mas sensação não paga as dívidas. Saiu afobado. Tropeçou-se no tapete, bateu a cabeça na soleira do armário. Pensou que era melhor ficar na cama de novo. Vestiu-se, tomou café. Pôs-se à rua. Fumou o primeiro cigarro do dia, andando em direção ao ponto de ônibus. Tinha chovido na madrugada, a pressa não o fez ver as poças de água na pista, e o ônibus – que não conseguiu pegar para ir ao trabalho – apagou o seu cigarro, como o fez tomar o primeiro banho do dia. Desgraçados! Chegou ao ponto: um, dois, três minutos acendeu outro cigarro, assim que o viu aceso – enxergou já parando a condução. Não conseguiu apagá-lo na sola do sapato para colocá-lo de novo na carteira. Merda! O ônibus já estava lotado. Toni aí vai pendurado, surfando em sua porta, sentindo um vento que só os grandes velocistas do mundo já sentiram.

Depois, não sem dificuldade, conseguiu entrar no ”buzu”. Tentou abrir caminho no meio desse enxerto de humanos, indos para as suas obrigações ordinárias. Sem querer, encostou demais na bunda de uma mulher interposta no corredor da condução. Ela se revoltou. Todo o dia sempre tem um tarado, querendo encostar em minha… Desculpe senhora. Desculpe uma por… Todos o observam com olhos de reprovação, o linchamento parecia uma certeza, mas desceu do ônibus, ouvindo os impropérios mais absurdos que um ser humano poderia ouvir.  No trabalho: a mesa, computador e o café frio que a funcionária dos serviços gerais lhe entrega. Nunca dizia muita coisa, sempre agradecia com um sorriso amarelo na boca. Muito obrigado. A educação era o ponto mais fodido da sua personalidade, não era aquela altiva, clássica, mas subserviente.

A supervisora apareceu olhando o relógio, além de mascar e estralar o seu renitente chiclete, que o fazia se lembrar de alguns colegas da universidade: eles mascam e engolem o cuspe como se tivessem apreendendo, a cada mascada e engolida, um conhecimento importante para as suas pretensões acadêmicas. A supervisora carregava os traumas escolares em sua alma, pois no colegial, utilizando o ditado popular: ela não cheirava e nem fedia, era a opacidade absurda de um ser no ambiente social. Mas agora expelia o cheiro neurótico da arrogância: sussurrava, depois gritava em seu ouvido, batendo imperiosa em sua mesa. Atrasado! Atrasado! Atrasado! Vai trabalhar mais uma hora pra suprir o tempo perdido. Depois estralou a maldita bola em seu ouvido. Poki. Toni a imagina, neste ínterim, se engasgando com o nauseante chiclete e ele lhe dando milhões de tapas em suas costas, mas não seria para ela expelir a goma, era para fazê-la descer tripa a baixo. Não falou, entretanto, nada, martirizando-se em seis horas inúteis de trabalho repetitivo. Depois sabia que ia chegar atrasado à universidade, era dia de prova final, pressupunha que tinha passado, porém uma amiga lhe ligou, dizendo que teria que fazer a prova. Como vou fazer? Se fiz vinte e um pontos? Refletia perplexo. Antes de chegar à universidade passou num caixa eletrônico, deveria ter o dinheiro da bolsa de iniciação científica. Três meses de atraso. Não tinha nada, saldo zero. A professora já com um sorriso insosso no rosto o recepcionou:

– Boa prova, Toni.  Pra mim, você não vinha? –

– Obrigado, professora, vim. – Falou resignadamente.

A porra da caneta falha. Teria que pedir para alguém – a professora não tinha. De repente, ninguém possuía uma caneta em toda universidade. Correu fodido por todos os corredores. Uma caneta! Uma Caneta! Ninguém tinha. Vê a da funcionária do protocolo puxa-a, estava amarrada por uma corda. Arranca-a da corda e vai correndo fazer a prova.

– Tem só meia hora, Toni. – Falou a professora.

Fez a prova, respondeu só o suficiente para ela não o reprovar. Agora, a fome. Sim. Porém, não conseguiu nem pensar numa maneira de saciá-la, quando o dono da cantina apareceu em sua frente. Me deve trinta, viu Toni? Vai me pagar quando? Engoliu a saliva e se sentiu saciado. Amanhã seu Fernando, amanhã. Estava ferrado: a ampulheta da sua vida já havia escoado quase toda areia da sua dignidade. Restava ir para casa. Já era tarde. Mas escutou, como uma faca atravessando o ouvido, a voz do diretor do departamento o chamando. A funcionária me disse o que você fez. Disse que feriu ela. Por muito pouco já dificultei a vida de alunos nesse departamento. Essa passa, mas de uma próxima providenciarei seu jubilamento. Me dê, logo, a caneta! O corpo de Toni já se sobressaltava em espasmo de raiva, raiva que se processava nas entranhas de um dos “condenados da terra” ao olhar as palavras em câmara-lenta, saindo da boca do diretor, no entanto se controlou e falou:

– Tá bom, senhor. Não irá se repetir. –

Voltou para casa fazendo uma retrospectiva desse maldito dia, encontrou a namorada nervosa com mochila pronta para ir embora. Escutou de novo milhões de impropérios, que salientavam a sua condição de fodido no mundo.   Os espasmos estavam se tornando cada vez mais fortes.  O coração estava se tornando uma bomba relógio pronta para explodir, quando ele a enxergou batendo a porta, indo embora. Que se fo… Exclamou dentro da quitinete. Restava-lhe, assim, o café e o cigarro. Seria a melhor coisa que iria acontecer nesse dia cão. Aprontou com certa rapidez, pôs no copo, tomava amargo mesmo. Acendeu o cigarro uma, duas, três tragadas. A cinza já se fazia em extensão, o cinzeiro estava próximo do copo. As sucessões dos acontecimentos rodavam a sua mente como fantasmas. Quando, de súbito, como se a ampulheta da sua vida estivesse escoando o último grão de areia da sua dignidade, ele sentiu os dedos do mundo todo pesarem sobre o seu cigarro, batendo as cinzas no café.  Um ódio se revelou em expressões agudas por todo o seu corpo ao ver as cinzas se dissipando na escuridão, na madrugada angustiosa do copo de café. Num outro momento as expressões se paralisaram, ficaram estáticas, e o pensamento já se formara em sua mente: “As cinzas não caem à toa no café, é um momento onde todos os malditos dedos do mundo estão a pesar sobre o cigarro angustiante da sua vida; o sarcasmo escroto do sistema.” Esta conclusão o fez ficar olhando mais fixamente para o copo, mas não só olhando: fora arrebatado por uma ação propulsora que o fez pegar o copo e engolir de um só gole as cinzas no café. Na verdade, engoliu a namorada, o diretor do departamento, a funcionária, a professora, a supervisora, a mulher no ônibus, a poça d´agua, engoliu o sistema de uma só vez, e agora iria cuspi-lo para se tornar um sujeito, em pleno século XXI, construtor da sua própria história.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

ESTRADA DAS BARREIRAS: A ARQUEOLOGIA QUILOMBOLA E O GENOCÍDIO DOS JOVENS NEGROS NA VILA MOISÉS

estrada das barreiras

Por Davi Nunes

A estrada quando era de barro, era mais fácil de tracejar os passos quilombolas: os pés que marcavam o chão – deixavam rastros de destinos. É fato. A episteme dos passos no Cabula fora soterrada pelo concreto da urbanização atual, pela desapropriação de quem fundou, originalmente, modelos civilizatórios africanos na região para verticalizar a classe média soteropolitana em seus cubículos de brancos encardidos. Mas ainda é possível perscrutar com os olhos para ver as marcas das pegadas dos ancestrais sob o asfalto quente, sob as pistas, para extrair, neste breve ensaio, nuances da história da Estrada das Barreiras, localizada no Cabula, no miolo da Cidade do Salvador-Ba.

A Estrada das Barreiras já foi nas décadas iniciais do século XX, segundo os moradores mais antigos, chamada de Estrada dos Bois, pois servia de passagem do gado que vinha da BR 324 para o Matadouro do Retiro. O barreiro se esvoaçava em poeira ao passar mortal dois bois e antes, no século XIX, servia como trilha para a mata escura, para o profundo do Quilombo do Cabula, destruído em 1807 por ordem de João Saldanha, Conde de Ponte, governador e capitão geral da Bahia na época.

Na Estrada das Barreiras tem-se também um dos templos religiosos afro-brasileiros mais importantes do Brasil, O terreiro Viva A Deus, que vem da antiga raiz do Tumbensi, uma casa de Angola, tida como a mais antiga da Bahia, fundada por um escravizado angolano, chamado Roberto Bairro Reis, em 1850. O Viva Deus conflui e preserva, em si, tradições seculares da socioexistência quilombola no lugar.

Pode-se notar que a Estrada das Barreiras é uma espécie de espinha dorsal. Ela começa na entrada do bairro Engomadeira e vai até a entrada da Rua Direta do Beiru e tem em suas duas margens conjuntos habitacionais, na verdade: de um lado o bairro Barreira, constituído com seus vários intra-bairros: ruas, vielas, guetos, os quais possuem um modo civilizatório próprio, constituidor de uma periferia urbana, com toda multidimensionalidade e linguagens que as compõe. Do outro lado se encontra à entrada da rua direta do Arraial do Retiro e vários outros intra-bairros também que formam a Barreira, valendo-se destacar aqui, A Vila Moisés, especificamente, por ter sofrido uma ação sintetizadora da opressão histórica, impetrada pelo Estado baiano aos moradores fundadores da territorialidade e sociabilidades, advindas de uma tradição quilombola no Cabula.

A Vila Moisés está na margem baixa da Estrada das Barreiras, é em sua maioria erigida de casas de blocos nus, lajes e telhas de Eternit, formando becos “zigue-zagues” que descambam num campinho, o qual tem, em seu fundo, um restante de mata atlântica, que formava, antes da explosão urbanista, toda a região do Cabula. No campinho, local de invencionices futebolísticas, do rolar dos sonhos em dribles, das “piculas” infantis, doze jovens negros, na madrugada do dia 6 de fevereiro de 2015, foram brutalmente assassinados pela polícia militar, depois tiveram seus corpos dessecados pelas falácias da imprensa sensacionalista baiana e as lágrimas de mães, esposas, de todos os parentes e moradores da comunidade desrespeitadas pela “injustiça”, pois os policiais foram absolvidos pela juíza Marivalda Almeida Moutinho, no dia 24 de julho deste mesmo ano.

Seis dias após o genocídio dos jovens, no dia 12 de fevereiro, participei da passeata organizada pelo grupo Reaja ou será morto, Reaja ou será morta. Cheguei no campinho,  pude ver, como todos que estavam lá, capsulas de balas, sandálias espalhadas ao desespero do fim da vida, os choros agônicos das mães e parentes desolados – o horror e a desumanidade esgaçadas à vista.

A história do Cabula, dos quilombolas que fundaram a região e moram hoje na periferia fora sempre resistindo às ignominias estruturais e raciais do Estado brasileiro: Foi assim em 1807 com a destruição do Quilombo do Cabula; foi assim na Operação Beiru em 1996, onde, em um mês, 52 jovens negros foram assassinados pela polícia. Exterminaram no bairro uma geração. Inocularam para sempre na alma das mães e pais o sangue dos filhos nos olhos. Hoje é assim na Vila Moisés, na Estrada das Barreiras. É secular a voracidade sanguínea e sistêmica dos cães mandibulares. É secular as impetrações dos governantes na Bahia, estruturando a cada época um novo extermínio.

A espinha dorsal, a Estrada das Barreiras, tem margens compondo o corpo geográfico, fundado na arqueologia transformadora do quilombo, que já são soantes no peito de muitos e se imiscui no verso do rap, nos grafites nas paredes, no gritar empoderado das mães, na gana dos jovens que arquitetam futuros, nas marchas contra o genocídio do povo negro a cada ano ganhando um escopo político e social maior, nas consciências a se enegrecerem em cada gueto, viela, favela e já buscarem ações para a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

BAIRRO SUSSUARANA E OS SUSSUS ANCESTRAIS

sussuarana

Por: Davi Nunes

É difícil seguir o rastro da história depois que a mata foi devastada. Quando a suçuarana já fora extinta no ambiente e tudo virou esgoto e pista. Não é fácil. Mas abstrair o passado e o reconstruir é reviver signos latentes no peito, na conversa com os mais velhos, nos terreiros – templos sempre iluminadores – na transcendência dos tambores, no movimentar periférico afro dos jovens, e colocá-los na vitrine resplandecente do mundo, a escrita. Pelo menos é assim que se explicita na contemporaneidade.  Por isso, o esforço, neste breve ensaio, em colocar ao sol escritural a história do bairro Sussuarana, localizado no centro da península soteropolitana, em Salvador-Ba.

A palavra Sussuarana tem o radical sussu e de acordo com os estudos da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro em seu livro Falares Africanos na Bahia (2001) súsu, topônimo da língua Quimbundo, quer dizer algo “que atemoriza”. O temor está relacionado com a existência das onças suçuaranas que até a década de 70 do século XX, devido à densa mata existente, podia se encontrar na região.

A professora e pesquisadora Janice de Sena Nicolin no seu livro Ecos que entoam: uma mata africano-brasileira demonstra que Nina Rodrigues (1990) refere-se ao povo sussus, lembrados por africanos escravizados numa entrevista que ele fez. Apreensão da experiência afro para estigmatizá-la. O bom disso (se é que se tem algo bom) que ficou o registro. Necessário. Ademais, no livro publicado pela UNESCO em 1980, História da África, Vol. IV encontra-se a referência sobre os povos Sussus: povos isolados que viviam na Serra Leoa, onde ficavam os Mandingas, a língua usada por eles era o mande, a mesma dos Mandingas. Assim percebe-se que a nomeação do bairro, como a fundação de uma vivência livre se deu com os aquilombados, que, no Quilombo do Cabula, no século XIX, lutaram e resistiram à escravidão.

A destruição da mata atlântica ocasionado pelo processo de urbanização e de inchaço demográfico desde fins da década de 60 no Cabula e que, especificamente, ocorreu na Sussuarana em 80, fez com que as onças fossem extintas no ambiente.

A grande Sussuarana abrange uma área composta por Nova Sussuarana, Novo Horizonte e Sussuarana, além de vários loteamentos e conjuntos habitacionais. Um estabelecimento importante muito próximo do bairro é o Centro Administrativo da Bahia, local onde se organizar os desmandos, se engendra agora as opressões que são seculares do Estado baiano.

A Sussuarana como um dos bairros do que era o antigo Quilombo do Cabula, destruído em 1807, hoje é uma conjunção arquitetônica de casas erigidas de blocos nus, de ruas, avenidas, além de todo um complexo demográfico que compõe um grande bairro periférico de Salvador. No entanto, o periférico é vista aqui como um centro, lócus de explosão de humanidades, lastro comunitário secular que compõe a região e constrói histórias: haja vista o Sarau da onça, voz poética imposta para expressar os anseios diante da desesperança, as revoltas frente ao genocídio impetrado, a sensibilidade estética diante da dor dos jovens negros que já são mais do que Sussuarana, são sussus.

A sussuarana como os outros bairros que formam o Cabula são épicos, confluem em si a história de luta secular da negritude baiana, resiste as intempéries institucionais, ao racismo que oblitera e cheira a morte, tem no modelo civilizatório periférico, o germe revolucionário do quilombo, o poder para a grande virada, para a transformação.

Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil

Bairro Mata Escura: gueto urbano – resistência quilombola

mata escura

Por: Davi Nunes

As histórias tiradas do profundo da mata, no curvar estratégico do rastro de mocambo, para deixar a força policial da província do Salvador, no século XIX, desnorteada no Quilombo do Cabula, são transpostas, neste breve ensaio, para tecer conhecimentos a cerca do bairro Mata Escura, localizado no miolo da Cidade do Salvador-Ba.

As marcas linguísticas, ou a influência das línguas africanas, sempre foram presentes para demarcação e nomeação de territórios na região do quilombo, haja vista Cabula, palavra de origem banto, além de Beiru, ou Gbeiru, ioruba, e Engomadeira – união do topônimo de origem africano-banto da língua Kimbundo Engoma com o sufixo português Eira. Da mesma forma existe a palavra ioruba Igbedú que quer dizer em português Mata Escura. Todas essas palavras demonstram claramente a existência de modelos civilizatórios africanos no Cabula, sendo o bairro Mata Escura um dos construtos quilombolas importantes da região.

A Mata Escura fora um dos locais mais seguros para o aquilombamento no passado, devido à profundidade da floresta atlântica, e após o “final” da escravidão, surgiu, aproximadamente em 1900, uma instituição religiosa demais importante: o terreiro de candomblé Inzo Manzo Bandukenké, atual terreiro Bate Folha, de nação angola, tombado pelo IPHAN, em 2003, como patrimônio da cultura Afro-brasileira.

bate folha

Outro aspecto relevante da história do bairro fora a construção em 1930, para o abastecimento de água da cidade, de duas represas – Prata e Mata Escura – no Rio Camurujipe, que era o maior de Salvador. Ele cortava, de lado a lado, o bairro e hoje é um deposito de detritos humanos, esgoto soterrado sob asfalto e pista. As represas foram projetadas pelo engenheiro Teodoro Sampaio e até 1987 abastecia boa parte da Cidade do Salvador.

Outra obra erguida em 1950 no bairro, complexo de grilhões, no lugar onde no passado os quilombolas tinham plantado axé, construído espaço de liberdade, é a penitenciária lemos de Brito, maior presídio do Estado, depositário de homens e mulheres, em sua grande maioria, negros e negras, “vigiados e punidos” devido às arregimentações dos tribunais e leis brancas.  

A estruturação atual do bairro teve início na década de 80 com obras de urbanização: foi quando construíram vários conjuntos habitacionais, porém devastaram muito da reserva atlântica local, além das estruturações espontâneas dos bairros e intra-bairros e do inchaço demográfica, devido à chegada de muitos trabalhadores do interior. Eles vinham trabalhar nas obras edificadoras do Cabula e da Salvador contemporâneo, de modo que assim ajudaram também a construírem a modelação periférica do bairro.

A periferia aqui é entendida em sua multidimensionalidade, lócus de manifestações humanas diversas e densas: arquitetar de casas de blocos nus, de guetos que entrecruzam vozes, constitui solidariedades na dinâmica da sobrevivência comunitária, no atentar do sangue escorrido, genocídio, do rap posto, papo reto, do grafite no muro, abrindo horizontes, da quebradeira do pagode, ritmado, do tambor tradicional que nos corações livres ainda soam Igbedú, a reconstruir os rastros estratégicos do mocambo consolador, a restituir a grandiosidade original do bairro Mata Escura.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

 

 

 

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Narandiba em negrito: da natureza abundante à modelação periférica do bairro

narandiba foto

 

Por: Davi Nunes

 

Estórias sempre deveriam ser grafadas numa estética escritural em negrito. Essa fonte tem o ensolarado civilizatório, queima a palidez fantasmagórica e clássica do papel em branco, explicita, cria outras civilizações, finca territórios: quilombos, tribos, guetos, favelas, transpassam culturas e costumes no boca a boca atemporal da oralidade. Uma episteme, assim, surge vivaz, “barulhenta” ressoante como som de tambor, a tecer e construir, neste breve ensaio, conhecimentos sobre o bairro Narandiba, localizado no Cabula, centro geográfico da Cidade do Salvador-Ba.

            Narandiba é uma palavra de origem tupi-guarani: [narã(laranja) + diba ( lugar)], ou seja, significa literalmente “lugar com muita laranja”. O Cabula, até a metade do século passado, se caracterizava como local que possuía muitas fazendas de laranjas, responsáveis por abastecer, com este produto, grande parte da Cidade do Salvador. Dessa herança cítrica e agrária está à origem do nome do subdistrito. Com a modelação moderna do bairro: a construção da Avenida Edgar Santos, do Hospital Geral Roberto Santos, do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, entre outras obras, que incentivaram a vinda de um grande contingente populacional do interior do Estado – foram-se as laranjas, ficou-se o belo nome indígena.  

 cabeção       Monumento a Edgar Santos 

Narandiba é toda delimitada por marcos institucionais: o monumento ao médico e primeiro reitor da Universidade Federal da Bahia-UFBA, Edgar Santos (1884-1962) conhecido por todos os moradores do bairro como “cabeção”, localizado na encruzilhada entre Cabula, Narandiba e Saboeiro, onde as oferendas a Exu, orixá da comunicação, da fertilidade, são ofertadas para abrir o canal de comunicação e pedir a bênção a todos os ancestrais, que na escravatura, foram quilombos do Cabula. Outra instituição importante é o hospital, que leva a nomeação do médico, professor e político, Roberto Santos, hospital que trata das enfermidades dos soteropolitanos, como dos baianos de diferentes municípios; além disso, outro estabelecimento tradicional no bairro é o hospital psiquiátrico que leva o nome do primeiro professor universitário negro no Brasil, um brilhante intelectual, percursor da psiquiatria brasileira, Juliano Moreira (1873-1932).

Juliano_Moreira           Juliano Moreira

A ocupação do território do bairro, com a densidade demográfica que se encontra na atualidade, começou há pouco tempo, na década de 90, se comparado com outros subdistritos do Cabula. Nesta época, o morro que fica embaixo do Hospital Geral Roberto Santos foi sendo ocupado, como as margens direita e esquerda da Avenida Edgar Santos, constituindo, não sem a opressão do Estado, os intra-bairros, denominados pejorativamente de “invasões”, que foram formando guetos, os quais possuem uma dinâmica permeada de trocas solidárias, traços reminiscentes de quilombo; a construir costumes, hábitos e culturas, formando outro modelo civilizatório menos empalidecido, mais negrito.  

Segundo estórias contadas pelos moradores mais antigos do bairro, ao remontar as memórias de Narandiba anterior à constituição contemporânea e urbana: a região tinha belos rios, fontes de água, cachoeira, além da abundancia de frutas, de pescados e de caças. Há relatos também que no local onde hoje é uma praça, a “Rótula do Juliano”, lugar de recreação, shows de pagode, de hip-hop, jogos de futsal e basquete; um espaço de entretenimento coletivo dos moradores da comunidade, mas que em épocas remotas foi um rio, o qual o povo saía do Beiru, e de outros locais do Cabula, para se banhar nele. Boa parte do território nessa região era revestido de água doce e com a modernização periférica do bairro tudo foi virando asfalto, pista, esgoto.

            Outro aspecto de Narandiba é o forte comércio de bens e serviços (formais e informais), eles dinamizam o cotidiano da comunidade. Mercadinhos, mini-shoppings, padarias, pequenas empresas, além da multinacional brasileira, a Odebrecht, que se encontra instalada no subdistrito. A mata atlântica foi quase completamente destruída, a natureza já não oferta os frutos, que até o início da década de 90, se conseguia com facilidade. Tudo agora se possui e se consome pelo intermédio do “Deus visível”, o dinheiro.

No interior dos intra-bairros se encontra ainda, em Narandiba, resquícios da constituição antiga do bairro. Na mata restante se sente o cheiro de quilombo; nas casas de laje, telhas e blocos vermelhos, todos olham ainda a vida um dos outros; compartilham os medos, as estórias, as violências cotidianas; resistem, com coragem, às intemperes da vida; constroem costumes, hábitos e culturas, um modo civilizatório em cor negrita.

Davi Nunes, graduado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, é poeta e contista.

Gringo de Periferia: pequena crônica sobre o bairro Beiru

ilustração: Maicon NascimentoApresentação1

Por: Davi Nunes

– O Beiru dá e deixa, né cumpade? Onti um desses minino de faculdade, que chega na favela e todo mundo, só de vê de longe, já sabe que nun é daqui,  igual a gringo no Pelô,  me perguntou sobre o finado Rufino. –

Falou isto Manoel Guerreiro ao seu compadre Zezeu, espremendo, com a sua máquina antiga, até o bagaço, para preencher o copo do freguês com caldo de cana de açúcar. Zezeu, no momento da pergunta, olhava a rua direta do bairro Beiru e via muita gente que subia e descia do Arenoso, que já fora um dos locais mais bonitos do Cabula, com rios e barros de diferentes cores, formando uma inebriante paisagem.

– Perguntou mermo, foi cumpade Mané?

– Perguntou, Zezeu.

– Vixe!

– Me perguntou como era o pai Rufino… Lhe disse que era preto com cabelo de índio tupinambá. Aí, depois continuei o meu serviço. Ele fez uma cara de muzungu medroso, como se fosse lhe acontecê uma coisa de ruím a couqué momento, anotou no seu caderninho e tomou corage pra fazê outra pergunta.

“Em que lugar era o terreiro de Rufino e o de Miguel Arcanjo, o senhor sabe?“

– Não tenho costume de respondê muita coisa pra essa gente de fora, cumpade Zezeu. Ainda mais, depois que uma das fía do finado Rufino, me disse que… Eles bota na internet as coisa diferente do que a gente fala… Que eles pega a nossa história e veste a roupa da história deles.

– É verdade, cumpade Mané. Isso acontece mermo.

– Mas, escute Zezeu, nesse dia eu tava de boa, ia abrí uma brechinha. Sei que, muita vez, a história dita é melhor do que história não dita. Fui vê que roupa ia sê vestida, né.

– Você que sabe, Mané. Espero que tenha sido a bermuda com o peito aberto, que é o que a gente veste, né mermo? Agora se fô aquelas roupa de pinguim, dos homi, das novela… Saia fora, que é esparro. – Riram os dois.

– Tou sabeno cumpade, mas resolvi contá coisa pequena pra o gringo de periferia. Primeiro, apontei com o dedo a igreja Universal, que fica perto do ponto, onde vendo o meu caldo de cana no Parquinho, que é como a Praça Campo Grande do Beiru: você é daqui, você sabe. Junta um bocado de gente.  Aí lhe disse que esta igreja foi construída no lugar, que antigamente era o terreiro de Rufino do Beiru, babalorixá poderoso, conhecido por todo povo de santo da Bahia. A terra dele, né mermo? Ia até o campo Seco, já perto do cabula VI. Aí, lhe virei pelo contrário e apontei a delegacia.

“Tá vendo ali?”

“Estou.“

– ele respondeu, Zezeu, e eu continuei falando. –

“Ali, minino, era a fazenda Beiru, que o pai Miguel Arcanjo comprou, no tempo de antigamente, dos Hélios Silva Garcia, fundando a nação de Amburaxó. Toda essa história, escute! Dos antepassado, parece que foi enterrada pela força da igreja e da justiça, né não?”

“Parece.”

– Nessa hora, cumpade Zezeu, uns menino, uns êre que ainda não tinha estourado todas as bomba de São João, explodiu uma dessas perto do estudante, que se preparava pra fazê outra pergunta, mas, com o estrondo, ficou todo esquisito.

“O que é isso? É tiro, moço? É tiro!”

– A bomba, Zezeu, fez o estudante ficar todo borrado. Verdade. Acho que ele imaginou um monte de homi, com armas em punho, vindo, atirando em sua direção. Um, na esquina. Outro, no bar. No beco, no mercado, de couqué lugar poderia ví o tiro da sua morte naquele momento. O cara ficou louco. Ainda falei pra se acalmá que era só bomba, mas ele respondeu todo acabrunhado:

“Não; vou-me embora.”

– Ele, Zezeu, atravessou a pista, entrou no carro e desapareceu, esquecendo o caderno de anotações.

– Foi mesmo, Manoel? –

– Eh, cumpade Zezeu, pela primeira vez, o que disse de memória, ficou o escrito em minha mão. Acho que a roupa de pinguim ficou pra quem usa bermuda e peito aberto, né mermo? – Riram.

– É verdade, cumpade Manoel, é verdade.

– Agora… vei até um mote de um samba duro na minha cabeça, Zezeu. Vou anotá aqui no caderno do estudante mermo.

– Anota, cumpade. Anota.

– Pra cantá mais tarde com as sambadeira no terreiro.

Depois disso, Manoel preto juntou seu maquinário de trabalho e foi para casa, com Zezeu que morava perto, cantando pelas ruas o seu novo samba.

Muzungo medroso no Beiru

Muzungo medroso no Beiru

Corre ao primeiro zunzunzum

Corre ao primeiro zunzunzum.

– Eh, cumpade Zezeu, acho que tá tudo certo. O samba tá sendo feito, as menina já passa nos afazeres da festa. Agora, o gringo de periferia… Que muzungo medroso! –

Riram os dois, mas antes de entrarem em casa, Manoel Preto ainda falou uma última frase, sem parar de rir, a compadre Zezeu.

– O Beiru dá e deixa mermo, né cumpade! –.

Davi Nunes  é mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL na Universidade do Estado da Bahia- UNEB, graduado em Letras Vernáculas pela mesma instituição, é poeta, contista e escritor de livro Infantil.